28/1/21
 
 
António Cluny 12/01/2021
António Cluny

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Catolicismo e Presidenciais

Hoje, a Igreja Católica tem um Papa – Francisco - que, curiosamente, ou talvez não, muitos católicos gostam de invocar, mas cujos ensinamentos poucos gostam de citar e muito menos estudar, discutir e seguir.

Ao contrário de outros tempos, a questão religiosa - ou, melhor, de se ser ou não católico - entrou nestas eleições presidenciais, não para distinguir os candidatos da direita dos da esquerda, mas para distinguir os candidatos da própria direita: as candidaturas de direita, a da extrema direita e a da direita liberal.

O presidente candidato afirmou-se católico social e com isso quis - e bem – diferenciar-se de um outro candidato à sua direita, que também reclama para si a mesma fé.

Uma religião que acredita num Deus que se fez homem para, com a humanidade, percorrer os caminhos difíceis e as perplexidades da sua existência só pode, por definição, assumir-se como social.

Ser-se católico só pode, pois, significar ser-se católico social.

Por isso, o catolicismo – e o cristianismo, em geral - esteve e está intrinsecamente ligado à história e à vida política de parte significativa da humanidade.

Os católicos foram, todavia, expressando, de modos vários, o seu posicionamento social e, como sabemos, nem sempre todos o fizeram da forma mais condicente com os fundamentos basilares da religião que professavam.

Isto permite a quem hoje se assume como católico encontrar citações e inspirações sociais diferentes nos ensinamentos que, neste aspeto, a Igreja Católica foi manifestando em períodos e situações distintas da História.

Tais inspirações e citações não são, por conseguinte, neutras ou politicamente indiferentes quando feitas nos dias de hoje.

O sinal político que resulta de se citar Leão XIII, Pio XII, João XXIII, João Paulo II ou Francisco não é naturalmente desinteressado e não deixa de ser revelador de que catolicismo cada um se quer reivindicar.

Hoje, a Igreja Católica tem um Papa – Francisco - que, curiosamente, ou talvez não, muitos católicos gostam de invocar, mas cujos ensinamentos poucos gostam de citar e muito menos estudar, discutir e seguir.

O que ele diz sobre como ser-se hoje católico separa, com efeito, mais os católicos – ou os que se dizem católicos – entre si, de que de muitos que não são católicos, nem religiosos.

E isso é novo.

Vejamos, por exemplo, como se poderão situar os candidatos presidenciais católicos – e os que se dizem católicos – e os não católicos, ante as seguintes afirmações de Francisco na sua encíclica Fratelli Tutti.

Julgue o leitor!

DIREITOS HUMANOS: «Persistem hoje no mundo inúmeras formas de injustiça alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo económico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até matar o homem.»

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE: «O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade.»

FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE: «O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados (…). Mas acontece muitas vezes que os direitos secundários se sobrepõem aos prioritários e primordiais, deixando-os sem relevância prática.»

CONSCIÊNCIA HISTÓRICA: «Os povos que alienam a sua tradição (…) toleram que se lhes roube a alma, perdem justamente com a própria fisionomia espiritual, a sua consistência moral e, por fim, a independência ideológica, económica e política.»

SUJEIÇÕES: Alguns países, economicamente bem-sucedidos, são apresentados como modelos culturais para países pouco desenvolvidos, em vez de procurar que cada um cresça com o seu estilo peculiar, desenvolvendo as suas capacidades de inovar a partir dos valores da sua própria cultura.»

POLÍTICA E PROJETO PARA TODOS: «… a política deixou de ser um debate saudável para projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efémeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro.»

PANDEMIA: «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta.»

MIGRAÇÕES: «As migrações constituirão uma pedra angular do futuro do mundo. Hoje, porém, são afetadas por uma perda daquele sentido de responsabilidade fraterna, sobre o qual assenta toda a sociedade civil. A Europa, por exemplo, corre riscos de ir por esse caminho.»

COMUNICAÇÃO: «… as pessoas escolhem vincular-se de maneira constante e obsessiva: isso favorece o pululamento de formas insólitas de agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais até destroçar a figura do outro (…). A agressividade social encontra espaço de ampliação incomparável nos dispositivos móveis e computadores.».

«Deve reconhecer-se que os fanatismos, que induzem a destruir os outros, são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir cristãos. (…) Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia.»

PENA DE MORTE: «Desde os primeiros séculos da Igreja, alguns manifestaram-se claramente contrários à pena de morte. Por exemplo, Lactâncio defendia que “não há qualquer distinção que se possa fazer: sempre será crime matar um homem”. O Papa Nicolau I exortava: “Esforçai-vos por livrar da pena de morte não só cada um dos inocentes, mas também os culpados”.»

 

 

 

 


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