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Luís de Matos. "Este espetáculo é um grito de reinvenção, de capacidade de sonhar"

Luís de Matos. "Este espetáculo é um grito de reinvenção, de capacidade de sonhar"

Miguel Silva Vítor Rainho 09/12/2020 22:16

No ano em que festeja 25 anos de carreira, Luís de Matos quer unir as pessoas que estão à frente do palco com as que estão em casa. Como? Com magia.

Fica em Chão de Couce, no concelho de Ansião, e na Rua Preta 33 árvores escondem o Estúdio 33, do mágico Luís de Matos. Um espaço onde tudo acontece e onde tudo é produzido para dar cor aos espetáculos. Tem um estúdio de televisão, um teatro, mas é muito mais do que isso. É, no fundo, uma fábrica de sonhos. No jardim estão as árvores que os amigos lhe ofereceram, estando a última ainda por plantar, uma oliveira com o nome de Manuel Serrão. À semelhança do comum dos mortais, Luís de Matos viu a pandemia trocar-lhe as voltas e dos 23 espetáculos previstos, durante 23 semanas, em diferentes cidades europeias, acabou por ficar-se pela primeira paragem. Agora prepara-se para atuar, a solo, em Lisboa, Coimbra e Porto. O homem que produziu o espetáculo de abertura do Estádio do Dragão diz-se preparado para lutar contra a pandemia, unindo as pessoas, pois vivemos uma fase em que quase tudo está conectado. É justamente esse – #Conectados – o nome do espetáculo que subirá ao palco do Tivoli a 18 de dezembro.

Este ano só conseguiu fazer um espetáculo em Praga.

Sim, recordo que, em princípio de fevereiro, quando fomos para Praga, já viajámos a usar máscaras cirúrgicas debaixo de um olhar muito admirado e recriminatório por parte das pessoas com quem nos cruzávamos nos aeroportos. No regresso a mesma coisa. Estávamos a procurar ser muito conscienciosos relativamente ao perigo que representa a pandemia. Depois fomos para teletrabalho, ainda que seja muito difícil nesta atividade produzir em teletrabalho, mas sim, fizemos tudo isso e passámos a ter medidas.

Aqui no estúdio?

Cinco de nós permanecemos no estúdio. Porque no momento do lock down estava precisamente a trabalhar comigo cá um engenheiro de som da República Chega, um mágico espanhol e um mágico inglês. Ficámos os cinco, eu, a Vanessa, o Paulino, o Onza e o James. O resto da equipa deixou de vir trabalhar, ficou em teletrabalho, mas houve um dia que me cruzei com um artigo inglês do agente da Billie Eilish, num revista dedicada a promotores e digressões internacionais, que tinha um título que para mim foi uma espécie de epifania. O título do artigo era ‘Sink or Swim’. Percebi que o momento que estávamos a viver e que continuamos a viver é um momento em que cada um de nós tem que escolher o que pretende fazer e só há duas portas de saída. Uma é afundar e a outra é nadar. Se escolher a porta afundar – que ninguém escolhe conscientemente – o resultado é imediato. Se escolhermos nadar, é uma alternativa que tem que ser escolhida sem direito a perguntas. Ou seja, não podemos dizer ‘Sim, sim, ok, vou nadar... mas quanto tempo? Qual é a distância? A água é fria ou quente? Tem tubarões ou não? Em que direção?’. Não há direito a perguntas. É nadar na esperança de que não nos falte o fôlego no momento em que toquemos terra. E foi isso que começámos a fazer. Fizemos uma reunião ao ar livre, de máscara, no jardim do Estúdio 33 e eu convidei todos os membros da equipa, que somos nove, a pensar em ideias em que o disparate era permitido, o absurdo devia ser contemplado. Ideias que nos permitissem sobreviver caso esta coisa da pandemia durasse dois anos que era, na minha ótica, a melhor maneira de resolver um problema: ou torná-lo maior ou torná-lo definitivo. Se acharmos que um qualquer problema que tenhamos num determinado momento é passageiro, pensamos que pode ser que passe e a seguir já foi. Aqui a atitude foi: ‘Não, não vamos cair na tentação do esperar que passe, vamos imaginar que ele é muito maior do que aquilo que pensávamos naquela altura que era. Imaginamos: se isto se mantiver durante dois anos, o que fazemos? Surgiram ideias absurdas, como é evidente, mas surgiram ideias interessantes que só surgiram porque nós nos colocámos nessa situação extrema. Implementámos a ideia do drive in em que pegámos no conceito do cinema ao ar livre e o convertemos numa sala de espetáculos ao ar livre e que teve uma aceitação extraordinária que não foi – pela dimensão do nosso espaço e pelo momento que se estava a viver – a grande prancha de salvação económica mas foi uma prancha de salvação mental. Conseguimos manter a nossa sanidade mental porque acabámos por nos rever nessa capacidade que tivemos naquele momento de reinvenção, de resiliência. Foi uma experiência pessoal altamente enriquecedora também para os artistas que por cá passaram. Recordo-me que, no final da noite, o Marco Horácio, que esteve cá com o seu espetáculo Rouxinol Faduncho, dizia emocionado que para viver o que viveu naquela noite aqui já tinha valido a pena estar quatro meses confinado. Porque havia um jejum brutal que separava artistas e público durante quatro meses. Longe estávamos nós de imaginar que esse jejum se ia prolongar e estar presente nas nossas vidas durante tanto tempo.

