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H.G. Cancela. A Impiedade da História

H.G. Cancela. A Impiedade da História

João Oliveira Duarte 04/12/2020 16:58

Com A Noite das Barricadas H.G. Cancela dá-nos a história de uma personagem carregada de ódio e ressentimento, um homem sitiado, avesso a qualquer lugar, sem redenção possível. Uma metáfora da história, onde esta só conhece a devastação, a violência, a impiedade.

 

A linguagem é sóbria, neutra, mantendo quase sempre o mesmo ritmo, a mesma tonalidade. Mesmo quando descreve acontecimentos repulsivos (o corpo de uma criança morta num atentado à bomba) nunca deixa uma dimensão de registo, fria, como se acrescentasse impiedade à impiedade. A Noite das Barricadas, o último livro de H.G. Cancela, é uma história do ressentimento, do ódio, da violência, de uma anarquia fundamental que percorre sem fim a história humana acumulando destroços, vazios, morte e mais morte. “Toda ela som e fúria”, como diria Shakespeare, “nada significa” a não ser essa acumulação sem fim, sem finalidade, sem propósito. 

O Capitão – nunca nos é dito o nome dele nem do filho –, líder de um grupo anarquista que semeou o terror com atentados à bomba no pós-25 de Abril, é liberto da prisão, com idade já avançada, para vir morrer a casa de uma doença. Encontramo-lo a sair do estabelecimento prisional, a ir de carro de volta a uma herdade junto à fronteira com Espanha e, posteriormente, numa longa viagem com o filho e Helena – arqueóloga que viríamos a descobrir quase no fim do livro ser filha do amante da mulher do Capitão, que morreu juntamente com esta num atentado à bomba em Évora. O destino, que não chegam a alcançar, é Paris, onde o Capitão, testemunhando Maio de 58 – o título, aliás, remete-nos para um acontecimento histórico preciso, a noite de 10 de Maio de 1968 –, muda subitamente de lado, deixando o cargo no exército português, a barbárie nas antigas colónias, para se tornar num opositor do regime salazarista. O resto, como se costuma dizer, é história, a história deste homem cheio de ódio, de ressentimento contra tudo e todos, desta figura totalmente negativa, odiado por todos os lados, por todos os quadrantes. Grande parte do livro é esta viagem entre o Alentejo e Paris onde, na realidade, nada acontece, apenas um longo solilóquio e uma longa meditação sobre a história, uma história de morte e barbárie contada sem arrependimento, o mais próxima possível do mero registo, da data – deixando ouvir “um único não que ecoava através da história”.

H.G. Cancela já nos acostumou a essa dimensão meditativa, bastante presente na sua escrita e dívida, talvez, ao professor de filosofia. Mas se nos outros, em As Pessoas do Drama, por exemplo, essa dimensão corre o risco de surgir como demasiado excessiva, em A Noites das Barricadas ela ganha corpo. Os longos solilóquios, a tonalidade neutra, a reflexão constante, insistente, tudo isso encontra um centro a partir do qual irradia, uma história de que decorre, um nome ao qual se cola: o Capitão.

“Haveria sempre quem acabasse a chorar. Nenhumas lágrimas lavariam o sangue, como nenhum sangue secaria as lágrimas. Mas não incorreria no erro de relativizar de mais, cada coisa era, em si mesma, o princípio e o fim. (...) Sabia-se condenado. Não da culpa que o conduziria à prisão, mas de outra maior. Nenhuma versão da história o poderia recuperar. Nem a dos vencedores, nem a dos derrotados. Nem a dos cínicos, nem a dos justos.”

É uma história sem redenção – de um homem que não tem lugar em lado algum, expulso, por culpa própria, de todo e qualquer lugar, cuja única lei que conhece é um “imperativo que exigia que avançássemos, sem perguntar de onde vínhamos ou para onde nos dirigíamos. Se havia de onde, se havia para onde. «qual o fim»”

Bomba a bomba, morte a morte, construir o tempo, construir o espaço e o mundo, sem qualquer arrependimento, sem qualquer forma de expiação, sem qualquer desígnio que não seja esse lugar à margem de tudo e de todos, essa solidão sitiada para a qual “a extorsão talvez seja o outro nome do tempo.”

“Amontoavam-se os objectos que ninguém usava, os corpos que ninguém já desejava, as palavras que já não significavam nada (...) Haveria um momento em que tudo se tornaria insignificante. (...) Tratava-se somente de manter a máquina em movimento, de alimentar a violência com violência e de sobreviver o tempo suficiente para simular uma saída. Não havia nenhuma. Estava também fora de causa encontrar compromissos.”

