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Irene Vallejo. Este fogo frio que mantém ao largo o último predador do homem: o esquecimento

Irene Vallejo. Este fogo frio que mantém ao largo o último predador do homem: o esquecimento

Diogo Vaz Pinto 09/12/2020 16:29

Com uma irrepreensível tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, chegou ao nosso país e esgotou já uma primeira edição “O Infinito num Junco”, livro que foi a grande sensação literária em Espanha no ano que nos impôs uma interrupção decisiva, devolvendo-nos o tempo exigido para um balanço monumental sobre a leitura como regime de continuidade e resistência. 

 

Um êxito inesperado e estrondoso num ano em que o quadro das luzes derreteu, que nos deu um momento para recuperarmos o fôlego, como uma vingança, uma pedrada de algum David, aquela pontaria que canta e que vem de onde menos se espera. Um golpe seco, vindo de um ângulo dado como morto, obsoleto: um livro sobre livros, sobre esta invenção que fez perdurar o fôlego de alguns homens entre épocas, que foi o corpo discreto onde perduraram as melhores ideias da espécie, as tantas descobertas, as mais impetuosas sugestões, formando interiores labirínticos que exigem que a chave seja usada dos dois lados da porta para fazer comunicar os diferentes momentos de uma outra aventura expansionista. O livro, esse regime a baixa temperatura para manter vivos fogos que sabem adormecer, hibernar longamente, aguardando que as condições sejam de novo ideais para lavrarem sobre novos terrenos, este é o melhor de todos os hóspedes, aquele que conserva o mais sumptuoso e resistente dos vírus que criámos. Essa invenção onde o próprio bafejo dos nossos espíritos se inscreve, mas que hoje, tendo-se tornado tão comuns, vêem-se desprovidos do seu prestígio, ao mesmo tempo que firmam uma espécie de negativo para tudo o que vive momentaneamente banhado nessa aura de novidade tecnológica, e, por isso, resiste há décadas debaixo da ameaça de desaparecimento. Este livro que ressurge em nome de uma porção cada vez menor dos que se vêem injustamente relegados para o lixo, vem lembrar-nos as razões porque este é um objecto que, como diz Umberto Eco, pertence à mesma categoria do que a colher, o martelo, a roda ou a tesoura, aqueles que depois de inventados, não há como fazer melhor. Irene Vallejo é quem o lembra, e nos diz que, na voragem das condenações servidas ao longo da cadeia do consumo, “o mais curioso é que ainda podemos ler um manuscrito pacientemente copiado há mais de dez séculos, mas já não podemos ver uma cassete, uma fita de vídeo ou uma disquete de há apenas alguns anos, a não ser que conservemos todos os nossos sucessivos computadores e aparelhos de reprodução, como um museu de caducidade, nas arrecadações das nossas casas”. E este museu pessoal, de que resistem alguns artefactos no acaso dos sótãos ou ao sabor de um apego afectivo, diz-nos muito sobre a catástrofe de uma aceleração que imprime em nós uma urgência adaptativa em que o próprio se sente coagido a estar em dia com todas as actualizações, corrigir os bugs detectados num sistema operativo que lhe é imposto, que cria uma série de penalizações por ausências prolongadas, e cujos circuitos parecem começar a estender-se aos próprios sonhos, depois de há muito terem invadido a intimidade, virando-a do avesso. Mas fiquemos por aqui no que toca a essa proposta que o futuro nos serve cada vez mais como uma dura pena, um cenário onde a cada etapa nos é exigido mais algum sacrifício em termos de autonomia, ao ponto de nos sentirmos nós próprios como aparelhos, peças de hardware. Deixemos estas ilações e foquemo-nos no esplendoroso livro de Vallejo, “O Infinito num Junco”.