Fala em nadar ou afundar. Mas era suposto voar nessa altura.

Fiquei o mais possível em terra e rodeado de água.

Tinha um contrato com a TAP.

Sim. Nós estávamos a trabalhar desde janeiro para desenhar e produzir o espetáculo de celebração dos 75 anos da TAP. Um conceito que nós fomos desafiados a apresentar e teve a anuência da administração, de todos os setores envolvidos. Era altamente desafiante em termos técnicos e mágicos. Íamos utilizar um motor de avião, fomos buscar ao aeroporto, escolhemos, passámos tempo a interagir com os técnicos da TAP aos quais eu ia fazendo perguntas absurdas – saber se isto se pode dobrar, se isto se pode cortar, se isto se pode esticar, coisas que eles olhavam para mim com ar de ponto de interrogação porque nunca ninguém tinha perguntado se aquilo era possível fazer com um motor porque o meu propósito não era voar com o motor mas usá-lo noutra circunstância. Até que, depois de três meses a trabalhar, dá-se o início da pandemia, foi começar a ver um chorrilho de emails que começavam todos com “em função do período que estamos a viver...” e a seguir era a palavra adiar, cancelar. Enfim, todas as várias declinações que passaram por, simplesmente, colocar uma pausa abrupta a este coletivo que precisamente neste ano celebra 25 anos juntos. É interessante perceber este microssistema porque eu sou apenas a face visível de uma equipa que trabalha diariamente para que o cromo Luís de Matos possa ter um novo espetáculo, um novo programa de televisão, ter uma nova ilusão, ter uma nova participação. A equipa – a família, como eu gosto de lhe chamar – Luís de Matos Produções, é uma família que primeiro não é uma companhia subsidiada pelo Estado, nunca recebemos nenhum subsídio do Estado mas também nunca o pedimos, e fomos sempre procurando reinventar-nos por forma a criarmos o nosso próprio segmento de negócio, o nosso segmento de gestão.

Não tem agente?

Não. Fazemos tudo in house. Trabalhamos com agentes, com empresas de produção de eventos, com produtores internacionais mas que nos contactam diretamente. Ou seja, temos parceiros mas fomos sempre um bocadinho donos – para o bem e para o mal – do nosso tempo, da nossa criatividade e da forma como reagimos a cada desafio. E isso permite, hoje em dia, ter uma máquina que quando temos o desafio da TAP em janeiro, de criar o espetáculo dos 75 anos na TAP, conseguimos internamente fazer uma proposta nesse sentido e concretizá-la.

Tem eletricistas, tem tudo? Não há nada a que recorra fora?

Tenho tudo aqui. Pontualmente se preciso de uma peça de marcenaria ou de uma peça de serralharia de alta precisão, com certeza que sim. Mas também aí temos pessoas que trabalham connosco habitualmente.

Como chega à conclusão que pode colocar 20 pessoas a sair do motor

do avião?