É um mundo que conhece apenas escombros, de onde qualquer justiça possível – face ao passado, face ao presente ou abrindo a possibilidade do futuro – desertou, cujo olhar transporta apenas a impiedade. Há esta frase, aliás, que abre o livro e que surge, igual, no último capítulo, marcando o tom, a frieza desta visão irónica – uso aqui “ironia” num sentido preciso, próximo de Broch e de Hofmannsthal: a repugnância pelas coisas, o puro desacordo, a “agressão das coisas”: “nenhum romantismo, apenas impiedade. Nada de heróico”. Este corpo doente, numa acelerada decomposição ainda em vida, não pretende romancear a sua vida, conferir-lhe um sentido, acrescentar princípios e finalidade – desculpar-se, enfim, arranjar subterfúgios para os disparates do tempo. Nem romantismo, portanto, nem qualquer forma de heroísmo – subtrair a história, esta história do Capitão, a qualquer narrativa, a qualquer romance, a qualquer ficção. Também não pede a Helena e ao filho qualquer forma de perdão, mesmo aquele que poderia vir de se contar a história na primeira pessoa. Sem subterfúgios e sem desculpas, a história que o Capitão nos conta é como a estrada onde se encontra: sucessão indefinida de quilómetros, uns iguais aos outros, numa paisagem deserta, sem vida, sem escapatória – sem querer perdão nem redenção, um último “não” lançado ao rosto da história, uma última recusa, uma última barreira, uma última barricada: “os seus olhos eram os de um acossado”.

“Nenhum romantismo, apenas impiedade. Nada de heróico. Prescindir de escrúpulos e suportar o cerco. Matar ou não matar não faz diferença. Morrer. É um erro comum, prolongar a barricada procurando proteger a rectaguarda. Acaba-se cercado. Há barricada atrás, à frente. Recuamos sobre nós mesmos, sem darmos conta de que a cada dia ficamos mais acossados”.

Se a Helena e ao filho não é pedido que compreendam, que aceitem o que quer que seja, se lhes é pedido que apenas registem as palavras que mal se ouvem – no limite, nem são necessárias, este solilóquio, carregado de ressentimento, dispensa testemunhas num último opróbrio, na última das infâmias – isso deve-se, também, à metáfora arqueológica que surge logo nas primeiras páginas (Helena é a arqueóloga encarregue de escavações na herdade do Capitão e do filho).

Uma escavação: nesta, inverte-se o sentido do tempo, “escava-se do fim para o princípio, mas não havia na história um fim e um princípio”. 
“O tempo não é uma linha, é uma mancha. Não é uma sucessão de pontos que fosse possível inverter e reconstruir, é uma nódoa, um derrame que alastra como gordura sobre papel. Não uma linha, mas hectares, quilómetros quadrados que ressumam, dispersando-se e empapando a terra”

Acumulação de destroços, de escombros, mortos sobre mortos, sem verdade, sem lucidez, sem revelação: “«o chão está cheio de mortos», dissera. De pedras, de cacos.”. E não há nada mais do que isso, para o Capitão, nada além de pedras, de cacos, de escombros, uns a seguir aos outros, todos eles uma dívida de uma violência que ordena o mundo mas que condena tudo ao desaparecimento, tudo submetido à única constante que conhece: essa violência que se quer a si mesma, esse “não” acossado dito à face das coisas e do mundo. 
“o acumular de coisas ou de acontecimentos não produzia mais verdade ou mais lucidez. A última camada não daria lugar a nenhuma revelação. Duvidava que algum estrato pudesse explicar-se a si próprio, não mais do que poderia explicar os restantes. A acumulação não produzia justiça, fosse a da memória, fosse a do esquecimento.”

Escavar – é isso que o Capitão faz, mas também é esse o trabalho de Helena –, mas não encontrando qualquer finalidade, qualquer desculpa, nada que o pudesse resgatar, perdoar, redimir – mas não é nada disto que ele quer, como se o seu relato fosse uma última vingança face ao tempo, uma última acusação, uma última morte para lembrar aquele que se quis subtrair a qualquer lugar, que quis apenas a margem do ódio. 
“aproximou-se do extremo de uma das valas. Em baixo, tinha sido posto a descoberto o que parecia ser uma deposição secundária de restos humanos. Ossos misturadas e sobrepostos de vários indivíduos. (...)
«Será possível saber a idade, o sexo. Nunca o nome ou os crimes. Resgatamos talvez quem deveria permanecer proscrito.»
Talvez alguém o tivesse enterrado ali para garantir que ele continuaria morto e não regressaria para ameaçar os vivos. Talvez aquela fosse uma forma de punição. A promessa de um tempo eterno de castigo”

Nunca se sabe o que se desenterra do passado, nunca se sabe quem se desenterra – se vítima ou carrasco ou ambos ao mesmo tempo. A história, essa, não confessa, mostra a sua facies hippocratica, e o Capitão é esse “não” impiedoso lançado contra ela. Morre como viveu, o mesmo “som e fúria”, juntando a história ao destino, selando a impiedade, “pobre actor que em palco breve instante se contorce e pavoneia”. E isto “nada significa”.

 

 

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