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A entrevista de Graça Freitas antes de voltar ao trabalho depois de ter estado infetada com covid-19

A entrevista de Graça Freitas antes de voltar ao trabalho depois de ter estado infetada com covid-19

Pool/Lusa Marta F. Reis 19/12/2020 15:25

Depois de três semanas em casa a debelar a covid-19, Graça Freitas regressa ao trabalho na segunda-feira. Considera equilibradas as medidas decididas pelo Governo para o Natal e acredita que os portugueses querem proteger os seus familiares mais frágeis. Mesmo já podendo ter alguma imunidade, explica que vai estar com a mãe de 90 anos à distância, sem partilhar refeição. Votos para 2021: que a vacinação seja efetiva e seja possível voltar a sair de casa sem pensar, seja para o que for.

No último domingo de outubro percebeu que podia estar infetada e dias depois surgiu a confirmação. No final da recuperação da covid-19 e prestes a regressar ao trabalho, na próxima segunda-feira, Graça Freitas diz-se sentir-se grata por ter passado bem pela infeção e sublinha que mesmo tendo todos os cuidados, como tinha, o risco nunca é zero. Com o Natal à porta, assume preocupação, mas considera que as medidas são equilibradas e que os portugueses têm informação para se proteger.

Fica-se com uma ideia diferente da covid-19 depois de se passar pela doença?

Fui extremamente cuidadosa desde o início. Limitei com uma fita o meu gabinete, passei a comer sozinha também no gabinete, quando muito partilhava com outra pessoa, mas a grande distância. Estava convicta de que ter esses cuidados me iria proteger, apesar de dizer frequentemente que não há risco zero. E isso é uma das coisas que ficam: não há. Podemos fazer imensa coisa para reduzir, uma medida só nunca chega, mas podemos ser confrontados com sermos infetados mesmo tomando todas as precauções. Houve um dia em que uma colega me ligou e me disse: estivemos na mesma sala e eu estou positiva. Já não a via há muitos dias e, naquele, calhou estarmos na mesma sala.

Tinha sintomas já?

Tinha começado a ter uns sintomas ligeiros, inespecíficos. Pensei que o teste tanto podia dar positivo como negativo. Podia ser qualquer outra coisa.

Costumavam até brincar com os seus cuidados como entrar no elevador sempre virada para a parede. Contou-me em maio que tinha já conseguido deixar de mexer tanto na cara e nos óculos, hábitos que se tem de fazer um esforço para interiorizar. Tem alguma suspeita de como terá sido infetada?

Nunca temos a certeza mas, por isso, o que gostava de transmitir às pessoas é que devemos ter todo o cuidado possível, sabendo que mesmo assim pode acontecer. E se não tivéssemos cuidados? É um vírus que circula muito facilmente. É como diz, nunca mais toquei nos óculos, nos elevadores ficava sempre virada para um canto, independentemente de estar alguém. Criei uma série de rotinas na minha vida para reduzir a probabilidade de infeção. Naquele dia tínhamos um trabalho para acabar. Eu estava no meu piso e três especialistas estavam no piso 3, numa videoconferência. Fui assistir ao final. Estávamos todos com máscara. Uma das pessoas estava doente e não sabia.

Estavam perto?

Não estávamos muito perto, estávamos a metro e meio, talvez. No conjunto, estávamos a cumprir as regras.

Isso depois surpreendeu-a?

Surpreendeu um pouco. Não sei exatamente como foi, ninguém sabe. Penso que como estavam a trabalhar há bastante tempo numa sala que não é grande pode não ter havido o arejamento suficiente. É uma teoria. Mas não estive lá mais de meia hora e quando saí para o gabinete não tinha a sensação de que tivesse estado numa situação de risco. Nestes meses todos, senti isso uma ou duas vezes. Uma vez, há uns cinco meses, num restaurante, senti isso, por exemplo, a ver as pessoas muito perto a falar umas com as outras sem máscara, mas ali não foi o caso. Saí completamente descansada. A reunião foi na sexta e a colega telefonou-me no domingo.

