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Fernando Almeida. "Esta é uma doença de civilidade. Se formos civilizados, as medidas terão mais efeitos"

Fernando Almeida. "Esta é uma doença de civilidade. Se formos civilizados, as medidas terão mais efeitos"

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 10/01/2021 11:15

Presidente do INSA analisa o atual momento da pandemia e fala dos projetos para este ano. Novo inquérito serológico arranca no final do mês.

A terceira vaga parece estar a formar-se, mas Fernando Almeida pede prudência na análise. Os recordes de casos desta semana estão ainda a ser analisados para se perceber a data de início de sintomas, depois de semanas com menos testes. Quanto a ter havido erros na folga do Natal, defende que essa é uma análise que só se pode fazer mais tarde. À frente do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) desde 2014, a casa de onde sai a análise da curva epidemiológica em que o Governo baseia decisões, mas também onde se começaram a fazer os testes da covid-19 e onde se estudam as mutações do vírus – e onde não existe apenas “covid”, sublinha o responsável –, considera que mais financiamento seria bem-vindo, mas estabelece um princípio: ”Se esse dinheiro for para tirar dinheiro aos hospitais para tratar de doentes, não o quero”. Não se aventura em previsões otimistas – que considera perigosas –, mas espera que à medida que o ano e a vacinação avançam haja um alívio da pandemia. Com uma certeza: esta é uma doença em que o civismo influencia a eficácia das medidas que são tomadas em cada momento. As “lições aprendidas” poderão levar a que nos próximos invernos, para diminuir doença respiratória que todos os anos tem impacto na mortalidade e nos hospitais, se continue a usar máscara para proteger os mais vulneráveis, vaticina. Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, o INSA vai fazer um novo inquérito serológico nacional para perceber quantos portugueses estiveram expostos ao vírus na segunda vaga da pandemia e adquiriram anticorpos – agora com uma amostra de 8 mil pessoas, três vezes mais do que o estudo inicial. Será esta a base para perceber, em estudos seguintes, como a vacina está a ajudar a construir a almejada imunidade de grupo. Há outro projeto de fôlego na calha para 2021: começar a sequenciar o genoma de 10 mil portugueses, no âmbito da iniciativa europeia 1+ Million Genomes.

 

A ministra da Saúde emocionou-se no INSA, no final do ano. Foi também para vocês um ano de muita pressão?

Não me vou pronunciar sobre o que levou a ministra a emocionar-se, mas considero um sinal de dignidade mostrar as emoções. E vimo-lo não como uma homenagem, mas como o reconhecimento do trabalho de uma instituição que tem dado provas no acompanhamento da pandemia. É difícil perceber qual é o nosso estado de espírito perante situações que, semana a semana, nos colocam desafios permanentes. Não é só mais trabalho, é a complexidade, as novas linhas de investigação, é ir respondendo a solicitações que surgem em catadupa. Estávamos preparados? Ninguém no mundo estava preparado para uma pandemia.

Portugal tinha mais fragilidades nessa infraestrutura que outros países, nomeadamente europeus?

Depende do que se considera fragilidades. Não somos dos países mais ricos da Europa. Em termos de resposta do SNS, não vimos o que se viu, no início, noutros países, situações chocantes, camiões frigoríficos... Portugal conseguiu reagir muito bem, com as características que são as particularidades do nosso país. Dir-se-á que não há médicos, não há enfermeiros, não há técnicos suficientes. Penso que o que fizemos com essas dificuldades está aí para o demonstrar.

Recorda-se do dia em que começaram a seguir o alerta do novo vírus no instituto?

Quando surgiu informação da China começámos a preparar-nos e a seguir as orientações do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e da Organização Mundial da Saúde. Mas o trabalho começou a aumentar sobretudo a partir do momento em que os casos surgem na Europa e temos o aumento de casos em Itália. Neste tipo de situações, e infelizmente não foi a primeira – já tínhamos vivido nos últimos anos a ameaça do ébola –, o INSA é o laboratório de referência nacional, por isso tem de estar preparado para despistar casos suspeitos, mas a partir do momento em que o risco aumenta começamos a escalar resposta e a mobilizar diferentes laboratórios nacionais. Uma data marcante foi 25 de fevereiro: fizemos a primeira reunião com os laboratórios hospitalares. E penso nisso agora com alguma emoção e saudade: as pessoas ainda vieram cá, foi a última vez que tivemos o auditório cheio. Foi no Carnaval que começou tudo a mudar: o primeiro caso já foi diagnosticado no Porto e, depois, aqui em Lisboa.