Partimos do absurdo e do impossível. Ou seja, olho para o desafio que é: primeiro, celebrar 75 anos de TAP. Há uma família de palavras que nasce imediatamente. É diferente de ser uma empresa que começou há cinco anos. É aviação, são aviões. O coração do avião é o motor. A seguir fazemos uma visita técnica aos hangares da TAP para perceber qual é aquele mundo. A seguir surge a ideia. A ideia é posta à consignação sem sabermos se somos capazes de a concretizar ou não. Nós nunca trabalhamos na área de conforto. Dizemos sempre que achamos que é possível e vendemos essa ideia ao cliente em termos de proposta. A partir do momento em que o cliente acha que essa é uma boa ideia, adjudica-nos essa proposta ou pede uma proposta mais sustentada e a seguir passamos ao trabalho da construção da ilusão propriamente dita. Ou seja, nós somos uma equipa polivalente que não é especializada em nenhuma área específica mas que conhece o suficiente do que a jusante e a montante está disponível ao mundo do espetáculo para criar aquilo que nos dá mais prazer e que define um bocadinho a nossa atividade, que é criar em cima do palco impossibilidades. Criar coisas que são, de facto, impossíveis de acontecer mas que estão a acontecer dentro dos olhos das pessoas. Se fosse possível fazê-las não tinha interesse nenhum ser eu a apresentá-las. O que torna interessante aquilo que nós fazemos em cima do palco é precisamente o materializar aquilo que são impossibilidade aceites por todos. É impossível fazer aparecer pessoas dentro de um motor.

Para ter essas ideias recorre à biblioteca que tem aqui no Estúdio 33?

Sim, o mais possível. A biblioteca tem cinco mil e tal livros, em todas as línguas, desde o século XVI até à contemporaneidade.

Século XVI? Onde encontrou esse livro?

É um livro que curiosamente comprei na Suécia, num alfarrabista. É um livro que está em latim e é, obviamente, a joia da coroa. Acima de tudo é uma biblioteca de trabalho, sempre fui fascinado por livros.

Mas lê latim?

Não. Obviamente que há livros que não sei o que têm escrito. Vejo pelas imagens porque ou são matérias que estão cobertas em livros do mesmo período e, portanto, eu percebo que naquele caso é sobre esta temática porque reconheço o tema ou então não porque não leio latim. Leio espanhol, inglês, francês e português e já é bom. É uma biblioteca de trabalho porque acho que o facto de ser uma área tão hermética, em que os segredos ao longo dos tempos foram sempre tão guardados, faz com que a evolução seja mais lenta e muitos mágicos acabem por estar constantemente a reinventar a roda porque não sabem que, no século XVIII já houve um mágico que criou esta ilusão.

Fala muito com cientistas quando faz algum espetáculo? Diz isso no seu livro.

Sim. Muito especificamente houve um trabalho que fiz em 2009 que foi pegar numa área que nunca foi abordada – na minha opinião – de forma séria mas que, na nossa biblioteca, encontro este assunto abordado de forma estilhaçada. Aqui fala-se disto, ali fala-se daquilo e durante sete anos eu dediquei um bocadinho essa pesquisa que foi pegar naquilo que são conhecidos como os human body stands que são os superfit, as coisas que ao longo da história humanos foram fazendo e isto levou a uma admiração por, supostamente, eles terem uma capacidade extra humana. Exemplos: caminhar sobre o fogo, ser congelado vivo, caminhar sobre vidro partido, rasgar uma lista telefónica com as mãos, partir uma garrafa com a mão, dobrar metal ou partir flechas com o pescoço... isso são tudo coisas que eu fui encontrando de forma estilhaçada em livros. Começamos a fazer uma pesquisa nesse sentido, a tentar perceber como é que aquilo era possível. Como sou naturalmente cético, o meu recurso é ir à ciência perceber porque é que aquilo funciona. E, enfim, porque vivo em Coimbra e porque estudei na área das ciências também, mas sobretudo porque tenho amigos em determinados setores a quem faço perguntas. Porque é que isto funciona? Ou têm a informação toda ou têm informação parcial que me permite construir o puzzle para perceber como é que funciona.

As pessoas conseguem andar em brasas vivas?