Desde o prólogo vemos um tipo diferente de pó a erguer-se, nas páginas de um livro novo sente-se o chão perturbado por ginetes que cavalgam desde uma paisagem de há milhares de anos, e ergue-se com esse pó que não é o dos livros um sobressalto, em vez de caves onde mal se respira, desses quartinhos de solitários feridos por horas de leitura, tendo em seu redor – no chão, nos cantos, debaixo da cama, na secretária – colunas de livros “transformando o espaço numa floresta saprófita cujos troncos cheios de ramificações ameaçam desalojá-los” (Alberto Manguel), em vez disso, aqui temos espaços abertos, extensões atordoantes, e, rasgando-se contra elas, aparecem-nos os vultos de “caçadores em busca de presas de um tipo muito especial – presas silenciosas, astutas, que não deixam rasto nem pegada”. Em Espanha, onde se esgotava uma edição atrás da outra, vendendo-se em poucos meses mais de 100 mil exemplares, enquanto eram negociadas as traduções para mais de 30 países, alguém se lembrou de cunhar o termo “ensaio de aventuras”. E a noção de que estamos diante de um ser literário distinto, um notável e rigoroso complexo narrativo montado a partir de pesquisas em tantas bibliotecas, impressões, memórias, cadernos transbordando de notas febris, isso é-nos dito, somos envolvidos na própria criação, nas dificuldades já resolvidas, com o fruto colhido como um órgão de um vasto ser cujos contornos exteriores não se vislumbram de imediato. E, assim, ainda ouvimos a narradora questionar-se sobre o método: “como manter o esqueleto dos dados diferenciados sob o músculo e o sangue da imaginação?” Tudo se resolve pelo lado do tal fascínio. Os dados e os factos, sim, com certeza, mas sempre que preciso articula-se a coisa convocando o ar de intriga e mesmo o aspecto de incerteza que nos cinge a respiração quando não se sabe exactamente que desfecho esperar. “Este relato é uma tentativa de continuar a aventura daqueles caçadores de livros”, aqueles a quem o rei do Egipto confiou grandes quantias de dinheiro e os mandou atravessar fronteiras e grandes distâncias, em todas as direcções em busca de livros. Não deste ou daquele. Não se trata de uma demanda do graal, mas de uma cópia do mundo e da própria imaginação, dessa sombra feérica, e isto para abastecer a Grande Biblioteca de Alexandria, essa visão que nasce da maior das fomes, a fome do mundo e de os seus ecos e reflexos. Irene Vallejo diz-nos que gostava de ser a improvável companheira de viagem destes misteriosos homens a cavalo, “à espreita de manuscritos perdidos, histórias desconhecidas e vozes prestes a emudecerem”. E é isso o que faz. Já não investida na sua missão por um visionário faraó, mas inspirada por essa obsessão, e, ao contrário daqueles homens, que talvez nem “percebessem a transcendência da sua tarefa – que lhes parecia absurda, e nas noites ao relento, quando os borralhos da fogueira se apagavam, murmuravam que estavam fartos de arriscar a vida pelo sonho de um louco” –, ao contrário deles, ela sabe a lendária repercussão que terá este projecto, sabe que “ao procurarem o rasto de todos os livros como se fossem peças de um tesouro disperso, eles estavam a estabelecer, sem sabê-lo, os alicerces do nosso mundo”.

A certa altura, Vallejo lembra-nos da dificuldade que seria fazer um inventário de todas as perdas que significaria nunca se ter inventado o livro, esse instrumento que, ao invés de ser uma extensão do corpo, se mostrou a mais fiável extensão da memória e da imaginação, como notou Borges. E recorda então as palavras de Elias Canetti, que fez uma espécie de vaticínio não sobre o futuro, mas sobre esse mundo incapaz de distinguir o que foi do que será: “Se cada época perdesse o contacto com as anteriores, se cada século cortasse o cordão umbilical, só poderíamos construir uma fábrica sem futuro. Seria a asfixia.”