Passa agora quase um ano e foi quase a tempestade perfeita: muita gente a circular na Europa nas férias/trabalho nas habituais feiras empresariais, uma variante do SARS-CoV-2 a espalhar-se rapidamente em Itália...

Sim. O trabalho de análise genómica que é feito no INSA permitiu perceber que foi a que entrou cá e se espalhou rapidamente. Foi a que infetou a maior parte das pessoas no Norte, Ovar, ainda Viseu, e não veio para Lisboa. O que significa que aquela medida da cerca sanitária em Ovar, por vezes questionada, foi muito eficaz.

Tendo sido assim, não poderia ter sido implementada inicialmente no Vale do Sousa, quando se percebeu que havia um aumento significativo de casos e antes de alastrar a mais concelhos?

O evento foi tão rápido que não sei. A primeira onda teve um aumento exponencial de casos. Agimos precocemente, vimos o que estava a acontecer nos outros países. Creio que, a partir daí, as medidas foram tomadas com bom senso e a seu tempo. Agora, há uma questão que devemos ter sempre presente: há 200 anos, há 100 anos, hoje, as medidas que já conhecemos são as medidas eficazes. E são as mesmas que existiam nas outras pandemias, na pneumónica, em 1918. Pode-se melhorar a eficácia das medidas, mas são as mesmas. O vírus não anda sozinho. Anda através das pessoas. Só se transmite através das pessoas: evidentemente que pode haver o papel das superfícies, etc., mas há uma intervenção humana. E, por isso, o que temos são os métodos-barreira: a etiqueta respiratória, a lavagem das mãos, o distanciamento, eventualmente levado ao extremo em confinamentos pontuais, confinamentos mitigados por nível de risco nos concelhos ou outros. E, depois, a progressiva imunização da população: seja de forma natural, pelo contacto com a doença, seja pela vacinação. E depois temos, do outro lado, a resposta da saúde. Sabemos que tivemos uma segunda onda que não teve nada a ver com a primeira, mas penso que houve um equilíbrio das medidas.

Não teve nada a ver porque foi pior.

Bastante pior em termos de incidência, mas também aí se vê como foi possível aumentar a capacidade de resposta e manter o país a funcionar. Tivemos uma onda muito maior e conseguimos geri-la de outra forma.

Houve, ainda assim, muito mais mortes na segunda vaga – a maioria, nos últimos meses do ano.

Penso que temos de nos comparar com outros países da Europa e fazer esse balanço no fim. Sabemos que é uma inevitabilidade.

É uma inevitabilidade termos mais mortes?

Nestas circunstâncias de pandemia, temos de esperar uma maior mortalidade. A morte nunca é uma inevitabilidade, mas estamos a viver uma pandemia. Penso que tudo isso foi sempre tido em conta e o primeiro-ministro sempre disse que se tivéssemos de puxar o travão de mão, fá-lo-íamos.

Países como a Alemanha ou mesmo o Reino Unido tomaram medidas mais restritivas mais precocemente. Não poderão ter estado certos?

Nunca há coincidência temporal na pandemia nos diferentes países. Não nos devemos comparar com os outros países só para algumas coisas. Outros países também tomaram decisões que, provavelmente, não deviam ter sido tomadas, e nós não as seguimos, seja a Suécia ou Inglaterra, com a abertura dos bares. Sabemos que um país não pode simplesmente parar, senão morremos da cura. Sinto que houve sempre um equilíbrio e um apelo ao civismo, que é necessário. Esta é uma doença de civilidade. Podemos ser mais ou menos civilizados nos nossos comportamentos. Se formos mais civilizados, teremos sempre mais efeitos com quaisquer medidas que possam ser tomadas. O mais relevante para mim é que a tomada de decisões seja sempre baseada na evidência, no bom senso. Sem entrar em excessos, seja de facilitação, seja de exagero.