Conseguem. E há uma explicação científica para isso. Neste trabalho, o que nós fizemos foi: primeiro mostrar-me a fazer aquilo, a andar sobre brasas vivas, em contexto de espetáculo ou em contexto de programa de televisão. Refiro-me também aos outros contextos em que isto é apresentado, desde os mais esotéricos aos mais motivacionais. Para mim era importante, dada a minha natureza cética. Não, eu não acredito que seja por inspiração divina. Não, eu não acredito que seja por motivação. Não, eu não acredito que seja por qualquer outro motivo esotérico ou porque eu tenha poderes extra sensoriais. Agora, se há outros indivíduos da condição humana que fazem aquilo, eu tenho de perceber porque é que é possível, já que eu descarto à partida uma supremacia de qualquer tipo de poder ou de se estar imbuído de qualquer tipo de energia. E por isso fui à procura: é assim que faço com tudo, sejam princípios da física, da química, da ótica ou da medicina. E isso ajuda-nos a conhecermos também alguns limites e às vezes a deparar-me com curiosidades. Aliás, os primeiros livros de magia que estão na biblioteca, alguns são franceses e o título é Le Curiosité Scientifique et Mathématique. Porquê? Porque existem curiosidades e a magia sempre teve essa sorte que foi existirem cientistas, pensadores, atores, realizadores que sendo muito bons na sua área tinham como hobbie a magia. O que é que isto criou? Um fluxo de conhecimentos dessas áreas para o nosso meio que permite que nós utilizemos essas técnicas, ou essa informação, descontextualizada. Descontextualizamos esses princípios ou essas técnicas e, quando veiculadas em conteúdo de espetáculo, não só reconhecidas por parte do público como estão obviamente vestidas pela ilusão de fazer voar, de adivinhar o futuro, de dobrar uma barra de metal, de saber o que se está a pensar, de coisas desse género.

Ao longo da História há várias figuras que estão ligadas à magia e que ninguém diria. Churchill, Orson Welles, Goethe, Hitler...

Diz-se que quando a tecnologia é verdadeiramente surpreendente que ela se aproxima do momento mágico. No caso dos cientistas há um ponto de contacto que é o modus operandi, o lado cético de tentar perceber como é que isto funciona, como é que as células se reproduzem, como é que os espelhos refletem, como é que a luz reflete neste tipo de pigmento... Este lado cético é simultaneamente um lado fascinante quando percebemos que este mesmo princípio dá para criar esta ou aquela ilusão. E isto é um fascínio que a comunidade mágica teve sempre a sorte que fosse um fascínio sentido por grandes profissionais de outras áreas. Porque é que no Goethe Museum há uma parte dedicada à magia? Porque o Goethe era fascinado por magia e oferecia kits de magia e praticava magia, muito especialmente junto do seu sobrinho, mas junto dos seus amigos também. Porque é que os mágicos alemães, como o Hanussen ou o Kalanag, tiveram carreiras fulgurantes no tempo do Hitler? Porque o Hitler tinha um fascínio quase inexplicável pelo esotérico – ainda há dias falámos disso no lançamento do livro Zé Rodrigues dos Santos, com o qual eu estou um bocadinho envolvido porque no último programa de televisão que fiz, no último episódio convidei um dos poucos sobreviventes de Auschwitz – na altura com 93 anos – a vir dos Estados Unidos cá porque era mágico e nesse programa, por curiosidade, tinha convidado também o José Rodrigues dos Santos. No final do direto, passámos pela biblioteca, o Zé e eu estivemos a falar durante algum tempo e eu disse: “Zé, o teu próximo romance podia ser baseado na história do Werner”. Ele sorriu. No dia seguinte, 8h da manhã, tenho uma mensagem do Zé a perguntar se o Werner ainda cá estava. Estava. Começou aí o contacto deles e daí nasce o novo romance. Ele é muito generoso no livro a contar este episódio.

A propósito da Segunda Guerra Mundial. É um mágico...

É verdade, o Maskelyn, que era consultor do Estado britânico, criou uma ilusão no sentido de dar a sensação ao inimigo de que o poderio, o arsenal britânico era muito maior do que realmente era. Então houve duas técnicas utilizadas. Uma foi construir aldeias de cartão falsas, em que havias luzes. Vistas do céu, pareciam aldeias cheias de pessoas. Eram obviamente bombardeadas. Porque as aldeias onde, de facto, estavam pessoas, estavam com as luzes apagadas. Isto é claramente uma ilusão, que foi pensada pelo Maskelyn, para ludibriar e iludir o inimigo. Ele foi mais longe: construiu modelos à escala real em cartão de tanques, bazucas, aviões que, visto de cima... eram áreas que intimidavam o inimigo.

Como mágico, o que está a pensar fazer para dar a volta à covid-19?

