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David Farrier e as pegadas

David Farrier e as pegadas

Carlos Fiolhais 04/12/2020 17:12

O último volume publicado na série de não ficção da Elsinore, Pegadas. Em busca dos fósseis futuros, tem a ver com a história do amanhã.

 

A Elsinore, uma chancela da editora 20|20, foi buscar o seu nome à designação em inglês da cidade dinamarquesa de Helsingor, onde fica o Castelo de Kronborg, que inspirou Shakespeare na escrita de Hamlet. O surrealista Mário Cesariny foi buscar ao Hamlet o título do seu poema “Welcome to Elsinore” (Pena Capital, Assírio & Alvim, 2004), que vem transcrito a abrir os livros com aquela chancela. Na série de não ficção da Elsinore estão obras de extraordinário êxito como Homo Sapiens: História Breve da Humanidade (2020; há uma edição anterior: Vogais, 2013) e Homo Deus: História Breve do Amanhã (2017), do historiador israelita Yuval Noah Harari. Mas estão também boas obras de divulgação de ciência como A Sexta Extinção (2014), da jornalista norte-americana Elizabeth Kolbert, e livros que ligam a ciência e a literatura como Vozes de Chernobyl (2016), da escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch, Prémio Nobel da Literatura de 2015. O último volume publicado dessa coleção, Pegadas. Em busca dos fósseis futuros, tem a ver com a história do amanhã, como a “sexta extinção”, isto é, a grande extinção causada pela espécie humana, e com a tragédia de Chernobyl. A escrita, embora não ombreando com a de Alexievich, é literária e cativante.

Quem escreveu? David Farrier, professor de Literatura Inglesa na Universidade de Edimburgo, formado em Leeds e com experiência docente em Leicester e beneficiário de uma bolsa na Universidade de Nova Gales do Sul, perto de Sidney, na Austrália, usada para redigir boa parte desta obra. Esta foi distinguida em 2017 com o Prémio St. Aubyn para primeiras obras de não ficção da Royal Society of Literature. No entanto, só foi publicada em março deste ano, tendo a sua tradução em português (muito competente, de Raquel Dutra Lopes) saído em outubro. O livro, que não é grande (306 páginas), estende-se por oito capítulos, que são precedidos por uma introdução e seguidos por uma coda. Farrier tem-se interessado por temas ambientais, cruzando ciência e literatura. Em 2019 publicou um livro sobre o mesmo tema, mas de âmbito mais académico: Anthropocene Poetics: Deep Time, Sacrifice Zones and Extinctions (University of Minnesota Press, 2019).

O livro trata das marcas humanas que poderão ser encontradas num futuro distante, daqui a dez mil anos ou a dez milhões de anos, tal como encontrámos na Tanzânia pegadas de hominídeos de há mais de 3,6 milhões de anos. O autor parte das pegadas em sentido estrito: “Às pegadas antigas, bem como a tocas, rastos e marcas de dentes, chamam-se ‘vestígios fósseis’. Ao contrário de corpos fossilizados, falam-nos da vida, e não da morte. Embora incorpóreos, estes vestígios prestam testemunho do peso, do porte e dos hábitos de um corpo entretanto partido, contando histórias acerca de como eram vividas vidas antigas”. Foi o economista norte-americano John Maynard Keynes que disse que “a longo prazo, estaremos todos mortos”. De facto, não sabemos se daqui a dez mil anos ou dez milhões de anos ainda existirão representantes do Homo sapiens a caminhar sobre a Terra. Escreve Farrier: ”Talvez não haja gente no mundo para interpretar os nossos vestígios; não obstante, estamos - por todo o lado, constantemente e com uma prodigalidade espantosa - a deixar um legado que perdurará por centenas de milhares ou, até, centenas de milhões de anos”. Pode não haver pegadas em sentido literal. Mas haverá decerto marcas da presença humana neste planeta. Prossegue mais adiante: “Pegadas é a minha tentativa de descobrir como seremos recordados pelo futuro muito profundo. Há milhares de anos que as pessoas modificam a Terra e alteram os ecossistemas, mas as alterações feitas ao planeta e os materiais cada vez mais duradouros que nós (sobretudo no Norte global) criámos desde a revolução industrial surgiram com uma velocidade e um inventividade sem precedentes, e deixarão marcas persistentes, mais do que qualquer coisa que os seres humanos tenham produzido antes. Na minha busca por fósseis do futuro olho para o mar, para os oceanos e para a rocha, de uma bolha de gelo tirada do cerne da Antártida a um túmulo de resíduos radioativos nas profundezas do leito rochoso finlandês”.