Já teve outros diagnósticos difíceis ao longo da vida. Saber que estava positiva custou mais por si ou por pensar que podia ter infetado outros?

Custa muito pensar nos outros. Vivo sozinha com o meu marido e desde que isto começou não tivemos nenhum contacto, tirando a nossa empregada que, quando entra, nós saímos. Não vem ninguém cá a casa. Temos sido muito parcimoniosos a visitar a família, só quando é mesmo necessário. A minha grande aflição foi pensar que o meu marido podia estar contagiado. Tinha aqueles sintomas e pensei se ele, que tem estado em teletrabalho, a ter os cuidados todos, tinha sido infetado por mim.

Teve os sintomas que vem descrevendo ao longo destes meses ou houve alguma coisa diferente?

Como hoje se sabe, os sintomas nesta doença variam muito, das pessoas que não sentem nada a sintomas ligeiros e aos casos graves. Tive sempre sintomas ligeiros. Nunca tive febre, que era algo que estaria à espera de ter. E, depois, os sintomas flutuam: há um dia em que se está bem, noutro não tanto, e a doença tem esta incerteza de se estar sempre com algum temor de piorar. É uma sensação que, do ponto de vista psicológico, causa alguma ansiedade.

Há aquela barreira da segunda semana, em algumas pessoas pioram.

É mesmo, e ser médico, aqui, não abona nada a nosso favor, porque começamos a contar os dias.

Qual é o dia crítico?

Para mim era entra o sétimo e o décimo dia. Pela literatura, sabemos que pode haver aí uma viragem. E depois cumpri à risca o que estava na norma, ter o oxímetro, vigiar sintomas.

Nem toda a gente tem o oxímetro em casa.

Aconselhamos a ter porque ajuda, dá um dado objetivo. Bebi muita água, o próprio corpo pedia, apesar de não ter febre. Não senti um cansaço extremo, mas senti uma necessidade de repouso. É uma sensação de vulnerabilidade. Durante uns dias, não sabemos o que vai acontecer, e essa incerteza é pesada.

Quando conversámos há uns meses falava-me de como já na pandemia de 2009, que acabou por resolver-se mais depressa, o seu pensamento era que, infelizmente, não acaba bem para muitas pessoas. O que se sente quando, com alguns fatores de risco, se consegue passar por isto bem?

É complicado. No dia em que eu soube do resultado, à noite, muitas pessoas mandaram-me mensagem e uma delas foi uma amiga da nossa idade, um bocadinho mais velha do que eu e o meu marido. O meu marido foi dizer-me que a nossa amiga me enviava um abraço, desejava as melhoras, e soubemos então que o marido tinha morrido há cinco dias com covid-19. Foi algo muito duro, que me tocou muito, uma amiga solidária comigo que tinha acabado de ficar viúva. Tenho 63 anos, antecedentes de doença complicados. Pensei que se algum dia tivesse a doença podia ser candidata a ter doença grave. O que eu sinto neste momento é um grande alívio. É uma sensação de gratidão pela vida, por a natureza me ter dado este presente. E sinto esse grande alívio duplamente, não ter tido uma complicação e não ter transmitido a ninguém. Creio que todas as pessoas mais velhas que têm um diagnóstico ficam um pouco abaladas, mesmo quando sabemos que a maioria evolui bem.

Perdeu o paladar e o olfato?

Não, mas tive uma coisa diferente: fiquei com um paladar hipersensível. Tudo me sabia a muito doce ou muito salgado. Mas, mais uma vez, nada do outro mundo. Estou muito grata por ter passado por isto assim. Mesmo tosse, tive a partir do nono dia, mas nada de especial.

Seguiu os procedimentos, ligar para o SNS24, etc.?

Fiz tudo o que me mandaram – nesse aspeto, não há nenhum doente melhor do que eu. Estou muito agradecida ao meu centro de saúde, todos os dias a médica assistente me ligava para monitorizar. Todos os dias me telefonavam, perguntavam como estava. Sou muito disciplinada nestas coisas e fui apontando os sintomas num caderninho. Nunca precisei de sair de casa para fazer nenhum exame. Não saí ainda, será agora no fim de semana, à partida.

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