Há duas atitudes que nós podemos ter na vida: eu escolhi ser feliz porque acho que as pessoas escolhem ser infelizes ou ser felizes. As pessoas que escolhem ser infelizes são aquelas que permanentemente dizem mal da vida, queixam-se do trânsito, queixam-se disto ou daquilo. Isso é um exercício fácil de fazer. Qualquer de nós pode fazer uma lista de lamúrias pelas quais devemos estar tristes e aborrecidos. Mas o mesmo exercício pode ser feito – é a velha metáfora do copo meio cheio e meio vazio – para percebermos que primeiro estamos vivos. Há quem hoje já não possa dizer isso e ontem dizia-o. Estamos vivos. Viver é um privilégio inacreditável porque há uma coisa chamada livre arbítrio e há uma coisa chamada inteligência emocional e há uma coisa chamada instinto de sobrevivência que nos faz ter uma enorme capacidade – mais do que aquela que nós achamos que temos – para reagir ao desconhecido e à adversidade.

E na prática?

Pela primeira vez na vida senti-me sem chão e pensei: ‘O que posso fazer?’. E é o que temos estado a fazer. Nem tudo têm sido tiros certeiros. Uns têm tido mais êxito numa área e outros têm tido mais êxito noutra. Exemplos: enquanto reação fizemos a criação do conceito Estúdio 33 Drive in, um espetáculo completamente novo chamado Luís de Matos Zoom e que nós fizemos no âmbito de empresas ou em workshops ou em espetáculos puros e duros em que as pessoas, através da plataforma zoom – previamente mandávamos um conjunto de elementos para as pessoas poderem viver a magia nas suas mãos e fazíamos a magia através do ecrã. Estamos a trabalhar numa série onde levamos isto ao extremos com figuras conhecidas do público das mais variadas áreas, da música, YouTube, escrita ou cozinha... estamos a criar ilusões que nunca criámos na vida – ilusões que acontecem à distância em que a pessoa está do outro lado do ecrã. A cultura é o que nos pode salvar, a superação é o que nos pode salvar.

Se não tivesse um pé de meia, já tinha fechado o Estúdio 33?

É um pé de meia muito relativo. Até hoje fomos sempre reinvestindo tudo aquilo que fomos faturando. Mas temos, de facto, feito coisas que nos têm permitido, apesar de tudo, pagar ordenados, eletricidade. São todas estas coisas juntas: é o Drive in, o Luís de Matos Zoom, os festivais de magia que conseguimos fazer debaixo de regras apertadíssimas e que temos que nos reinventar, o espetáculo #Conectados, que vamos fazer, estreámo-lo já em setembro em Espanha. Este grito do Ipiranga de dizer: “Não, eu não posso trabalhar para uma plateia que só tem metade das pessoas”. Estou habituado a trabalhar para salas esgotadas, para pessoas que tiram partido deste ambiente. Criámos no final de agosto e estreámos em setembro em Espanha, em plena pandemia, em Zamora, duas apresentações em que foi muito difícil porque isto obriga a um próprio repensar da plataforma de venda de bilhetes: a quem comprar um bilhete físico, oferecemos um bilhete virtual. Mas conseguimos e percebemos que era um caminho possível. Por percebermos que era um caminho possível projetámos esta temporada em Lisboa, Coimbra e Porto.

O que é essa inovação do Zoom?