O nome Antropoceno que Farrier tem no título do seu livro mais académico foi proposto no início dos anos 80 pelo biólogo norte-americano Eugene Stroemer, para referir o tempo marcado pelo impacto humano no planeta, mas foi o químico holandês Paul Crutzen, Nobel da Química de 1995, que no ano 2000 propôs um novo tempo geológico que se sucedesse ao Holoceno, iniciado há 11,7 mil anos com o último grande período glacial e que é a última época reconhecida até agora do Quaternário. De facto, existe uma controvérsia sobre a existência dessa época e, caso ela exista, sobre o seu início. Crutzen defende que teve origem na Revolução Industrial, mas há quem o faça remontar à Revolução Neolítica e quem proponha que só começou com as primeiras explosões nucleares, no fim da ii Guerra Mundial. Em 2009, conforme lembra Farrier, a Comissão Internacional de Estratigrafia nomeou um grupo para estudar a possibilidade de criar essa nova unidade geológica, a “era do ser humano”. Em abril de 2019, o grupo divulgou que iria propor à referida comissão a nomeação do Antropoceno em 2021. Decisiva será a evidência da presença humana nos estratos, que se pode concretizar por microplásticos, metais pesados ou núcleos radioativos provenientes das explosões nucleares (provavelmente, a proposta será aprovada e o início será em meados do século passado).

Para procurar marcas humanas perduráveis, Farrier não se poupou a esforços em excursões no Reino Unido, designadamente na paisagem à volta de Edimburgo (que, devido à deriva dos continentes, já teve clima equatorial, conforme pode perceber quem, como eu, já viu o museu Dynamical Earth naquela cidade escocesa) e noutras paisagens do planeta. Visitou, por exemplo, a Grande Barreira de Coral, na Austrália, que está ameaçada pelas alterações climáticas globais. Esteve em Xangai, cidade com mais de 24 milhões de habitantes que corre o risco de ficar inundada se o nível das águas do mar continuar a subir. Não será só Xangai: Nova Iorque e Nova Orleães não poderão ficar no mesmo sitio, pelo que haverá uma Nova Nova Iorque e uma Nova Nova Orleães.

Uma das marcas maiores do livro é o conjunto das suas citações literárias. Muitos escritores têm “pegadas” no livro. Louve-se o cuidado que a tradutora teve de usar as traduções de edições portugueses de obras já publicadas em vez de voltar a traduzir: foi buscar, entre outros, e por ordem alfabética, Svetlana Aleksievitch, Walter Benjamin, Daniel Defoe (podemos ler a passagem em que Robinson Crusoe encontra uma pegada na areia que o leva a pensar que não está sozinho), T. S. Elliot, Philip Dick, John Milton, William Shakespeare e Virginia Woolf. 

As referências desse não tipo sucedem-se. Por exemplo, Farrier, quando fala dos plásticos, cita o ensaísta francês Roland Barthes, que em Mitologias (Edições 70, 1978) escreveu: “A hierarquia das substâncias é abolida, pois uma só as substitui a todas: o mundo inteiro pode transformar-se em plástico, e até a própria vida, pois, segundo parece, já começaram a fabricar-se aortas de plástico”. Barthes não imaginou, porém, que o plástico iria formar enormes ilhas nos oceanos… Nem que já há plástico fossilizado: o livro acaba com o encontro de uma corda fossilizada numa praia. Outro exemplo: Farrier cita a escritora norte-americana Ursula K. Le Guin que, em The Carrier Bag Theory of Fiction (1986), diz que o primeiro instrumento humano não foi uma arma de arremesso, como sugere Stanley Kubrick em 2001. Odisseia no Espaço, mas sim um recipiente (um saco ou um balde) para levar uma coisa de um lado para outro. A metáfora de mudar uma coisa de um lado para outro aplica-se à construção de cidades: fazemos edifícios de betão, aço e vidro, deixando grandes buracos nos sítios onde fomos buscar rochas, minérios e areia.

Farrier sabe bem usar metáforas. Serve-se, por exemplo, da Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, para descrever o ar aprisionado em pequenas bolhas no gelo que nos informa como foi o clima terrestre há muitos anos. O gelo funciona como uma biblioteca que guarda a memória dos tempos passados. É de lá que conhecemos o aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera. E é lá que ficará um registo do tempo de hoje. 

Na minha opinião, Farrier não enfatiza suficientemente as grandes diferenças que haverá na Terra a longo prazo do ponto de vista geológico, pois os continentes são “jangadas de pedra”. Nem os resultados da lenta evolução biológica, que conduzirá a espécies que nos terão como antepassados. Mas dá-nos uma perspetiva do futuro a longo prazo que nos suscita humildade. No final, escreve: ”Achamos que sabemos o que esperar do mundo em que vivemos e perdemos a oportunidade de ver as coisas não só como são mas também como estão a tornar-se. Novos mundos surgem todos os dias, observou Calvino, e nós não reparamos neles. Na correria do dia-a-dia, escapa-nos a mudança subtil; através do hábito, vemos o presente à luz do passado. O desafio encontra-se em aprender antes a examinar o nosso presente e a nós mesmos, à luz sinistra lançada por um futuro iminente”.

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