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Estrela. Nada na manga, ou os truques do Luvas Pretas

Estrela. Nada na manga, ou os truques do Luvas Pretas

Afonso de Melo 12/01/2021 17:11

Hoje, frente ao Benfica, o Estrela da Amadora regressa aos grandes jogos. Memórias da vitória do Jamor face ao Farense, em 1990.

João Alves gostava de truques. Ele, que fora jogador do tempo do futebol malandro, também se tornou treinador com a sua dose refinada de malandragem. Dois dias antes da final da Taça de Portugal da época de 1989-90 pegou na sua equipa, o Estrela da Amadora, e desapareceu. Queria ter sossego e fugir ao assédio da imprensa. Levou todo o grupo para local desconhecido, e para nós, repórteres, havia que encontrá-lo. Trabalhando n’A Bola, fiquei com o berbicacho em mãos. Resolvido de pronto por um fotógrafo da velha guarda, tão ou mais malandro do que o Luvas Pretas e, sobretudo, um completo conhecedor de tudo o que se passava lá pela Amadora. Chamava-se João Manarte.

Com ele fui ao encontro dos rapazes dos arrabaldes de Lisboa num local precisamente situado nos arrabaldes. Por causa do Manarte, fomos os primeiros a chegar e a apalpar o pulso de uma equipa que atingia o momento mais alto da sua história. Gente como Melo, o guarda-redes, Bobó, Paulo Bento, Duílio, Rebelo, Pedro Barny, Basaúla, Pedro Xavier ou Baroti, por exemplo, iria defrontar outro finalista absolutamente surpreendente: o Farense, que acabara de garantir a subida à i Divisão nacional. O percurso dos algarvios até ao Jamor foi esforçado, como dificilmente poderia deixar de ser, até porque, pelo facto de estar numa divisão secundária, lhe coube mais duas eliminatórias: Portalegrense (3-0); Oliveirense (3-2); Odivelas (9-1); Esperança de Lagos (7-0); União da Madeira (0-0 e 2-0 no desempate); Valonguense (4-0) e Belenenses (2-1 após prolongamento).

Claro que, tirando o Belenenses, na meia-final – nenhum dos três grandes atingiu sequer os quartos-de-final –, os adversários não foram propriamente de topo. Mas com isso pouco se importava um treinador catalão, de nome Paco Fortes, que durante dez anos consecutivos esteve no comando da equipa. Dentro do plantel tinha igualmente gente que ficou com o nome marcado no futebol português, desde o guarda-redes Lamajic, que viria a jogar no Sporting, a Carlos Pereira, que viera do Benfica, passando por Jorge Soares, Formosinho, Pereirinha, Nelo, Vitinha, Pitico, Mané e Fernando Cruz. A final do Estádio Nacional tinha tudo para ser equilibrada. E foi. Aliás, foram ambas, já que um jogo não bastou para decidir o vencedor.

 

Escolhos

Se deitarmos uma vista de olhos pelo percurso do Estrela da Amadora até à final vamos deparar com uma série de escolhos capaz de pôr os nervos do mais pacato em pé. Nos 1/32-avos-de--final, primeira eliminatória em que entraram as equipas da i Divisão, o assunto resolveu-se com um confortável 6-2 ao Estoril. A partir daí, o assunto complicou-se: Braga (0-0 no primeiro jogo e 1-1 no desempate; não contavam golos fora, decisão nas grandes penalidades – 9-8); FC Marco (1-0); Tirsense (1-0); V. Guimarães (1-1 e 2-1, após prolongamento no tira-teimas).

No dia 27 de maio de 1990, o Estádio do Jamor recebeu um confronto verdadeiramente inédito. Renhido, confuso, sem direito a espetáculo, terminou inevitavelmente empatado, tal foi o equilíbrio entre amadorenses e farenses: 1-1, com os golos a surgirem no prolongamento, o primeiro para o Estrela, marcado pelo brasileiro Nelson Borges, que saíra do banco (93 m), o segundo da autoria de Fernando Cruz, quase, quase sobre o apito final (117 m).

A finalíssima ficou agendada para 3 de junho. E o Estrela foi mais forte. O embate voltou a ser mais combativo do que bem jogado, mas o golo de Paulo Bento – que cumpriria 17 dias depois o seu 20.o aniversário – aos 30 minutos desbloqueou o espírito da equipa de João Alves. Depois de tantos desempates, prolongamentos, grandes penalidades e o diabo a quatro, o grupo da Amadora sentiu que tinha a taça nas mãos e não podia deixá-la fugir. Foi controlando os acontecimentos, com Bobó, Paulo Bento e Chico Oliveira a dominar o meio-campo, e deu a machadada final aos 63 minutos por Ricardo Lopes. Era a 50.a edição da prova com esse nome. Momento certo para deixar o nome do Estrela preso para sempre na cadeia da memória.

 

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