Acho que a grande solução é o respeito mútuo e a noção de que vivemos conectados em comunidade. O que é completamente diferente da espiral de destruição em que vínhamos até à covid-19. Até essa altura o pensamento dizia-nos que era tudo sobre a autodeterminação, tudo sobre a individualidade, tudo sobre a minha liberdade, o meu direito, a minha escolha. Nós vínhamos, nas últimas décadas, galopantemente, de forma descontrolada, a criar ilusão que era tudo sobre cada um de nós. Daí estas palavras de independência, autodeterminação, individualidade... E de repente chega a covid e diz: “Esqueçam lá isso de que cada um de vocês é um mundo”. A gente só combate isto se estivermos todos juntos. Vem-nos dar esta noção de que o que caracteriza a raça humana é a cultura numa acessão plural de conceito. E aqui está a tradição, a história, o conhecimento científico, as práticas sociais, tudo. A cultura é a única coisa que nos distingue e nos pode salvar. E é uma cultura que tem, nos seus vários ramos, essa noção de que estamos verdadeiramente conectados para o bem e para o mal. E isso pode fazer-nos ultrapassar isto. Estamos conectados porque nos contagiamos se nos tocarmos ou se não usarmos máscaras e não desinfetarmos as mãos; estamos conectados porque a perda de um indivíduo no nosso círculo familiar ou social nos afeta enormemente e de forma irreversível; e estamos profundamente conectados porque questionamos, finalmente, este individualismo que vínhamos cultivando que cada ser humano é um mundo em si próprio. Este espetáculo é uma resposta a esse pensamento. Daí chamar-se #Conectados, precisamente porque é um símbolo do tempo. Se fosse feito há 20 anos, o sinal cardinal antes da palavra não tinha qualquer significado. Hoje significa precisamente essa conexão. É #Conectados porque a magia é um veículo de partilha de emoções a experimentar o impossível, o maravilhoso, o inexplicável. Somos todos iguais, não importa se tens 90 anos ou se tens 9. Não importa se és muito culto, se és conselheiro do Presidente da República ou se és sem-abrigo a viver nas ruas de Coimbra. Aqui o common ground onde nós nos encontramos é que arregalaremos o olho e ficaremos surpreendidos de igual modo independentemente da nossa idade, condição, sexo, estrato socio cultural perante essa manifestação. É um excelente fator de galvanização, um mundo maravilhoso de magia a acontecer em cima do palco. Depois, se ela pudesse extravasar o palco, como desde sempre faço, e fazer sentir-se na plateia, então estamos a ir um bocadinho mais além. O que é que a covid traz? Metade dos espetadores na sala, distanciamento, não se pode tocar, não posso dar um baralho para ser baralhado, não posso dar uma caixa para ser examinada, não posso pedir ao espetador que assine um papel... Isto já traz veículos, uma contrição muito grande, mas eu procuro vê-los como desafios. Se não puder recorrer a esta prova porque a carta está assinada, como é que faço? Isto é ótimo. É a minha perspetiva positiva da situação trágica que estamos a viver. E se levássemos isto mais longe? Toda a gente tem conta zoom hoje em dia e, se calhar, sei de pessoas que vão assistir aos meus espetáculos e que convidam a família, por exemplo, porque da primeira vez gostaram. Então eu pego nesse exemplo do mundo de ontem e digo “ok, compro um bilhete para estar presencialmente” e é-lhe oferecido um para dar ao colega de trabalho, à família, ao pai que está confinado... Não queria que este espetáculo fosse emitido em live streaming porque não acredito no formato. Ou porque não gosto dele. Pode ser maravilhoso mas a mim não me diz nada. Então, o que fizemos foi começar a esticar as possibilidades. Ainda ontem à uma da manhã estava a falar com um técnico do zoom nos Estados Unidos porque o que nós pedimos ninguém pediu até agora. Estamos a esticar a corda para ver o que é possível fazer com o zoom. Neste momento estamos preparados para ter mil famílias em qualquer parte do mundo a participar em cima do palco, cada um com o seu ecrã específico, onde eu posso falar com cada uma delas, onde quem está na plateia pode reconhecer a família que convidou para ir assistir e repare... isto faz com que a magia aconteça no palco, na plateia e em casa das pessoas mas faz uma coisa mais espetacular: a experiência é muito mais comunal e é ainda mais símbolo de conectividade e essa coisa que eu acredito que nos pode salvar que é o estarmos juntos e a sensação de sociedade e comunidade.

Como é feita essa conexão?

Quando fizemos em Espanha não sabíamos se aquilo ia ser um êxito se ia ser uma experiência que jamais iríamos repetir. Como é que isto funciona? Quem comprar um bilhete na ticketline é convidado a dar-nos o email da família que quer convidar. Essa família é contactada e fazemos saber que devem ter um pequeno conjunto de objetos, de práticas que deverá seguir num momento em que, a partir de casa, estiver a acompanhar o espetáculo. Essas coisas podem ser um copo, um baralho de cartas, um metro de fio e uma tesoura, por exemplo. E a pessoa inscreve-se num link gerado para aquela pessoa com aquele endereço de email, intransmissível, completamente pessoal mas que pode ser partilhado por todo o agregado familiar e que vai ter todos aqueles objetos. No teatro, na sala, como é prática nos meus espetáculos desde os princípios dos anos 2000, as pessoas sempre que chegam a um espetáculo encontram cenas na cadeira. Ou um envelope, ou uma caixinha, ou um baralho de cartas... desta vez vai ser um saquinho de plástico, devidamente desinfetado, com um conjunto de objetos que fazem pandã com os das pessoas que estão em casa. E vão existir momentos do espetáculo em que há espetadores, como sempre, que participam em ilusões. Neste caso, vamos fazer perguntas e deixar que os espetadores que estão em casa e que estão na plateia, indiferentemente, decidam coisas que acontecem no espetáculo. E que eu possa criar a ilusão de que previ que eles iam dizer aquilo, ou que eles dizem uma coisa qualquer e que está uma caixa no palco que tem exatamente o objeto que eles acabaram de dizer... Noutra das experiências aquilo que as pessoas vão sentir no sofá de suas casas é exatamente aquilo que vão sentir na cadeira do teatro, precisamente porque vão usar o mesmo objeto e eu, à distância, vou criar essa impossibilidade nas mãos das pessoas. Ou uma coisa que estamos a trabalhar, que ainda não está completamente resolvida ainda mas estamos muito perto: vamos fazer um truque de cartas em que todas as pessoas – seja as que estão na assistência ou em casa – vão escolher uma carta e eu vou adivinhar qual é essa carta, em condições impossíveis. Este espetáculo tem uma outra característica que faz com que estejamos tão orgulhos dele. É o nosso melhor espetáculo de sempre porque eu não conseguia tê-lo feito há 10 anos. Tudo o que este espetáculo vai ser é claramente uma fotografia da equipa Luís de Matos no ano de 2020. Ele surge numa altura que é terrível mas que trouxe coisas boas.

