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A Cinemateca pelos lugares onde a terra acaba

A Cinemateca pelos lugares onde a terra acaba

Cláudia Sobral 05/01/2021 19:32

É o primeiro grande ciclo que a Cinemateca Portuguesa dedica ao mar depois de em 1998 ter programado, em Um Mar de Filmes, perto de uma centena de filmes sobre o tema. Neste primeiro mês de 2021, e com o apoio da Estrutura de Missão para a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, o mar regressa à Cinemateca com um ciclo enquadrado pela área geográfica europeia. “De Portugal à Europa de Leste, do cinema mudo ao cinema contemporâneo” e percorrendo os vários géneros, são três dezenas de filmes dedicados numa primeira parte de um ciclo intitulado Os Mares da Europa.

Finis Terrae Cabem a Louis e Auguste Lumière as honras de abertura da sessão inaugural de Os Mares da Europa, a 14 de janeiro, com o seu La Mer, filme de 1895 com a duração de apenas um minuto. E claro que a ele se juntam outras curtas: A Sea Cave Near Lisbon, de Harry Short, e Mor’vran, La Mer des Corbeaux, de Jean Epstein. De Epstein não estará o programa completo sem que se assista ao seu incontornável Finis Terrae, com as “situações, não histórias” de que dizia o cineasta ser feita a vida a terem como pano de fundo a paisagem marinha da Bretanha. Um filme que será exibido em cópia digital e a que a Cinemateca regressa pela primeira vez desde 2010.

F.R. 1 Antwortet Nicht Foi uma das grandes apostas da UFA (Universum Film Aktien Gesellschaft), os estúdios de cinema da Alemanha da República de Weimar e do III Reich. Estreado em 1932 com realização de Karl Hartl (Erich Pommer foi o produtor), foi um desses filmes de “antecipação” científica: apoiado em dados científicos à época verosímeis, e a partir de uma enorme plataforma instalada no Atlântico, que a Cinemateca descreve como uma herança cénica de Metrópolis, de Fritz Lang, F.R. 1 Antwortet Nicht conta-nos uma história de espionagem numa “obra maior, injustamente esquecida”, que integrou já um ciclo que reuniu os melhores filmes do séc. XX.

Sea Devils Vagamente inspirado em Les Travailleurs de la Mer, de Victor Hugo, que André Antoine havia já adaptado ao cinema em 1918, um filme de Raoul Walsh estreado já em 1953 centrado nas aventuras de Gilliatt, um pescador feito contrabandista apanhado nos braços de uma espia de nome Drouchette por volta do ano de 1800, no tempo das guerras napoleónicas. Interpretam-nos Rock Hudson e Yvonne de Carlo no filme a que Walsh deu o título de Sea Devils (Gigantes em Fúria na versão portuguesa). Um filme de aventuras com produção britânica e americana, rodado nas ilhas do Canal. Sea Devils, o título, deve-se ao nome do barco de Gilliatt, Sea Devil.

The Edge of the World No documentário ficcionado em que se afirmou como realizador, Michael Powell conta a história da evacuação do arquipélago escocês de St. Kilda a partir de uma das suas isoladas ilhas, que os habitantes mais jovens vão largando, um por um, em busca de melhores oportunidades no território continental. Um filme sobre a vida, mas também sobre a morte, em que Powell foi capaz de explorar “de forma magnífica as potencialidades dramáticas e de suspense da paisagem de íngremes escarpas em contraste com o mar envolvente”. Estreado em 1937, The Edge of the World não era exibido na Cinemateca Portuguesa desde 2011. 

La Pointe Courte De Agnès Varda, um filme entre o documentário e o ensaio a partir da história de um casal (Philippe Noiret e Sylvia Monfort) numa aldeia de pescadores. Disse um dia Godard que La Pointe Courte é sobre “aquele instante fabuloso em que os homens, em vez de tentarem conquistar o mundo, se sentiram solidários com ele, solidários com a luz refletida e não enviada pelos deuses, solidários com o sol, solidários com o mar”. Foi também a obra que marcou a passagem da cineasta Agnès Varda da fotografia para o cinema. Estreado em 1954, anos antes do início do movimento da nouvelle vague, teve a montagem a cargo de Alain Resnais.

Drifters À semelhança de O Navio dos Homens Perdidos, de Maurice Tourneur (na sessão de dia 28) e de Terje Vigen, de Victor Sjöström, a partir de um poema épico de Ibsen (dia 27), também Drifters, de John Grierson, pode ser visto numa sessão acompanhada ao piano – no caso, por Filipe Raposo. Exibido em conjunto com dois filmes de Joris Ivens (Branding – Na Rebentação, de 1929, em conjunto com Mannus Frank, e Zuiderzee, do ano seguinte), Drifters (1929), filme mudo, acompanha a pesca do arenque no mar do Norte. Entre as Shetlands, Lowestoft e Yarmouth, numa contemplação da relação entre o homem e a natureza e pensando o processo de industrialização que o país atravessava então.

Um Filme Falado Um Filme Falado (2003) foi o filme de Manoel de Oliveira em que Leonor Silveira, Catherine Deneuve, Irene Papas, Stefania Sandrelli, John Malkovich, Luís Miguel Cintra, Michel Lubrano di Sbaraglione e vários outros reúnem-se nesta viagem em direção às origens da civilização através do mar Mediterrâneo. Protagoniza-o Leonor Silveira no papel de Rosa Maria, a docente de História que, para se reunir com o seu marido aviador, embarca com a filha, Maria Joana (Filipa de Almeida), num cruzeiro com destino a Bombaim, na Índia. A história é como a da vida: a viagem.

A Almadraba Atuneira A quatro curtas que Vittorio De Seta realizou entre 1954 e 1959 (Lu Tempo di li Pisci Spata, Isole Di Fuoco, Contadini Del Mare e Pescherecci) e Les Amours de La Pieuvre, documentário científico dedicado à fauna submarina de Jean Painlevé e Geneviève Hamon, segue-se numa única sessão (18 de janeiro) A Almadraba Atuneira. Primeiro filme que António Campos rodou em 16 mm depois da atenção e reconhecimento que lhe valeram as suas primeiras obras em 8 mm, A Almadraba Atuneira, curta-metragem de 26 minutos datada de 1961, acompanha a última campanha de atum dos pescadores da ilha da Abóbora, na costa algarvia.

 

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