Neste ensaio, a filóloga nascida em Saragoça em 1979 mostra uma perícia invejável, por vezes mesmo assombrosa, no uso que faz das armas que tem, provando a tese de que “a invenção dos livros foi talvez o maior triunfo na nossa tenaz luta contra a destruição”. Faz do seu argumento um exuberante híbrido literário valendo-se de todos os ingredientes ao seu dispor na milenar despensa. Com uma capacidade lírica de fazer corar muitos dos nossos santos de altar dos versinhos, sem nunca se exceder nos condimentos, das prateleiras empoeiradas, de fólios carcomidos, de páginas manchadas levanta referências soberbas, e depois de lhes soprar o pó, aviva nelas ecos inesperados, lança-as num balanço aventuroso, entretece-as num ensaio que tem aquele fluxo de reportagem em que tudo nos exaure. Passa a limpo, interiorizando e repetindo, conclamando, colhe as palavras que esperavam frescas em páginas como frutos imemoriais, passa-as tantas vezes, como de castigo no quadro o miúdo, mas fá-lo antes por desejo, para conquistá-las, sabê-las de cor, tentando que a mão vá ao encontro da sua fantasia. Deste modo recria o ensaio como paixão perseguida, “um género suspenso entre as pulsões para o risco ou a aventura” (Brian Dillon), galopando nesta sela que atou sobre o dorso de um animal que abrange milénios, e progride acumulando factos e conjecturas, historietas e teorias, entrançando-as num hausto que nos habituámos a esperar dos narradores que dominam como deuses todos os aspectos das suas narrativas, assumindo as maiores liberdades na criação de mundos, esses textos em que cada frase circula e se desdobra, e aqui, isto é feito indo das teses clássicas às memórias pessoais num instante, tratando a evolução da escrita e da leitura desde o alado vendaval das tradições orais, tomando balanço e elevando a uma epopeia a audácia do faraó que criou a Biblioteca de Alexandria, dando-nos um retrato que vai dos seus antecedentes à sua ruína, focando-se depois na criação de uma cultura literária na Antiga Roma. São estes os dois momentos capitais de um ensaio que, a partir destes troncos principais da narrativa histórica, se ramifica e colhe na sua frondosa estrutura todos esses bandos migratórios que foram instrumentais à polinização da técnica e dos saberes que fazem do livro um suporte e, ao mesmo tempo, uma espécie de relíquia, um objecto que predispõe as mãos, a atenção do leitor, o próprio corpo para essa forma de interpretação de uma música calada, lendo na pauta notas que podem ser as mais tímidas e até inócuas, ou em poucas linhas criar uma música esmagadora, descompassada, às surdas. Assim, Vallejo guia-nos nesses avanços e saltos, por vezes misteriosos, cujos protagonistas chegam a ser heróis anónimos, indo do desenvolvimento dos alfabetos escritos, aos catálogos das bibliotecas e ao comércio do papiro, tocando o legado de Alexandre, o Grande, que levava para todo o lado o seu exemplar da Ilíada, e, para além de apanhar bem os aspectos maiúsculos da história, a autora caça ainda as suas minúsculas, bem como os itálicos de alguns devaneios. E nas suas considerações, deixando a rédea solta, revela um impressionante domínio das mais penetrantes leituras críticas, e vai com Homero ou com a “multidão de bardos itinerantes escondidos atrás do seu nome”, vai com Platão, Aristóteles, Safo, Marcial e Séneca, mas também vai evocando um conjunto de obras contemporâneas como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, O Leitor, de Bernhard Schlink, No Longer at Ease, de Chinua Achebe ou Memento, o filme realizado por Christopher Nolan, criando uma poderosa malha de ressonâncias que mostra bem a forma como a leitura firma laços através do tempo, construindo “uma comunicação íntima, uma solidão sonora que, para os anjos, é surpreendente e milagrosa – dentro da cabeça das pessoas, as frases lidas ecoam como um canto à capela, como uma oração”. Mas se Vallejo domina até os códigos da crítica literária, não nos aborrece oleando e flectindo os bíceps da sua erudição, perdendo-se nessas minúcias que apenas servem o fim de embasbacar esses leitores que ficam diante dos textos como de uma máquina de lavar a roupa entretidos com a mastigação alheia. Antes forma em nós uma espécie de auditório, o leitor sente-se a acotovelar várias dimensões de si mesmo, lendo como quem a ouve discorrer sobre a cultura oral helénica de uma forma que nos faz mergulhar numa realidade alternativa, em que a memória tinha os literatos como seres de solas gastas, a comer o pó dos caminhos. Hoje que a poesia acorre aos últimos palcos, em que qualquer estrado lhe serve para arrancar penas de pavão ou de galinha a um suposto canto de cisne, deslumbram-nos as suas descrições de recitais ao cair da noite, em que o corpo era um ritmo, perfeitamente sintonizado, acicatando a memória que, sem ter outro apoio, ia dispondo as cenas, lendo a audiência, improvisando aqui e ali, montando o seu ardil. Vallejo fala-nos daqueles “artistas caminhantes, os andrajosos enviados das musas, sábios boémios que explicavam o mundo em canções, metade enciclopedistas e metade bobos da corte”, lembra-nos que eram estes os antepassados dos escritores, homens “como livros de carne e osso, vivos e palpitantes, em tempos sem escrita e, portanto, sem História”, poetas épicos que “conservavam a lembrança do passado porque, desde crianças, cresciam num mundo duplo – o real e o das lendas”.

