28/1/21
 
 
Mário João Fernandes 08/01/2021
Mário João Fernandes

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PSD: Sumol sem sabor a laranja?

A marca PSD vive, como os refrigerantes, de um sabor reconhecido. No caso do PSD, o partido mais português de Portugal, a ideologia é a do refrigerante nacional.

A que sabe o Sumol? Sabe a Sumol. A tentativa de diversificar os sabores do Sumol nunca teve grande sucesso, limitou-se a estimular os coleccionadores de caricas raras. Também no PSD as tentativas de diversificação ideológica têm sido votadas ao insucesso. O PSD herdou os eleitores e a “não ideologia” de uma classe média de província, com quadros na iniciativa privada mas também no funcionalismo público e que transitaram de forma indolor vindos da Acção Nacional Popular. Face aos excessos de esquerda, o PSD surgiu como a versão pós-25 de Abril do partido “ordeiro”. Não podendo ser revolucionário, decidiu-se pelo reformismo e auto-denominou-se “social democrata”. O fim do PREC, o desmontar da tutela militar do regime, a adesão à CEE, a queda do muro de Berlim, a globalização, a sucessão de crises económicas, o empobrecimento das classes médias, a atrofia no crescimento do PIB e o crescente endividamento público reduziram a margem de manobra dos Governos. Em Portugal a esquerda e a direita passaram a distinguir-se não tanto pelas políticas mas pelas companhias, mantendo o bipartidarismo e a rotação entre PSD e PS, mas agora com um grau de crescente imperfeição, fruto da atomização do sistema partidário. Passaram a ser necessários três a quatro partidos, quando não cinco, com assento na Assembleia da República para sustentar um Governo.

À direita há uma aparência de diversidade na escolha partidária: PSD, CDS-PP, Chega, Iniciativa Liberal. Esta ilusão poderá mobilizar eleitores que se tenham cansado do PSD ou retirar eleitores ao partido da abstenção. Mas será preciso federar o tutti frutti de sabores. O PSD, não sendo marcado pela ideologia, poderá tentar construir um denominador comum programático, mas a chegada ao Governo porá a nu as contradições insanáveis inicialmente tapadas pela fome de poder. Ao contrário do que tem acontecido à esquerda, onde o PCP não transige com a burguesia no exercício da governação, permitindo assim ao PS, em nome da igualdade de tratamento, não sentar o Bloco à mesa do Governo, à direita não há pudicícia no exercício do poder: todos querem uma assoalhada na Gomes Teixeira. O CDS já o fez por oito vezes, tendo-se estreado em funções governamentais pela mão de Mário Soares (o II Governo Constitucional durou, em 1978, 7 meses e 6 dias e o XX ficou para a história pelos 27 dias de existência). O Chega, partido monovocal, já anunciou pela boca do líder quais as pastas ministeriais que pretende ocupar. Se a Iniciativa Liberal vier a ter deputados em número necessário à formação de uma maioria parlamentar não enjeitará o exercício da governação.

O concurso público para condestável da direita está a decorrer, tendo prestado provas recente e quase simultaneamente Cavaco (um Presidente da República de direita no exílio da travessa do Possolo) e Passos (um líder do PSD no exílio ideológico “liberal”, mesmo quando foi Presidente da Comissão Política Nacional). Rio faz-se de morto, um papel que conhece bem. Marcelo tem, até 24 de Janeiro, o calendário contra si. Depois virá l’embarras du choix: quando iniciará funções o XXIII Governo Constitucional e quem, na direita, poderá sentar-se à sua mesa. Não havendo, por culpa do próprio, um partido “marcelista”, muito menos no PSD, também não será desta vez que um futuro Governo será liderado a partir de Belém. Mas tal circunstância não tirará brilho à lide.

 

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990


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