28/1/21
 
 
José Paulo do Carmo 08/01/2021
José Paulo do Carmo

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Saudade – palavra do ano 2020

As redes sociais são no fundo instrumentos anti saudades. Porque nos dão uma falsa sensação de presença e porque muitas vezes nos impedem de vivermos esses momentos perfeitos à procura de mostrar ou de ver o que os outros estão a pensar.

Para os portugueses, a palavra do ano 2020, escolhida por 40 mil internautas numa votação do grupo Porto Editora, foi “saudade”. O que traduz de forma fiel o impacto da pandemia nas relações sociais e familiares no ano que acaba de terminar. Na verdade, fomos apanhados todos desprevenidos com o aparecimento da covid 19. Ninguém achou que seria possível o mundo parar de uma forma tão transversal. E o confinamento a que fomos submetidos, quase de forma coerciva diria, sobretudo para quem tem preocupações éticas e morais relevantes, para quem gosta dos seus e se preocupa com os que nos rodeiam. Esta situação anómala e improvável fez soar os alarmes e encheu de medos e inseguranças sobretudo quem tem casos mal resolvidos e relações desavindas mas que mantém a esperança de os resolver deixando para amanhã a resolução de conflitos que lá no fundo não desejamos. Porque acreditamos que haverá sempre tempo.

Mas o tempo não espera por nós. Prega-nos partidas. Partidas que deixam marcas e um profundo arrependimento que muitas vezes conduz a vidas amarguradas que jamais se recompõem. Essa noção de finitude, nossa e dos que amamos e o receio de que algo acontecesse tornaram dramáticos os últimos largos meses. Porque nunca estamos preparados para nos despedirmos de forma permanente e isso acarreta sempre desafios brutais. Para além de que, não raras vezes, cometemos erros com outras pessoas e por uma questão de orgulho deixamos o tempo passar, sentindo a sua falta mas acreditando sempre que haverá mais do que tempo para recuperar o tempo perdido e para fazer as pazes. Mas as saudades vão muito para além dos erros e da casmurrice. É sinónimo de que já passámos por momentos fantásticos ou temos pessoas que fazem parte de nós que nos trazem para este sentimento.

Dizem que é o Amor que fica. Para nós curiosos da Vida é também o que queremos recuperar, do que não abdicamos. Que não vai embora e nos traz tão boas recordações. Tão boas que se pudéssemos viveríamos tudo aquilo outra vez. A Saudade é o sentimento que reproduz a parte boa da nossa história. É uma memória seletiva que nos transporta para o melhor que conseguimos realizar de alguém ou de algum momento. Das nossas amizades, da família que gostamos ou daquele espaço temporal em que tudo funcionou de forma perfeita. E como era bom que quando passamos por eles soubéssemos naquele preciso momento a exata medida do quanto nos fará falta quando dermos por ela. É por isso que as redes sociais são no fundo instrumentos anti saudades. Porque nos dão uma falsa sensação de presença e porque muitas vezes nos impedem de vivermos esses momentos perfeitos à procura de mostrar ou de ver o que os outros estão a pensar.

Só posso por isso desejar que este novo ano de 2021 seja de reencontros. Que em larga escala possamos “matar” essas saudades que nos apertam, de coisas tão simples, que faziam parte do nosso quotidiano e nem dávamos valor. Mas também daquelas pessoas que nos preenchem e que mal aguentamos longe delas. É bom sermos saudosistas construtores. Que consigamos dar valor às experiências sempre com vontade de concretizar novas. Não para as substituir mas para lhes acrescentar. Ter saudades é um privilegio de quem tem. É a conjugação do verbo “Ser” por inteiro. Que não fique por isso nada por dizer. Aquele pedido de desculpa, o gosto de ti, o agradecimento porque me fazes bem. Aos que são importantes para nós. As saudades só começam no fim de algo inesquecível. É a declaração de Amor que perdura no tempo…


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