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Eduardo Oliveira e Silva 30/12/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

O ano que não devia ter acontecido

Mesmo assim, em dez meses, a ciência criou uma vacina, a indústria produziu-a, a logística distribui-a e a UE conseguiu que todos os membros a recebessem em simultâneo.

1. Este é o ano que não devia ter acontecido a uma humanidade se ela tivesse o grau de desenvolvimento que julgava. Na verdade, não temos a explicação e o domínio de tantas coisas essenciais, desde logo da natureza, que nos domina. O ser humano é frágil, mas julga-se forte. Volta e meia, a natureza lembra-lhe os seus limites. Foi o caso este ano e provavelmente vai continuar no que se segue, ainda durante um tempo bastante longo. Como sempre se diz, há ensinamentos que teremos de tirar desta pandemia terrível. O mais certo, porém, é esquecermos e, mais adiante, sermos surpreendidos por outro fenómeno, seja ele natural, um conflito armado, uma nova doença pandémica ou algo que não imaginamos sequer. Para já estamos no início da guerra da vacinação, que temos de vencer. Em dez meses, a ciência, a indústria e a logística fizeram um milagre ao criar, produzir e distribuir a vacina. Na Europa, a política mostrou que da sua União nasceu a possibilidade de o processo de vacinação ter começado em simultâneo em 27 Estados. Valeu a pena o sonho impossível de unir povos tradicionalmente desavindos. Neste momento não há dados para analisar eventuais falhas ou êxitos do processo de vacinação. Apenas se registam pequenos atrasos à saída da fábrica da Pfizer na Bélgica. Detetou-se também, entre nós, uma manobra de propaganda ao enviar-se mensagens a dizer às pessoas para estarem atentas, isto para gente que sabe de antemão que nunca será contactada antes do verão. Não havia necessidade! Assim como certamente não havia necessidade de vermos a disputa ridícula entre PSP e GNR sobre a escolta de vacinas no Alentejo – um caso vergonhoso para o país, os envolvidos e o Governo. Mas adiante. Agora é tempo de arregaçar as mangas para dar e receber a vacina de todas as esperanças.
2. Dos muitos momentos únicos que vivemos este ano em Portugal, um dos mais pungentes foi quando o deputado e médico Ricardo Batista Leite apelou no Parlamento ao confinamento generalizado, num discurso emotivo e dramático de quem sabia o que aí vinha. “Cancele tudo (…) e fique em casa por aqueles que tanto fizeram por nós”. Os portugueses ouviram Batista Leite, que tem sido incansável no combate ao vírus, alertando, aconselhando e passando até pela circunstância de ter sido contaminado. Hoje, as coisas não estão ainda controladas. Temos até uma proporção de mortes por número de casos que é das mais altas e muito preocupante. Mas já temos instrumentos e mecanismos de esperança que não existiam na altura. Confinar foi essencial.

3. As sondagens recentes indicam o óbvio: Marcelo vai ser facilmente reeleito. Resta saber se o nível de participação lhe permitirá obter uma percentagem de votos que fique acima ou abaixo de 60%. A variação possível vai dos 55% até aos 68%, nos estudos mais fiáveis. A abstenção vai ter, portanto, um papel decisivo e joga contra ele. 
Num país atravessado por uma crise sanitária, económica e social catastrófica é uma circunstância tranquilizadora chegarmos à eleição presidencial com um chefe de Estado que é prezado e apoiado por uma larguíssima base social.
O que seria se as presidenciais traduzissem a dicotomia existente entre esquerda e direita que ocorre em legislativas, originando tensões complexas numa sociedade que caminha para a bipolarização? 
Quando se analisam sondagens sobre legislativas verifica-se a tendência para a esquerda se manter maioritária, com um PS estável a liderar. Na direita, o PSD é dominante, mas não consegue descolar e arregimentar o descontentamento, que tende a deslocar-se para uma direita mais radical, protagonizada por André Ventura, cujo grau de notoriedade pública facilita a transmissão das suas mensagens simplificadas.
No meio de tantos e tão sérios problemas que Portugal atravessa há, portanto, o relativo conforto de sabermos que, pelo menos na disputa pela chefia do Estado, as tensões potenciais serão irrelevantes e esquecidas logo no momento em que acabar a campanha eleitoral, se é que ela vai existir.

4. O país político foi sacudido, à direita e à esquerda, por uma conferência de Passos Coelho sobre o grande industrial que foi Alfredo da Silva. Falou-se logo do regresso de Passos – uns como salvador potencial, outros como uma nova peste. Foram ditas e escritas milhares de coisas com muitos cenários. Só não se noticiou praticamente nada do que ele disse sobre Alfredo da Silva. Também não era certamente isso que Passos Coelho queria. Aguardemos pelo próximo pretexto. Mas que ele anda por aí, anda!

5. O massacre de animais numa caçada na Herdade da Torre Bela mostra bem a quantidade de coisas que se fazem em Portugal sem que a esmagadora maioria da população e das entidades oficiais saibam. A confusão de instâncias decisoras, autoridades, polícias, forças políticas, institutos, associações disto e daquilo é tal que, a certa altura, cada um faz o que quer. Na herdade estava prevista uma central fotovoltaica que se desconhecia publicamente e matavam-se animais às dezenas sem os donos saberem (ao que alegam), através de uma empresa com ramificações em Espanha. É de lá que chegam os artilheiros que pagam a mortandade a peso de ouro. E para lá seguiam, nebulosamente, os animais mortos, cuja carne é vendida e consumida. O ministro do Ambiente confabulou sobre o escândalo, ocorrido na sua área de competência. Tal como o seu colega Cabrita a respeito do assassinato de um imigrante por agentes do Estado, ordenou um inquérito e uma reestruturação. É baralhar e dar de novo para que fique tudo igual.

6. Em Fernão Ferro, um homem atingiu a tiro um GNR e foi abatido. A família do meliante e traficante foi depois ameaçar as forças da ordem. Em Borba, parentes de um indivíduo que os bombeiros se recusaram a transportar por estar bêbado foram proferir ameaças de agressão junto ao quartel. Em Alter do Chão, a GNR não tinha efetivos para acabar com uma festa de casamento que durou três dias, com meia centena de pessoas. Quem será esta gente? Alguém explica? Afinal, o que se passa? Porque são omitidos dados essenciais pela comunicação social? 

Escreve à quarta-feira


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