Falou-se muito nos últimos meses da mistura entre política e técnica. Dirige uma das casas de onde sai a informação técnica. Sentiu alguma vez que o vosso trabalho não fosse tido em conta ou que fosse interpretado de forma errada pelos decisores?
Não, pelo contrário. Sentimos até que, cada vez mais, os decisores foram olhando e mostrando interesse pelo trabalho que o instituto, quase como formiguinha, tem vindo a desenvolver. O prémio foi solicitarem-nos cada vez mais trabalho. E devo dizer que não existe só covid no INSA. Temos muitos projetos e continuámos a ter durante a pandemia. Há outras doenças transmissíveis que têm de ser diagnosticadas e monitorizadas – tivemos casos de legionela no Norte. 


No grande surto de legionela de 2014, o processo acabou por arrastar-se na justiça e por não ser estabelecido nexo de causalidade em muitos casos. Desta vez, a pandemia afetou a forma como foi feito o acompanhamento desses casos?
Não cabe ao instituto pronunciar-se sobre a investigação epidemiológica. Tudo o que nos foi pedido em termos de análise de amostras, nós fizemos. E ao longo dos meses continuámos a fazer esse trabalho de vigilância de saúde ambiental, continuámos a ter o programa do teste do pezinho sem alterações, que permite o rastreio neonatal de doenças genéticas raras nas crianças, que continuaram a nascer, e também o rastreio pré-natal em alguns casos.


2020 foi um ano com recorde de mortalidade e um excesso de mortes superior às que foram atribuídas à covid-19. As causas de morte ainda não estão codificadas. O INSA falou do impacto do calor no verão. Admite que possa haver algum impacto na mortalidade fruto da quebra assistencial durante a pandemia? 
Penso que esse impacto só será possível compreendê-lo nos próximos meses. Quando foi da troika ouviu-se o mesmo raciocínio, que a austeridade diminuiu a acessibilidade a prestação de cuidados nos hospitais, mas não tivemos esse efeito de forma significativa. O acesso à saúde e a qualidade da prestação de cuidados são sempre variáveis incontornáveis nos resultados em saúde. Mas são questões que têm de se colocar hoje, como se colocaram na troika, em pandemia e fora da pandemia. Não podemos dizer que não há impacto nenhum.

Se o país quase parou, se o mundo quase parou, tem de haver um impacto. E o problema da pandemia, deste vírus altamente transmissível, é o impacto rápido que tem sobre toda a sociedade e o impacto e pressão que coloca sobre os serviços de saúde. De outra forma, seria como qualquer outra doença. O problema é a quantidade de pessoas que afeta, a gravidade da doença em algumas pessoas e a pressão que isso exerce.

Já o disse muitas vezes, mas esta pandemia é muito mais do que a covid-19. Primeiro vemos a onda da covid-19, depois veremos o impacto nas outras doenças, doenças crónicas, diabetes, hipertensão, e as dificuldades que a pandemia colocou na resposta a tudo isso e que terá consequências. Depois, a onda de impacto da economia, desemprego e saúde mental. No meio disto tudo temos a onda da comunicação e dos comunicadores, que tira logo ilações. Toda a gente pode ir à televisão dar a sua opinião. E essa onda também tem um impacto.


Que é?
Exagero, alguma precipitação. Acho que falam pessoas a mais. Transmitem informação que nem sempre é rigorosa e penso que, por vezes, devia haver mais calma e maior reflexão.


Da parte das autoridades, por vezes, houve lentidão na resposta. Há críticas à comunicação. Isso não pode favorecer esse movimento?
Um dia far-se-á a história sobre essa questão. Uma coisa digo: se damos conferência de imprensa é porque damos conferências de imprensa. Se não damos é porque estamos a ocultar informação. As coisas não podem ser avaliadas assim. O que posso dizer é que nunca existiu qualquer ocultação de informação ou adulteração de informação.


Entramos agora em janeiro com recordes de casos e um cenário de um novo confinamento em cima da mesa. Estamos diante da terceira vaga da epidemia?
Para já, o que temos são ainda dados provisórios e considero que não nos podemos precipitar. Atravessámos uma época muito atípica do Natal e do Ano Novo, em que os laboratórios e mesmo os hospitais não tiveram a mesma atividade, seja por diminuição nos horários, seja porque as pessoas podem não se ter deslocado à procura de testes ou assistência aos primeiros sintomas.


