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José Paulo do Carmo 18/12/2020
José Paulo do Carmo

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Estrelas Michelin

Há uns anos, por razões profissionais, desloquei-me ao Algarve, onde passei um fim de semana num hotel em reuniões e apresentação de relatórios. No programa definido constava um almoço de degustação num restaurante que andava (disseram-me depois) em exaustivas experiências para tentar conquistar a tão almejada estrela Michelin. Os patrões (que eram uns autênticos chouriços), donos de um vasto património, tinham metido na cabeça que tinham de ter um restaurante galardoado com a famosa distinção, apenas e só pelo reconhecimento, já que se estavam a borrifar para a cozinha e nem sequer eram bons garfos. Decidiram então ir buscar um chefe, supostamente muito bem recomendado (já não me recordo se belga ou francês), que havia trabalhado num restaurante com duas estrelas e trazia consigo a promessa de sucesso. 

Acontece que o chefe, perito em gastronomia molecular, desenhava pratos tão elaborados que os patrões não conseguiam adaptar-se aos sabores. Nesse inesquecível fim de semana, sem nós sabermos, fomos postos à prova pelos mesmos, que nos convidaram para o tal almoço de degustação que estava a ser preparado para lançamento dessa caminhada rumo ao céu estrelado. Queriam que déssemos a nossa opinião, que disséssemos de nossa justiça. Quando começaram a vir os pratos, era um mais estapafúrdio que o outro. Uma autêntica parolice. Era tanta a procura de sabores que aquilo não sabia a coisa nenhuma. Nós íamos olhando uns para os outros à espera que alguém falasse, mas ninguém dizia nada por respeito aos donos, que se encontravam na mesma mesa. Até que chegámos ao suposto ponto de êxtase, com o chefe todo orgulhoso a servir um prato cheio de rococós e com um emaranhado de cores. Os nomes eram tantos que não me consigo lembrar, mas recordo-me que era uma lasca muito fina de bacalhau fresco com uma espuma de azeitona em maionese de algas (sim, leu bem), um crocante de mexilhão e outras coisas mais.

Só houve um pequeno problema. O chefe, com todo o entusiasmo, esqueceu-se de dizer que a pedra (que era indicada como oriunda da região e simbolizava a natureza) que se equilibrava estoicamente em cima do crocante arroxeado era, de facto, verdadeira e não era para comer. Resultado da história: duas pessoas trincaram a dita, uma engasgou-se e a outra partiu dois dentes, enquanto uns choravam a rir e os outros tentavam conter-se por respeito a quem nos tinha convidado. O almoço terminou logo ali e nem tivemos direito a sobremesa, entre muitos pedidos de desculpa e o pobre coitado a caminho do dentista para tentar remendar o lindo serviço. Não sei o que aconteceu ao tão afamado chefe, mas já o vi cá por Lisboa. Sei que o restaurante acabou por não conseguir estrela alguma mas, ao que parece, os donos são agora proprietários de um outro que conseguiu a tão ansiada distinção.

Várias são as histórias engraçadas que se conhecem e vão sendo públicas. Uma delas retrata uma experiência num restaurante em Berlim que serviu a sobremesa em cima de um chinelo-havaiana. Não deixa de ser digna de estudo a capacidade que essas famosas estrelas têm para dominar a vida de quem tenta alcançá-las e que desgraça várias que as perdem. As duas faces da mesma moeda: por um lado, cativaram e deram relevo a uma profissão que virou show de televisão; por outro, a forma como destruíram quem por elas se deixou apoderar. Há espaço para todos e devemos experimentar de tudo um pouco. Fui a poucos premiados e um foi, de facto, uma experiência surpreendente. Mas continuo a preferir uma boa comida de tacho, uma feijoada em terrina de barro ou loiça e um rancho à transmontana. Respeito os gostos de todos, mas aquele sabor a casa, a comida de conforto, para mim, não dá para ser reinventado. Porque é assim que gosto dele.


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