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Carlos Carreiras 13/01/2021
Carlos Carreiras

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Cuidado com o delírio populista da direita radical

A presidência Trump termina como muitos, à esquerda e à direita, anteciparam: em trágica decadência.

Como capital americana, Washington precisa de mais do que os dedos de duas mãos para contar os episódios de tensão política nas suas ruas. Os especialistas têm-se esforçado para encontrar um equivalente histórico ao momento em que, na semana passada, uma multidão em fúria invadiu o Capitólio. Mas não há nenhum. Uma horda de delinquentes, alimentados a mentiras, movidos a ódio, assaltando com gozo alarve a casa da democracia americana no momento de contagem de votos sob comando, mais ou menos explícito, do Presidente dos Estados Unidos da América. Isto não tem paralelo.

A presidência Trump termina como muitos, à esquerda e à direita, anteciparam: em trágica decadência. Isto talvez seja motivo de regozijo para muitas almas que, sempre prontas a espezinhar a América para defender regimes insalubres e ideias demenciais, choram lágrimas de crocodilo pela democracia. Para os moderados, para os amantes da liberdade e da civilidade, o episódio é um choque. Mais do que isso, é um alerta potente para os riscos da deriva populista cada vez mais encrostada nas sociedades ocidentais.

Assistimos à proliferação de mini-Trumps um pouco por todo o lado. Esta é gente que não conhece nem regras nem leis o que, de certa forma, torna o combate desigual. A favor dos democratas há, porém, a vantagem de já sabermos o dano que a extrema-direita radical causa. Por outro lado, também sabemos que livros leem. Qualquer populista que se preze reclamará uma nação pura, um país fechado à imigração e a defesa dos valores religiosos. O populista mascara-se de homem comum e revela-se como voz do povo contra o sistema corrupto. Desafia a ordem estabelecida, procura enfraquecer o sistema judicial, diverte-se a descredibilizar das instituições e é ostensivo no ataque aos media. Numa aproximação ao comunismo, o populista de extrema-direita não se bate apenas por uma nação de puros. Ele recria a luta de classes: o povo contra elite, alimentando o ódio dos primeiros (subjugados) contra a casta fundamentalmente corrupta de privilegiados.

A pobreza programática da extrema-direita populista é confrangedora. Como se diz na gíria, para qualquer problema um populista tem sempre uma solução que é fácil, simples e errada. Trump mostrou-o à saciedade. Não é o único. Logo, se podemos aprender alguma coisa com a América é que debater políticas concretas para problemas concretos é o primeiro passo para derrubar um populista.

Outra dimensão do extremismo populista é a do estilo. Eles usam a flexibilidade com os factos. Recorrem à vulgaridade para serem invulgares. Estão confortáveis no espetáculo de canibalismo televisivo. O populista é um homem providencial. Porém, o que a história nos mostra é que, destes, originais não há e as cópias deram sempre asneira. O populista é o último reduto dos valores judaico-cristãos. Porém, não há nada de ético no insulto nem de moral na mentira nem de cristão na intolerância.

Apesar de toda a sua radical pobreza, continuo a achar que a deriva populista tem potencial para escalar. E porquê?

Em primeiro lugar, a violentíssima crise pandémica que estamos a viver promoverá o crescimento dos extremos, tal como a crise financeira de 2007. Chegámos a 2021 com o centro político já muitíssimo debilitado. A pandemia só tenderá a abrir feridas mais fundas. Dirão alguns, contra este argumento, que Trump perdeu as eleições. É verdade. Acrescentaria que não perdeu só a Casa Branca. Mesmo com 70 milhões de votos no bolso, deixou um rasto de destruição eleitoral no Partido Republicano – sem Casa Branca, sem maioria no congresso, sem maioria no senado. (A derrota em toda a linha sofrida pelo GOP deve levar a uma profundíssima reflexão por todos estrategas das políticas de alianças do centro direita).

Em segundo lugar, parte do sucesso da extrema-direita mora na incapacidade reformista dos partidos tradicionais e na dificuldade (ou arrogância) que os seus protagonistas têm tido para abandonar as suas zonas de conforto. Os partidos não podem continuar a fingir que o emprego, a imigração ou as questões de cultura e identidade não são importantes para uma parte significativa do eleitorado. São importantes. Ou os partidos estabelecidos lideram esse debate de forma ordeira, ou se demitem dessas causas e deixam o campo aberto para o radicalismo. Enquanto os populistas e extremistas forem a única voz disponível para muitas causas que importam às pessoas, e que têm validade política no quadro democrático, o seu espaço continuará a aumentar. Infelizmente, continuamos a deixar todo esse espaço à conta dos mais impreparados, mais demagogos e mais incapazes protagonistas políticos.

Em terceiro e último lugar, os democratas têm finalmente de aprender a combater os extremistas. Eles não se combatem com mais extremismo. Nem com mentiras. Nem na arruaça. Nem na soberba dos que se julgam donos do debate, da democracia e da República. Eles combatem-se com aquilo que lhes falta. Com valores, com humildade, com verdade. Com propostas políticas que tenham significado para tantos milhares de cidadãos que o sistema deixou de querer representar.

Trump mostrou-nos todo o poder destrutivo do delírio populista. A nação americana saberá recompor-se. Que outros países, com democracias mais frágeis, não tenham de passar pelo mesmo. Que os democratas se mobilizem contra o perigo extremista. O tempo é agora. Quando uns querem dividir os cidadãos entre os bons e os maus, não só é perigoso, como pode mesmo levar a que sejamos todos maus.

 

Presidente da Câmara Municipal de Cascais
Escreve à quarta-feira

 

 


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