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Luís Newton 14/01/2021
Luís Newton

opiniao@ionline.pt

Um país a perder o rumo

Desde março que quem nos governa devia ter procurado encontrar estratégias, modelos e serviços que nos permitissem viver com mais segurança.

No que costumava ser um frenesim matinal na cidade, voltei a ouvir os pássaros a chilrar.

Reconheço este som. É o som do confinamento de uma cidade, de uma civilização.

Os números da pandemia fazem-nos regressar aos medos de março de 2020, quando o mundo que conhecíamos se fechou e mergulhou numa espiral de ansiedade.

Não sabíamos nada, não conhecíamos o inimigo, só sabíamos o nome: SARS-CoV-2.

Tudo mudou.

Era de esperar que, um ano depois, tivéssemos aprendido muito. Desde logo entender qual a principal arma para derrotar o inimigo: testar, testar, testar.

Porém, todos os dias nos deparamos com o seu oposto e, enquanto autarca, sou diariamente confrontado com o impensável.

Vejo pessoas que tiveram contactos de risco a serem mandadas trabalhar pelas autoridades de saúde porque não têm sintomas.

Vejo pessoas a viverem com infetados sem que lhes sejam feitos testes.

Vejo pessoas a terem de pagar testes do seu próprio bolso porque tiveram alta clínica, mas não querem arriscar a incerteza do “já passaram dez dias, já pode voltar à sua vida”.

E se contaminarem alguém? Um familiar próximo? Um pai, um avô?

Vejo novamente aquele medo, novamente aquela ansiedade.

Vejo pequenos comerciantes que já não aguentam manter o seu negócio aberto, vejo o desemprego a aumentar. Os pedidos de auxílio para pagar rendas, contas de água, eletricidade e mesmo alimentação crescem todos os dias.

Vejo as pessoas resignarem-se a uma fatalidade que parece querer levar-lhes as conquistas de anos de trabalho e investimento.

E com isso vejo a economia a definhar.

Em dezembro último, aquando da aprovação do Orçamento para 2021, perguntavam-me porque mantinha um cenário pessimista em cima da mesa quando tínhamos notícias tão positivas da vacina?

Seria eu o único a prestar atenção às notícias que vinham da Europa? À ameaça de uma terceira vaga mais violenta?

Tenho a certeza de que não sou o único autarca com planos de contingência, porque tenho visto muitos casos de sucesso no apoio de proximidade às populações.

Da minha parte, desde o primeiro minuto tentei proteger e ajudar a minha comunidade.

Desinfetei ruas quando muitos achavam um exagero e distribuí máscaras ao domicílio desde a primeira hora (atacado por negacionistas e por todos os que achavam mais prático não ver a evidência).

Apoiámos os avós da freguesia com entrega de compras, refeições, medicamentos, apoiámos lares, instituições de ensino cooperativo e social e IPSS.

Quando no país escasseavam equipamentos de proteção individual (EPI) já os funcionários da Estrela, os colaboradores das nossas instituições parceiras e até o nosso centro de saúde e a nossa esquadra da PSP, recebiam equipamentos da junta de freguesia.

Testámos, testámos, testámos.

Distribuímos computadores para que as crianças pudessem acompanhar a telescola e não se atrasassem mais no único elevador social que esbate as diferenças: a educação.

Batalhei, como tantos autarcas por esse país, e continuo a batalhar.

Não baixei os braços quando percebi que as crianças da minha freguesia iriam ficar sem escola porque as obras não tinham sido acauteladas. Arranjei uma solução em menos de duas semanas e, no dia de início do ano escolar, não falhámos.

E quando me perguntam o que se pode fazer, como combater esta aparente fatalidade que se abate sobre nós, sobretudo quando a Europa também parece não saber responder, fico frustrado.

Frustrado por sentir que o país é governado mais pela lei do confinamento do que pela lei do planeamento.

O ser humano não consegue lidar com longos períodos de confinamento. Desde março que quem nos governa devia ter procurado encontrar estratégias, modelos e serviços que nos permitissem viver com mais segurança. Ao invés, deixaram isso à consciência de quem já não conseguia viver envolvido por paredes.

Agora parece evidente que não há alternativa. Temos de voltar a confinar.

Confinamos, mas não esquecemos… não esquecemos quem nos trouxe até aqui, quem ridicularizou alternativas e fez um país perder o rumo.

 

Presidente da concelhia do PSD/Lisboa e presidente da Junta de Freguesia da Estrela

 


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