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Carlos Gouveia Martins 07/01/2021
Carlos Gouveia Martins

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A esperança de 2021 sem esquecer a dor de 2020

Entrámos em 2021 com uma força de vontade mental enorme em afastar tudo o que 2020 trouxe ao mundo. Naturalmente, Portugal faz parte de todos os países que foram atingidos pela bomba pandémica e pelos estilhaços económicos e sociais. Não há exceções.

Entramos em janeiro sem a tendência de pensar em resoluções e sorrisos. Vivemos um janeiro atípico, em todo o lado, mas, em solo português, um mês em que realmente há eleições Presidenciais. Eleições em que temos de sair de casa quando todos os dias nos mandam não sair. É certo que esta condição torna uma eleição presidencial em algo sem campanha e, já agora, sem debates até à data que dignifiquem o espetro de abrangência do que é ser Presidente da República Portuguesa. Mas um janeiro que demonstra, mesmo assim, num mundo meio parado, mas a alto ritmo digital, uma não-evolução de processos democráticos e participação cívica em Portugal que não acompanha nada de evolutivo. Veremos a vitória da abstenção (e, claro, que no “menos mau” será por respeito à saúde pública).

Um janeiro que vive já um caso acima dos 10.000 novos casos de doentes da COVID-19 (num só dia) e onde a Ministra da Saúde veio suspensão da atividade não urgente nos hospitais de Lisboa. Isto para dizer que não, não acabou a saga de dor de 2020.

Mas, neste 2021, ainda teremos eleições autárquicas em 308 Municípios, Concelhos esses que vivem hoje da aflição de medidas de apoios sociais face ao que a “política pandémica” (a única política que interessa a nível humano). Este processo eleitoral, o mais próximo das pessoas, irá ocorrer também neste 2021 que começámos.

A pandemia deixou-nos de rastos. Deixou mesmo, não há nada que tenha melhorado este ano. Por falar em autárquicas e poder local, saibamos que 84% dos 308 concelhos portugueses aumentaram o desemprego no período de pandemia que vivemos. Precisamente entre fevereiro de 2020, último mês livre dos impactos económicos da COVID-19 e de medidas de confinamento, e outubro de 2020, Portugal aumentou cerca de 95 mil novos desempregados. Representa mais 30% que são distribuídos por todo o país.

Todos reconhecemos, sem necessitar de comprovativos estatísticos de tão evidente que é, que nas cidades de norte a sul há cada vez mais portas de estabelecimentos comerciais fechadas. Não temos dúvida nenhuma que o tecido empresarial e os comerciantes locais estão a (sobre)viver muito mal e, infelizmente, milhares de portugueses tiveram de fechar as portas dos seus negócios. As portas que viram ser o seu dia-a-dia durante décadas. Saibamos que o que conta ao fim do mês, e ao fechar de portas, é a falta de liquidez e condição financeira de pagar contas, pagar a fornecedores e manter as remunerações dos funcionários. Claro que sim! Mas há também o sentimento de quem viu perder, para além da sua economia, o negócio da sua vida. Quem não conhece uma mão cheia de gente assim? Será uma eterna dor de 2020.

A restauração não saiu ainda das dores de 2020 e nem tão cedo recuperará dos danos de viver um ano sem refeições, com restrições e a intercalar entre o muito pouco e o nada. Não chegou nem chega o take away e a quebra da economia faz sempre cortar nos gastos das famílias em comer fora de casa. Não temos de ser economistas, basta sermos portugueses e conhecer a nossa cultura.

O setor de Turismo que parou e, tão isso, “cilindrou” os Algarves de todo o território português, diminuindo os pontos de chegadas de milhares de turistas de short-distance que abrilhantavam a economia portuguesa a norte, nas margens do Rio Douro, mas também na cosmopolita capital lisboeta, no diferenciado Alentejo ou nas nossas incríveis ilhas que todos os anos são mundialmente premiadas. São milhares de portugueses afetados e milhões de euros nunca recuperados.

Os profissionais de saúde estão há um ano sem pausa nas suas vidas. Ainda não houve tempo de parar, ouvir e estruturar o tanto que se vislumbrou de errado no setor da saúde. Um setor que não pode suspender vidas e milhões de consultas como se os doentes crónicos e oncológicos não tivessem tido dias para viver em 2020. Um setor que não pode viver por decreto político sem ter consciência própria do melhor caminho de saúde pública e não daquele que é mais conveniente ao momento partidário. Um setor que deveria ser orador e nunca espectador de “um qualquer comentador” quando se fala de planos de vacinação e de explicações sobre o que são vacinas. Um setor que precisará de dois 2021(e zero pandemias) para retomar o que tinha em 2019 e já não era famoso.

2021 chegou, mas a dor de 2020 não passou. Foi o que assinalaram estas últimas linhas (e muitas mais há por acrescentar, infelizmente). Aliás, em todo e qualquer setor, ainda continua a sangria económica e social. Porém, devemos encarar a realidade sem amarras apenas no difícil, mas com esperança de recuperar.

A criação de um mecanismo de estímulo de imunidade ao terrível vírus SARS-CoV-2, via vacina, primeiro via farmacêutica Pfizer e, ontem, com a segunda vacina aprovada pelo nosso regulador europeu, a Agência Europeia do Medicamento (EMA), que aprovou também a utilização da vacina da farmacêutica Moderna na União Europeia (UE), dá-nos esperança.

A forma como a União Europeia negociou o pacote de distribuição de vacinas pelos Estados-membros também nos dá esperança nesta Europa, enquanto europeus que somos, para a salvaguarda da defesa de países economicamente mais diminuídos como o nosso Portugal.

O sistema de apoio, via fundo de resiliência e demais mecanismos financeiros, a dita “Bazuca”, que os líderes dos 27 Estados-membros da União Europeia, em Bruxelas, conseguiram resolver há poucos dias em dezembro, desbloqueando o impasse com a Polónia e a Hungria, que ameaçou atrasar a aprovação do histórico orçamento, dá-nos esperança.

Como esperança tem de dar, e motivação, conhecer os números deste pacote de estímulos no valor astronómico de 1,81 biliões de euros (é dotação nossa, não são “billions” como se diz na América que representa os nossos “mil milhões”, são mesmo biliões, sendo o bilião convertido num milhão de milhões, ok?), cabendo a Portugal 45.1 mil milhões de euros, numa altura em que a mais recente onda de infeções por COVID-19 tem abalado as economias do Velho Continente. Isto, claro, tem de ser esperançoso para a nossa economia.

O ímpeto da ciência, da inovação em saúde, e dos cientistas mundiais que num ano responderam à doença que parou o mundo tem de nos dar esperança num mundo forte, um planeta salvaguardado pela melhor medicina e ciência de sempre que não quer deixar ninguém para trás.

E os nossos profissionais de saúde que conseguiram fazer de Portugal, com as muitas limitações que todos reconhecemos num setor transversal a todos os nossos dez milhões de cidadãos, um país que não abriu falência na resposta do SNS e da Saúde. Não foi por força política, nunca será por força ideológica. Foi por força de excelência dos nossos profissionais de saúde. Não ficaram a dever a nenhum país do mundo. E isso, claro, tem de nos dar esperança.

Que saibamos que há tudo e todo um país por recuperar. Mas que não baixemos os braços. Que não percamos a esperança de olhar por Portugal. Que não desistamos do projeto europeu que por estes dias tanto tem ajudado Portugal e os outros 26 estados-membros da união. Que saibamos reconstruir.

Que seja o melhor 2021 possível para todos. Sobretudo, que haja saúde e esperança.

 


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