Se muito se perdeu quando as palavras aladas se viram por fim forçadas a depor as asas, a autora nota a ironia de aqueles textos que se ligam às próprias fundações da cultura Ocidental serem uma herança cuja salvação exigiu feri-los de morte, fixar essas enciclopédias em que os gregos compilavam todo o seu saber popular. Por outro lado, nota que “a possibilidade de narrar uma história livre e transgressora é alheia a uma época em que os poetas eram sentinelas da tradição”. E adianta que “seria preciso esperar até à invenção da escrita e dos livros para que alguns escritores – sempre em minoria começassem a falar com a voz dos díscolos, dos rebeldes, dos humilhados e ofendidos, das mulheres silenciadas ou dos espancados e feios Térsites”. Explica ainda que a invenção da escrita significou também uma expansão inaudita da própria voz como espelho através dos tempos, já que “os novos textos puderam começar a multiplicar-se numa variedade infinita porque já não estavam sujeitos à economia da memória – o armazém do conhecimento deixou de ser exclusivamente acústico, converteu-se num arquivo material e, portanto, podia ampliar-se sem limites”.

“Perante a oralidade, que favorecia as formas e ideias tradicionais, reconhecíveis para o seu auditório, o discurso alfabetizado podia abrir-se a horizontes desconhecidos porque o leitor tinha tempo para assimilar e meditar com tranquilidade sobre ideias novas”, escreve Vallejo. “Nos livros cabem formulações excêntricas, vozes de identidades individuais, desafios à tradição.” E reconhecendo isto, a ensaísta que tinha já um percurso enquanto ficcionista procura alargar o espectro e reclamar o papel tanto das mulheres como dos escravos ou dos iletrados nesta história, e além de os convocar ao longo do ensaio, de os retirar da sombra, dedica-lhes o epílogo (“Os esquecidos, as anónimas”) falando-nos das aguerridas bibliotecárias montadas a cavalo que, ao longo de uma década, entre 1934 e 1943, cobriam as veredas dos Apalaches, no Kentucky, levando livros até aos redutos mais isolados, isto no período da Grande Depressão, tendo sido uma medida do governo federal promovida no combate ao desemprego, à crise e ao analfabetismo. Vallejo dá-nos este exemplo de um programa que deu trabalho a quase mil bibliotecárias hípicas, as quais revelaram ter nervo e uma paixão exemplar junto de comunidades rurais bastante pobres, em que apenas um terço das pessoas sabia ler, e conta-nos como muitas vezes se viam obrigadas a transportar às costas o “pesado alforge de mundos imaginários”, distribuindo os livros por escolas rurais, centros comunitários e casas de camponeses. Vallejo sublinha também que, depois de inicialmente se terem deparado com um ambiente de desconfiança acabaram por converter montanheiros em ávidos leitores, e chegaram até a ser recebidas por comissões de boas-vindas, crianças que as buscavam, gritando que lhes deixassem algum livro para ler, sendo então Robinson Crusoé o título mais pedido.