Pode ter havido uma desvalorização de sintomas?
Podem ter adiado. Portanto, neste momento, embora estivéssemos perfeitamente à espera que pudesse acontecer este aumento de casos, precisamos de perceber o que ele reflete. Não vale a pena esconder isso, foi evidente o ajuntamento das pessoas, apesar de todos os avisos e conselhos das autoridades. Sabemos que existe aquilo a que chamamos a fadiga pandémica e, nestas alturas, as famílias juntaram-se mais, em casa, nos supermercados, nas compras. E isso é o que o vírus mais gosta: encontra condições favoráveis para se propagar. A partir desta quarta-feira, de facto, temos aqui um aumento objetivo do número de casos. Se configura uma nova onda, parece-me que ainda é cedo para dizer. No instituto fazemos a modelação da epidemia e, neste momento, estamos ainda muito cautelosos.


Ainda assim, quando se começou a notar a tendência de haver menos testes, isso foi analisado? 
Não se pode falar de tendência – uma tendência é quando os testes tendem a diminuir. Fazem-se testes quando existe essa solicitação e foi o que continuou a acontecer. Neste momento, os dados estão a ser esmiuçados. E há uma coisa importante no trabalho que é feito aqui no INSA. Uma coisa é a data em que os casos são notificados e outra é a data de início de sintomas. Nos relatórios apresentamos sempre as duas coisas, porque isso nos dá uma imagem real de como está a evoluir a transmissão. Mas para saber a data de início de sintomas há sempre um delay de quatro ou cinco dias.


Portanto, neste momento não há ainda essa certeza: se são 10 mil pessoas a ter sintomas agora ou há mais dias e foi essa a informação que foi dada.
Exatamente, seja porque não procuraram fazer o teste ou porque os laboratórios não estavam a funcionar.


Ainda antes do Natal soube-se que estava a circular no Reino Unido uma variante mais transmissível e houve países que adotaram medidas mais restritivas. Pode vir a concluir-se que foi um erro político a tolerância dada no Natal?
Não tenho condições para dizer se foi ou não um erro. Depois poder-se-á fazer essa análise; agora, em cima dos acontecimentos, é muito difícil. A tomada de decisão faz-se num momento, pesando tudo, com a informação que se tem. E pode ser-se preso por ter cão e por não ter. Na gripe A, em 2009, o país teve de tomar decisões sobre um fenómeno que não conhecia, tal como aqui.

Quando conhecemos uma doença é mais fácil fazer previsões. Quando não conhecemos, vamos fazendo cenários e trabalhando em modelos. Na altura fez-se uma aquisição maciça de um medicamento, o tamiflu. Depois disse-se tudo: estragou-se, não serviu para nada. E se fosse preciso, de quem era a culpa? Para já, os especialistas pronunciaram-se e para dia 12 está marcada uma reunião com novas informações, e o Governo poderá a qualquer momento reformular novas medidas. 


Estamos com uma incidência de casos agora próxima do Reino Unido, que confinou. 
Não sei que decisão será tomada. Agora, não me parece que possamos pensar que tomamos uma decisão de confinar porque o país A ou B confinou. As circunstâncias de cada país, mesmo a nível cultural, serão sempre diferentes. E, mais uma vez, penso que tem havido sempre um equilíbrio. Não é o primeiro-ministro que faz a análise epidemiológica, baseia-se naquilo que os especialistas dizem. E o INSA está dependente do Ministério da Saúde, mas muitos especialistas são independentes.

Quando se coloca a questão de falha ou erro, os erros serão calculados no fim disto tudo, faremos então as contas. O que posso dizer estando também o INSA no olho do furação, e vou daqui à Lua para provar isso, é que todas as decisões tomadas pela ministra da Saúde e pelo Governo são baseadas em informações transmitidas pelos especialistas.


Já há alguma pista sobre se a nova variante está a contribuir para este aumento de casos?
Continuamos a analisar amostras e ainda não sabemos.


As últimas semanas foram dominadas pelo arranque da campanha de vacinação, com mensagens que, em alguns momentos, podem ter levado as pessoas a pensar que a solução estava à vista. Houve excesso de otimismo?
Não considero. O que se quis foi criar uma ideia positiva, para que as pessoas percebessem a importância de se vacinarem. O que quisemos criar foi um amplo movimento de otimismo no sentido de as pessoas aderirem à vacinação, o que será necessário para atingir a imunidade de grupo.

Como se sabe, há movimentos contra vacinas, pessoas com dúvidas, pessoas que pensam de outra maneira, a quem recomendo: leiam a bula dos medicamentos que tomamos para verem que todos têm contraindicações e possíveis reações. Não considero de todo que tenha havido um excesso de otimismo por parte da diretora-geral da Saúde, da ministra da Saúde. Sempre foi dito que não é pelo facto de as pessoas se começarem a vacinar que vamos deixar de usar máscara, de manter o distanciamento.


