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Dora Wordsworth, Viajante em Portugal

Dora Wordsworth, Viajante em Portugal

Carlos Fiolhais 17/12/2020 18:01

Em 1845 e 1846, a segunda filha do poeta William Wordsworth visitou Portugal e, ao contrário de outros estrangeiros, gostou do que viu. O diário dessa viagem, publicado originalmente em 1847 sem indicação da autoria, acaba de ser editado entre nós.

 

Dorothy (Dora) Wordsworth (1804-1847), segunda filha do escritor William Wordsworth (1770 -1850), visitou Portugal em 1845 e 1846, tendo publicado em 1847 um diário dessa sua viagem com o título Journal of a Few Months’ Residence in Portugal, and Glimpses of the South of Spain, sem indicação de autoria. Aliás não era comum na época as mulheres assinarem livros: lembro que Frankenstein (1818) de Mary Shelley, saiu sem a assinatura da autora e Jane Eyre (1847), de Charlotte Brontë, foi publicado sob pseudónimo. O próprio Wordsworth, apesar de ter dado uma educação esmerada à sua filha (sobre quem escreveu o poema “Address to my infant daughter”), resistiu o mais que pôde à publicação do diário da filha, instando nesse sentido o editor Edward Moxon, de Londres.

Por que razão veio Dora para Portugal? Por sofrer de tuberculose, a doença que levou tanta gente (incluindo escritores e artistas do século XIX), e por ser recomendada a estada de tuberculosos em países ensolarados como Portugal. E, além disso, por ter casado em 1843, aos 39 anos (na época, idade avançada), com Edward Quillinan, um militar viúvo que tinha nascido no Porto, filho de um comerciante de vinhos irlandês naquela cidade. Quillinan cultivou a poesia e a sua fluência em português tornou-o um lusitanista britânico, que traduziu Os Lusíadas, de Luís de Camões, e a História de Portugal, de Alexandre Herculano. Wordsworth também resistiu ao casamento da filha com um homem 13 anos mais velho, mais por não querer perder a sua companhia do que por causa da menor condição social de Quillinan. Mas tudo acabou por se resolver e Quillinan tornou-se um diligente divulgador das obras do seu sogro. 

William Wordsworth e o seu amigo Samuel Coleridge foram os responsáveis pela introdução do romantismo na literatura inglesa com a publicação conjunta, em 1798, das Lyrical Ballads. Juntamente com o poeta e escritor Robert Southey (1774-1843), que viveu em Portugal, tornando-se um grande lusitanista, são conhecidos pelo nome de “Lake poets” por terem vivido no belo Lake District, no Norte de Inglaterra. Em Portugal não há muitas traduções de Wordsworth: O Prelúdio: Poema autobiográfico, com tradução, prefácio e notas de Maria de Lourdes Guimarães (Relógio d’Água, 2010) e Poemas Escolhidos, com selecção, tradução, introdução e notas de Daniel Jonas (Assírio & Alvim, 2018). E de Coleridge, que foi além de poeta um grande ensaísta, ainda menos. 

Maria Filomena Mónica, no seu penúltimo livro, O Olhar do Outro. Estrangeiros em Portugal: Do século XVIII ao século XX (Relógio d’Água, 2020), dedica um capítulo a Dora Wordsworth Quillinan, fazendo notar que o diário de viagem dela ainda não tinha saído em português. Pois não demorou praticamente nada: Diário de uma Viagem a Portugal e ao Sul de Espanha acaba de sair entre nós, com a chancela da ASA, numa boa tradução de Francisco J. Gonçalves (que fornece muitas notas esclarecedoras). Se no original o livro saiu em dois volumes, eles foram na tradução condensados num só, embora dividido em duas partes, precedidas por um prefácio. A primeira parte começa pela partida de Southampton em 7 de Maio de 1845, com chegada ao Porto em três dias. No Norte Dora visitou Vila do Conde, Viana do Castelo, Guimarães, Braga, o Gerês, etc. A segunda começa com a sua viagem de barco do Porto, em Março de 1846, para Lisboa, de onde após curta estada, que incluiu passeios nos arredores, partiu por via marítima, em 6 de Abril de 1846, para o Sul de Espanha. Aqui Dora visitou Cádis, Gibraltar, Sevilha, Málaga, Granada, etc., antes de continuar para Marselha, e daí, seguir por carruagem, atravessando toda a França, até ao canal da Mancha, de volta a casa. O livro não é ilustrado, mas a autora era hábil no desenho.