E se este livro em alguns momentos é uma autêntica e deslumbrante ode aos livros, à leitura e à escrita, não deixa de se mostrar consciente de que “qualquer imagem adocicada ou reverencial da cultura é ingénua, para além de estéril”, mas assume bastantes cautelas para ficar ao largo de uma análise da própria ameaça ao prestígio dos livros pela proliferação do chamado “lixo editorial”. Contudo, reconhece como, depois do livro, a possibilidade de expandir a nossa memória não deixou de ser uma tentação a que a tecnologia tem vindo a dar resposta propondo “transformações [que] são ao mesmo tempo perigosas e fascinantes”. “A linha que separa as nossas mentes da Internet está a tornar-se cada vez mais difusa. Instalou-se entre nós a impressão de que sabemos tudo aquilo que podemos localizar graças ao Google.” Neste ponto, Vallejo refere as experiências feitas por Daniel Wegner dos anos oitenta para a frente, e a sua teoria da memória transacional, que nos diz que “se recordarmos onde encontrar informações importantes, mesmo sem retermos o conhecimento concreto, estamos a ampliar as fronteiras do nosso território mental”.  Contudo, neste ponto vale a pena recordar o aviso de Sócrates a Fedro feito a propósito da invenção da escrita: “O que as letras produzirão é esquecimento em quem as aprender, ao descurar a memória, já que, fiando-se dos livros, chegarão à recordação desde fora. Será, portanto, a aparência da sabedoria, não a sua verdade, o que a escrita dará aos homens; e, quando tiver feito deles entendidos em tudo sem uma verdadeira instrução, será difícil suportar a sua companhia, porque se julgarão sábios em vez de o serem.”

É neste ponto em que estamos, atingidos por ondas sucessivas do “verborreico concerto de comentários, indignações e ironia nas nervosas redes sociais”, e isto em reacção a qualquer notícia, cavando fossos, erodindo a nossa paciência, fazendo estalar essa fina camada de verniz social que levou tantos séculos a aplicar, transmitindo valores de solidariedade e entre-ajuda, e, assim, parece que a própria civilização do livro, esse processo de sintonia íntima que levou Schopenhauer a fazer equivaler a leitura a uma forma de se pensar através da cabeça de outro, está a ser desaprendido, minado, criando-se uma tendência para a literalidade, perdendo-se a capacidade de ler as nuances, o que redunda numa espécie de iliteracia motivada pela pressa, e também por uma explosão viral da cólera. Ora, como nos lembra Vallejo, a primeira palavra da literatura ocidental é precisamente essa: “cólera (em grego, ménin)”. “Assim começa o hexâmetro inicial da Ilíada, fazendo-nos mergulhar, de repente, sem hesitar, no barulho e na fúria”. Mas neste livro, a rota traçada pela autora leva-nos para outra forma de explorar este sentimento que dominou Aquiles, ensina-nos algo parecido com esse exercício de “tamborilar nas desgastadas campas a obscura canção daquele que tem deveres e obrigações com o infinito” (Pablo de Rokha), dá-nos a impressão da leitura como um movimento de águas que invadem, cultivam e deslocam a percepção, inundando-nos o espírito de verdades crepusculares, assombrações miúdas. Fala-nos do livro como antídoto que uma vez mais está em condições de resgatar a memória do passado, de nos fazer penetrar essa trama clandestina face ao ritmo opressivo dos nossos dias, pondo-nos ao nível desse contágio discreto, pouco veloz, cuja força se adquire interiormente a partir da luta que impomos a nós próprios, como se os nossos próprios gestos fossem matéria de leitura, e por baixo estivessem tantos olhos, tantas línguas, ouvidos alerta ao rugir na nossa sombra o clamor desses nebulosos leitores futuros.

Como antídoto, os livros, a leitura e a escrita têm a paciência de explicar essas coisas para as quais parece já não haver tempo. Um livro como este começa por revelar uma espécie de fé na reconquista do tempo, aquele que sobejava para que fôssemos seres por extenso, para que fôssemos cativados pelas nossas próprias narrações. É um livro de capítulos breves, numerados, sequências opulentas, servindo-se a seu bel-prazer entre a História, as lendas e os rumores, numa vigília ininterrupta, tecendo uma teia de fragmentos, cintilâncias, epitáfios, do respiro das epopeias até às frases de taberna, os provérbios recônditos, organizando sublimemente um processo caótico e rebelde. E o seu enorme êxito este ano é um sinal de esperança. Como uma promessa de que são cada vez mais aqueles que precisam respirar o ar de um tempo sem prazos, sem pressas, um tempo para se voltar a ler à luz de candeeiros nervosos, apavorados, deliciados... É nosso o benefício dessa luz anónima que tanto nos diz sobre amores mortais, sobre o que, deixando-se morrer, renasce insistentemente, essa luz que cai sobre territórios “sem mais horizontes que outros olhos olhando-se de frente” (Luis Cernuda).

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