Na história dos vírus, como lhe parece que vai ficar este SARS-CoV-2, já chamado de vírus bonzinho, de inimigo público nº 1...
Sem falar de todas as grandes pandemias, pensando pelo menos na pneumónica, há 102 anos, acho que vivemos uma situação grave. São vírus diferentes, um coronavírus e um vírus influenza. Na altura pensava-se que era uma bactéria, nem isso se sabia, até foi o dr. Ricardo Jorge que ajudou a esclarecer. Não podemos dizer se um é mais agressivo do que o outro porque há um conjunto de variáveis que dão a uma doença maior carga de letalidade. Primeiro, o desenvolvimento socioeconómico do país – que hoje não tem nada a ver com o que era há 100 anos. A pobreza era extrema, a fraqueza e a debilidade das pessoas era evidente. Depois, a prestação de cuidados que existia. Não eram nada do que são hoje, nem em acesso nem em qualidade. 


Por outro lado tínhamos uma população menos envelhecida, aquela que tem maior risco com este vírus.
Os vírus adaptam-se, é a natureza. Em 1918, a gripe foi especialmente agressiva para os jovens, provavelmente seria igual. Mas basta pensar no arsenal terapêutico que temos hoje para salvar pessoas, do simples comprimido de paracetamol ao ECMO para os doentes críticos. Nada disso existia e vemos, ainda assim, o impacto que tem esta doença.

Hoje, ninguém faz milagres, o que temos é um arsenal terapêutico e profissionais que trabalham com muita dedicação e sabedoria, com pressão também, mas com resiliência. Com um vírus assim há 100 anos, a letalidade seria seguramente maior. Não faço cenários, mas seria muito complicado, e hoje só não é mais porque temos uma capacidade de resposta que não tínhamos sequer há 20, há 30 anos.

E não deixa de ser impressionante a resiliência do vírus. Não é uma luta, é um desafio, e ainda precisamos que o vírus nos dê muitas respostas. Esta nova variante mostra como as respostas continuam a ser necessárias: o que significam determinadas mutações, como o vírus se adapta para ser mais transmissível.


Com a deteção da variante inglesa percebeu-se a relevância do investimento que o Reino Unido fez nesta área, que permitiu que sequenciasse o genoma dos vírus que infetam 5% a 10% das pessoas. Até aqui, o INSA só tinha sequenciado 429 amostras da segunda vaga. Houve financiamento suficiente para fazer esta e outras investigações ao longo dos últimos meses?
Se me pergunta se há investimento suficiente, tenho de dizer sempre que não.


Mas teve em algum momento o sentimento de que sem ovos não se fazem omeletes ou está conformado com o ser o possível?
Temos 2300 sequências feitas, mais da primeira onda. Ao que nos foi pedido, respondemos imediatamente. Claramente que haverá interesse em aumentar a capacidade e a minha opinião é que vamos ter de estar muito atentos. No Reino Unido, eles também reforçaram o trabalho; agora, evidentemente que tinham um investimento maior que não existiu noutros países.

Mas também não vamos comparar o produto interno bruto... Tenho de ter noção que o dinheiro no meu país é o que é e ser minimamente solidário. Se o dinheiro, para vir para aqui, for para tirar aos hospitais que tratam doentes, não o quero. Se houver, quero. É um custo de oportunidade. Não vou estar a dizer que não precisamos ou não vemos oportunidades, mas sei que, se for usado aqui, vai sair de outras áreas. 


É médico de saúde pública, uma área de que nunca se falou tanto como este ano. Acredita que sairá reforçada?
Durante muitos anos, acho que andámos a pregar aos peixinhos. É uma grande oportunidade. Mas não é só uma oportunidade para sensibilizar as políticas dos Governos, sejam eles quais foram. É uma oportunidade para os serviços de saúde pública se reforçarem e mostrarem a sua relevância na prevenção da doença e promoção da saúde. E isso é uma responsabilidade também dos médicos, enfermeiros, técnicos de saúde ambiental, estatistas. Há um grupo de trabalho que está a preparar a reforma da lei de saúde pública.


