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Alexandra Duarte 28/12/2020
Alexandra Duarte

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Agarrar o touro pelos cornos

Com a chegada das vacinas e com o período de vacinação finalmente em curso é chegado o momento de ganharmos algum alento para enfrentar esta ameaça que, a meu ver, leiga nestas matérias, veio para ficar.

Para 2021, que começa daqui a quatro dias, selecionei os meus propósitos, à semelhança de muitas outras pessoas que aproveitam o início de um novo ano para deixar para trás hábitos menos bons e fazem uma tentativa de introduzir novas rotinas, que pensam ser as melhores para a saúde física, emocional, financeira e até social.

Depois de um ano a preto e branco, totalmente inesperado e com receios constantes, em que a nossa confiança e fé foram, frequentemente, postas à prova, há que lidar com este novo ano como se lida com um touro: agarrá-lo pelos cornos e não o largar. Ter a força e acreditar que no final do dia, tudo de bom e de mau que nos acontece, em grande parte, só depende de nós; a margem que é atribuída ao acaso ou ao azar é residual, comparativamente com a responsabilidade que nos cabe.

Com a chegada das vacinas e com o período de vacinação da população finalmente em curso, é chegado o momento de ganharmos algum alento para enfrentar esta ameaça que, a meu ver, leiga nestas matérias, veio para ficar.

Em 2021 não quero andar mais assustada com o que o vírus pode fazer à minha família, ao ponto de ter que ser obrigada a obedecer cegamente a regras restritivas para as segundas, quartas e sextas-feiras em Lisboa e às terças e quintas-feiras assistir ao anúncio do levantamento de medidas no Porto. O domingo é uma incógnita e depende do que aconteceu no sábado… Como se em Portugal, neste pequeno país que tem cerca 800 kms de norte a sul e onde todos circulamos por tudo e por nada, fosse possível diferenciar concelhos e manter os odivelenses em casa, enquanto que os sintrenses podem circular livremente. Bem se viu o que aconteceu: os concelhos vizinhos que estavam com medidas restritivas observaram um movimento migratório para os concelhos que estavam autorizados a manter o comércio aberto em horário normal. Uma bagunça e um disparate que contado ninguém acreditaria. Pior… repetiu-se a fórmula por vários fins de semana como se fosse uma medida muito acertada e coerente.

Já para não falar da incoerência da ausência de medidas restritivas para o Natal, em contradição com a proclamação das proibições de circulação e de ajuntamentos para a Passagem de Ano e dias seguintes. A dificuldade em encontrar uma linha de rumo consistente e adequada é maior quando existem várias abordagens para um mesmo problema que já está entre nós, desde março. Já não há muitas mais novidades nos cenários que são noticiados todos os dias. A última novidade veio do Reino Unido com a notícia da variante do vírus, recentemente identificada e que tem um elevado grau de propagação na comunidade. E mesmo sobre isto, o governo não conseguiu evitar que os nossos camionistas ficassem presos na fronteira e impedidos de celebrar o Natal em família.

Por cá, não se passou nada. Tudo está na mesma com uma verborreia diária das televisões que, tal e qual um conta-gotas, nos transmitem, com maior ou menor loquacidade, o número de infetados, de internados e de mortos pelo covid-19. Basta ouvir a entoação do locutor para percebermos se a situação piorou ou não. Os números já deixaram de fazer sentido, quando vivemos este pesadelo de mais um, menos um, num ritmo diário desenfreado que intoxica a população e deixa muito pouco ar para respirar.

Sinto-me intoxicada pelos órgãos de comunicação social que insistem, não sei se a pedido do Governo, ou não (tenho as minhas dúvidas porque isso exigiria uma ação concertada e planeada por parte do Ministério da Saúde e do próprio Primeiro-ministro) em abrir os jornais com os sinais positivos e negativos, como se tudo se resumisse a isto. Fez sentido que assim fosse no início, quando ainda não tínhamos informações suficientes e estávamos ávidos de saber o que passava. Neste momento, só quero voltar à minha vida normal, com esta nova normalidade adquirida e da qual não vou prescindir para salvaguardar os que me rodeiam.

Além de intoxicada, sinto-me angustiada com as histórias miseráveis de dificuldades que setores como o comércio, o setor da restauração, as empresas e as fábricas atravessam e aguardam, sem perspetiva futura alguma, que o governo demonstre ter uma orientação fiável para combatermos as várias frentes que se estão a levantar perante e contra nós.

Já não é só o vírus que está a complicar e a destruir a estabilidade das famílias e da economia. Não querer ver para além do vírus, exceção feita no Natal, é assumir a sua inabilidade em lidar com o que está a acontecer todos os dias.

No que me diz respeito, que sempre cumpri com as orientações do governo e não coloquei em causa o que era necessário ser feito, em 2021 vou incorporar esta nova realidade nos meus dias e gostava que o governo fizesse o mesmo e, à semelhança do que assumiu no Natal, incentivasse os portugueses a viver com este cenário e permitir que, a seu tempo, os serviços e a economia retomassem a normalidade, tal como o fizeram nas escolas.

Além disto, recuso-me a ver aquele desfile de números da morte em horário nobre, que só servem para ameaçar as pessoas e induzir os espetadores num sentido que não serve ninguém, a não ser as audiências dos canais televisivos que teimam em não querer fazer uma boa peça de jornalismo e enveredam pelo choque sensacionalista.

Votos de um ano virtuoso para todos nós. Merecemos.


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