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Rui Patrício 08/01/2021
Rui Patrício

opiniao@newsplex.pt

Uma agulha

Não é uma agulha no palheiro, é uma agulha com a vacina contra o SARS-CoV-2, a primeira administrada no mundo.

Preciso de ajuda, caros leitores, é urgente, é importante. Não é caso de vida ou de morte, mas é pior, é caso de ser ou de não ser, eis a questão. Dão-se alvíssaras por qualquer contribuição ou resposta. Onde posso seguir Ms. Margaret? Tem conta(s)? Como está ela? Quantos seguidores tem? Ganhou muitos, perdeu alguns? Que tem feito? Está feliz? Passou as festas com a família? Que tem lido, visto, comido, pensado? Ou não tem pensado nada? Tem cão ou gato, ou talvez um periquito? Mudou de penteado? É amiga de quem? Foi bloqueada? Postou pensamentos, brindes, poses, caretas? Quantas polémicas? Já está rica, ou ainda não tem seguidores que cheguem? Tem tomado a medicação? E t-shirts, tem aparecido com melhores ou piores do que a azul a desejar feliz Natal? Como lhe vai a vida, agora que, após nove décadas de vida anónima, uma agulha a catapultou para a fama? Não é uma agulha no palheiro, após esperar tantos anos no centeio. É uma agulha com a vacina contra o SARS-CoV-2, a primeira administrada neste nosso mundo. Calhou a Ms. Margaret, e eu, que a vi tantas vezes e em tantos lugares desde o memorável dia em que captaram o momento fundador em que desnudou o braço e lhe cravaram a agulha, tornei-me devoto. E já não posso passar sem ela, nada tem sentido se a não puder seguir, ver, aprender com ela, pensar com ela, chorar, rir, acordar e adormecer, dia após dia. Procuro, oh, sim, avidamente, desesperadamente buscando.

Desespero por saber, quero segui-la, saber dela, manifestar-lhe o meu agrado ou desagrado várias vezes por dia. Vou ao aparelho, e nada. Roo as unhas, enervo-me, sufoco. E procuro, clico, interrogo. Onde está Margaret? Como está Margaret? Quero ver, quero saber, quero postar, quero tributar homenagem ao seu animal de estimação, ao seu chá, aos seus pores do sol, ao seu tricot, à sua artrite, aos seus bocejos e flatos. Já não me interessam os desenhos de X, as viagens do Zé ou da Maria, as vestimentas ou os arrufos de A e de B, os bebés de C, as ilhas paradisíacas de Y e Z; nem nenhuma de todas as importantes, ou mesmo vitais, influências que por aí se oferecem. Estou entediado, desapontado, perdido, vazio. Busco Ms. Margaret. Queria ter sabido sobre a festa dos seus 91 anos, queria ter brindado com o seu brinde de ano novo, queria saber se fez boquinha de avó fofinha no Natal ou se franziu, rabugenta, o sobrolho. Queria saber que emojis prefere, que sites visita, que fotografias espreita, que famosos amiga ou desamiga. Queria e quero. Preciso.

Assim não dá, assim não aguento. Que vida posso ter, que esperança me resta, que dias terei, sem a possibilidade de seguir Margaret? Por favor, minha senhora, crie uma conta, ou várias, e deixe-me segui-la, permita que eu seja alguma coisa consigo. Influencie-me, faça-me sentir vivo. Diga-me que existo, não me tire a emoção vital de a procurar, ver e saber de si. Sigo, logo existo. Se não, nada. Não me faça isso, Ms. Margaret. Ligue-se. Ligue-me. Ligue-nos. Please. Like. Smile. Love. Help.

 

Escreve quinzenalmente à sexta-feira

 


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