Algo de que se fala há anos, como de muitas reformas na saúde que, por vezes, parecem algo lentas...
Infelizmente, tenho-as vivido todas... Já tivemos centros regionais de saúde pública, que foram extintos.


A lei prevê, por exemplo, que os hospitais tenham serviços de investigação e epidemiologia clínica.
E fazem sentido. Sei que o IPO de Coimbra tinha um médico de saúde pública, não sei como estão os outros hospitais. Mas faz todo o sentido que se desenvolvam. A informação é cada vez mais e é fundamental para tomar decisões no dia-a-dia. Não pode haver vento de feição para quem não sabe para onde vai. Um hospital deve conseguir perceber que impacto tem na população que serve, além do número de atos que pratica.

Agora, voltando à pandemia, temos aqui a prova de que somos importantes, da oportunidade de reforço de recursos humanos, equipamentos, instalações, infraestruturas, e isso é uma responsabilidade de todos, dos Governos e dos profissionais, de saberem mostrar que vale a pena esse investimento ser feito.


Está a dizer isso porquê? Conformaram-se?
É uma chamada de atenção apenas. A saúde pública tem sido um parente pobre.


Já invocou Ricardo Jorge, diretor-geral da Saúde durante a gripe espanhola. Como é para um médico de saúde pública ver repetirem-se as medidas, as vagas, a história até aqui, sobretudo dos livros para a maioria de nós?
É aquilo que dizia ao início. Damos connosco a pensar como, apesar de tudo e de toda a evolução, as medidas são as mesmas de há 100 anos. Antes, já tinha sido ele a fazer o cordão sanitário no Porto no surto de peste bubónica (em 1899) – teve de fugir para Lisboa por causa das críticas. Vem mostrar-nos que os vírus, as bactérias, são assim mesmo, continuam a ameaçar-nos. E julgo que a primeira lição disto é que jamais poderemos deixar de estar atentos e preparados. Infelizmente, estes eventos repetem-se. Tenho a certeza de que, depois disto vamos estar mais bem preparados, não podemos é parar.


A OMS já avisou que esta pandemia não será a última nem a pior.
E é o aviso que não se pode esquecer, preparar o pior, esperar o melhor. E continuamos a trabalhar noutras ameaças que passam despercebidas, o bioterrorismo, mesmo o sarampo, que pensávamos que tínhamos eliminado e nos últimos anos voltou. Quando foi do ébola, em 2014, mesmo não tendo chegado cá – despistámos aqui no INSA 18 casos suspeitos –, foi uma equipa nossa com 21 pessoas para fazer diagnóstico na Guiné. Estiveram lá quase quatro anos, um ano e meio nesse projeto e, depois, financiados pelo CDC dos Estados Unidos.

E temos tido vários projetos, com a ajuda incansável do INEM, que tem uma experiência enorme em teatros de operações. Ninguém trabalha sozinho e ao longo dos últimos meses houve muito trabalho com a DGS, com os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, com o Infarmed, o INEM, a Administração Central do Sistema de Saúde. Mesmo agora, no âmbito da cooperação, temos estado a apoiar os PALOP, fizemos 2400 testes do SARS-CoV-2 para países de língua portuguesa.


Ainda há países sem capacidade interna? 
Foi mais no início. Estamos a fazer formação para a Guiné, financiada pelo Instituto Camões, e em Angola. E continuamos a dar apoio técnico e científico, mas também em estudos. Estamos a preparar um protocolo com Cabo Verde para avaliação do impacto da pandemia na saúde mental. Também agora, no caso da diversidade genética, estamos a trabalhar com outros países que não têm ainda esses laboratórios e vamos receber amostras.


O inquérito serológico foi feito em julho. Na altura estimou-se que 2,9% dos portugueses tinham estado expostos ao vírus. Agora, já houve a estimativa de que poderão ter sido 20%. Quando será feito um novo inquérito? Não podia ter sido feito mais cedo?
Queremos arrancar entre o final de janeiro, início de fevereiro. Vai ter uma amostra muito maior do que o primeiro estudo-piloto, com 8 mil pessoas. Pensámos qual seria o momento oportuno para fazê-lo e é preciso perceber qual a utilidade: precisamos de saber que percentagem da população já teve contacto com a doença e isso será relevante para perceber o papel da vacina na imunidade de grupo que, como tem sido dito, será quando 70% a 75% tiverem proteção. A discussão foi fazer no início da segunda onda ou depois. Decidimos esperar pelo pico, até porque só agora estava a começar a vacinação. Este estudo que vamos fazer vai servir de base para perceber como evolui depois a imunidade na população com a vacina e vamos fazer estudos também para acompanhar a eficácia da vacinação – casos de reinfeção, falência de vacinas a novas variantes. 