Em Portugal, Dora teve quase sempre a companhia do marido, embora ela não o refira explicitamente (talvez para não denunciar a autoria da obra), uma companhia que decerto facilitou os contactos com os locais. Ela intercala no seu Diário longas descrições da pena do marido, tanto literárias (há versos dos Lusíadas em português e inglês) como históricas, que tornam a obra pouco homogénea (esse foi um dos argumentos do pai Wordsworth ao obstar à sua publicação). Mas é um documento muito interessante que nos revela um olhar estrangeiro sobre o nosso país a meio do século XIX. Ainda hoje se lê com gosto e proveito. A autora procura ser isenta nas observações que faz sobre os usos e costumes que via. Ao contrário de outros visitantes que dizem o pior dos portugueses - o mais famoso foi outro escritor romântico, Lord Byron, que, apesar de ter apreciado sobremaneira as belezas de Sintra, o “glorioso Éden”, apoucou os portugueses: “Escravos miseráveis, apesar de nascidos/ Entre as mais nobres cenas! Com tal gente,/ Ó Natureza! por que desperdiçaste os favores?”) - Dora é gentil com os naturais da terra que visitou. Começa no prefácio por gabar a segurança que sentiu em Portugal: “No que me diz respeito, embora faça parte do sexo no qual a cobardia não é motivo de desonra, não posso dizer que tenha receado desventuras ou que tenha necessitado de grande esforço de persuasão para sair dos caminhos conhecidos, num país onde poucas senhoras britânicas alguma vez se atreveram a viajar”.

Depois confessa o seu intuito de desagravar Portugal: “O motivo principal que me leva a publicar este desorganizado diário é, na verdade, o desejo de contribuir para eliminar os preconceitos que tornam Portugal um país evitado por tantos dos meus compatriotas errantes, tanto homens como mulheres, que muito poderiam aí encontrar para os comprazer se pudessem ser persuadidos de que não é merecedor do descrédito de ser somente terra de bárbaros impetuosos e imundos e do demasiado forte vinho do Porto”.

Mais adiante, desfazendo preconceitos arreigados, escreve: “Ouvimos muitas vezes falar da mesquinhez dos portugueses na altura de tratar de acordos de alojamento e outras questões meramente convencionais, e às quais aplicamos a censura de sordidez, apenas porque diferem do nosso modo de fazer as coisas. Muitos dos nossos costumes estão abertos ao mesmo tipo de censura por parte deles, caso decidam fazer das suas próprias noções a regra arbitrária para avaliar o certo e o errado.”

Critica as inglesas do Porto, com quem conviveu pouco. Escreve sobre elas: “As senhoras inglesas nem sequer se dão ao trabalho a ler a língua portuguesa, fazendo de razões elevadas uma confortável capa para esconderem de si mesmas a verdadeira razão para isso, a indolência - ‘É uma grande perda de tempo aprender a ler uma língua que não tem mais do que um livro digno de ser lido, Camoens [sic]’. - Um enorme erro, já agora.”

Em Lisboa, que na sua opinião não conseguia bater o Porto em beleza, visitou os Jerónimos, a Torre de Belém, a Praça do Comércio, etc. Encantou-se, tal como Southey e Byron com Sintra, que estava na moda: “Parti de Cintra [sic] com o coração pleno de gratidão por me ter sido dado ver um lugar que deverá ser um dos mais encantadores da Terra.” Foi ver ballet ao Teatro de São Carlos, onde avistou a rainha D. Maria II, e visitou a Torre do Tombo, no actual Palácio de S. Bento, onde viu a Bíblia dos Jerónimos, que tinha sido roubada por Junot e depois comprada por bom preço à viúva. 

Por falar na cara-metade de Junot, o comandante da Primeira Invasão Francesa, cabe lembrar que ela está entre as mulheres que deixaram relatos sobre o Portugal do século XIX: Laure de St.-Martin Permon (1784-1838), duquesa de Abrantes (um título francês não reconhecido em Portugal), personagem mundana a quem chamavam a “Incrível Laura”, escreveu Recordações de uma Estada em Portugal, 1805-1806/ Duquesa de Abrantes (Biblioteca Nacional, 2008), um amontoado de frivolidades, conforme Filomena Mónica bem assinala. Enquanto escrevia, o seu marido entretinha-se com a bela condessa de Ega, duplamente traidora (ao marido e à pátria), que casaria depois com um aristocrata russo.

Filomena Mónica refere outras visitantes oitocentistas no seu excelente livro. Uma é pouco conhecida: Isabella de França (1797-1880), uma inglesa casada com um homem de negócios de origem madeirense mas nascido em Inglaterra, autora de Journal of a Visit to Madeira and Portugal 1853-1854 (Junta Geral do Funchal, 1970). Mas há duas visitantes célebres: Lady Catherine Jackson (1824-1891), esposa de um diplomata inglês, autora de A Formosa Lusitânia. Portugal em 1873 (Caleidoscópio, 2007; tradução e notas de Camilo Castelo Branco); e Marie Bonaparte-Wyse (1831-1902; Bonaparte vinha do facto de ser sobrinha-neta de Napoleão), mais tarde Marie Rattazi, escritora e anfitriã literária francesa, autora de Portugal de Relance (Antígona, 1997), onde relata a sua estada entre nós em 1876-1879. Camilo, irado, respondeu-lhe em A Senhora Ratazzi (Calçada das Letras, 2009), usando, na segunda edição, a divertida expressão “Portugal a Voo de Pássara” já que o original da francesa se intitulava Le Portugal à Vol d’Oiseau. 

O Portugal do século XIX, um tempo em que o papel da mulher era extremamente apagado, teve, portanto, outros olhares femininos, além do da filha de Wordsworth. Vale a pena conhecê-los, para saber melhor quem fomos e, portanto, quem somos.

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