E além da covid-19?
Além das linhas de investigação que já temos habitualmente, na área da genómica estamos envolvidos num projeto europeu, subscrito pelo Ministério da Saúde, que visa sequenciar um milhão de genomas humanos até 2022. Vamos contribuir para esse milhão com a análise do genoma humano cá.


De quantas pessoas?
Em princípio serão 10 mil.


Já têm os candidatos? Há sempre uma enorme curiosidade com o que dizem os genes.
Ainda não. É uma área que não se generaliza assim porque coloca muitos problemas éticos, não só em termos de gestão de dados, privacidade, proteção de dados.


Do género o que fariam seguradoras com essa informação?
Discussões dessas, mas também questões de utilidade clínica – até que ponto se deve transmitir uma informação a uma pessoa sobre predisposição genética, sobre o seu futuro em termos oncológicos, se não lhe puder dar uma resposta ou forma de prevenir. Já se faz em alguns casos, naturalmente, e a genómica será o futuro, com a medicina personalizada. Este projeto europeu visa encontrar mais resposta e fatores que permitam dar resposta a doenças que afetam a população.


Os próximos meses serão críticos. Como espera que se desenrole 2021?
Já tenho visto as pessoas dizerem que, no verão, as coisas estarão melhores. Acho que é perigoso fazer previsões otimistas, por duas razões: porque podemos enganar-nos e porque podemos criar um excesso de confiança nas pessoas, excesso no abrandamento de medidas que temos de manter. Se me pergunta o que quero, quero passar um verão mais descansado. Agora, dizer se é isso que vai acontecer, que isto no verão já passou, não seria intelectualmente honesto. Tudo aponta que a vacinação vai dar uma ajuda a esse cenário.

Depois, se vamos ter de nos vacinar todos os anos como na gripe, vamos ver. O que importa é criar condições adversas ao vírus para ele se transmitir menos. Ou seja, se estivéssemos aqui sete ou oito pessoas, se todas estiverem vacinadas e uma estiver infetada, o vírus não tem hipótese nenhuma. Só conseguimos evitar outras doenças infecciosas porque nos vacinamos. A meta é sempre erradicar as doenças.


Só conseguimos com uma, a varíola.
E estamos libertos da pólio na Europa. No sarampo estivemos quase, mas está em muitos países. Provavelmente, o coronavírus ficará também endémico. Não vai ser eliminado. Mas se estivermos protegidos causará menos complicações e continuará a circular por aí – no fundo, como a gripe A. Foi uma pandemia e, agora, todos os anos temos casos de gripe A, do H1N1, mas já ninguém fala dele – protegemo-nos. É uma gripezinha, mas não é nada de especial. Agora, uma coisa digo: provavelmente, no próximo inverno vamos continuar a aconselhar o uso de máscaras, porque se demonstrou que as medidas são eficazes e temos tido uma muito menor prevalência de gripe.


Muitas pessoas perguntam: e as medidas funcionam para a gripe e ainda assim, com todas as medidas, vemos a disseminação do SARS-CoV-2. Nunca termos tido contacto com o vírus explica tudo?
Pode haver dois fenómenos que devem ser ponderados, e afirmo-o com cautela cientifica. Um é um mecanismo de competição, e o outro a transmissibilidade. Ao longo do tempo, os vírus vão-se adaptando e enfraquecendo a sua transmissibilidade. Este é novo, tem uma transmissibilidade muito maior.


E a competição?
Imunologicamente, podem competir. Se eu tiver um vírus mais transmissível e mais agressivo, é natural que se sobreponha. 


O ano passado, a época gripal tinha sido mais ligeira. Se este ano for também, para o ano pode voltar com mais força?
Não sabemos. O que sabemos é que a gripe pode ser muito má, mesmo havendo a vacina. No inverno de 2014/15 tivemos um excesso de mortalidade por gripe brutal, com mais de 4 mil mortes.


Será um novo apelo ao civismo todos os invernos?
Sim, todos desejamos que, no próximo inverno, este problema não exista, mas provavelmente vai ser muito normal andarmos de máscara. 

 

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