E que coisas boas é que trouxe?

Estivemos mais tempo no estúdio, andámos menos em digressão – aliás, não andámos –, passámos mais tempo juntos, criámos mais juntos, consertámos mais juntos, sonhámos mais juntos. Acho que o Luís de Matos #Conectados é, precisamente, se quisermos, um hino ou um grito deste coletivo. No ano em que celebra 25 anos, é um grito à reinvenção, à capacidade de sonhar e ao não baixar os braços e dizer “Ok, quais são as regras? O que é que podemos fazer?” e em função do que podemos fazer, vamos fazer o máximo. Mas é o que sempre fizemos. Nunca pedi a ninguém que trabalha comigo que fosse o melhor do mundo mas sempre pedi que fosse o melhor de si mesmo. Ou seja, se algum de nós – a começar por mim – não conseguir fazer certa coisa, eu não fico triste ou frustrado com isso. O que peço sempre é que façamos o melhor que pudermos com aquilo que temos.

O Estúdio 33 sempre foi um laboratório por onde passaram quase todos os nomes grandes da magia, alguns até ficaram aqui hospedados. Quando começou esse intercâmbio?

Começa em 2002, quando tenho a ideia de fazer o Estúdio 33, que era um teto para a equipa que estava um bocado fragmentada por várias instalações – escritórios, oficina e armazém. Foi desenhado à medida e para que tenhamos as condições para fazer aquilo que gostamos de fazer. Obviamente que não é vulgar haver equipamentos destes. Eu, pessoalmente, não conheço outro. Ao longo da minha carreira, e desde princípios dos anos 90 que tenho uma relação próxima – para grande sorte minha – com grandes nomes da magia internacional. Sempre fui uma pessoa dada a relações pessoais e sim, sou amigo pessoal de muitos desses nomes com a possibilidade de os visitar regularmente e de ser visitado. A partir do momento em que há um espaço em que podemos ter um palco, onde temos uma biblioteca, onde temos uma coisa que chamamos pomposamente de Matos Hotel, onde temos todas as condições que são sonhadas por qualquer um... Eu sonhei-as para mim e admito que esse sonho seja semelhante a outros colegas meus, sempre disse desde o princípio que só faz sentido se ficar ao serviço daqueles de quem eu gosto e admiro. Por isso, todos os meus amigos de quem eu gosto e admiro têm sempre as portas abertas do Estúdio 33. E têm-nas usado. Primeiro usaram a título pessoal e privado porque vêm para cá trabalhar em números, editar música, passar férias, porque nos reunimos a debater e a trabalhar sobre o número de um e ajudar... quase como uma residência artística, por um lado. Por outro, houve outra ideia maluca, fruto desses convívios que tive, que foi, em 2009, fazer um congresso de magia. E aí nasce uma coisa à frente do seu tempo, que foi uma coisa chamada Essencial Magic Conference e aí sim, reuni durante três anos, em que cada ano, os 33 maiores mágicos do mundo, na minha opinião, estavam aqui presentes e partilhavam segredos, técnicas, formas de pensar, testar, criar, com o mundo inteiro através de uma plataforma que foi desenhada de raiz também em que há uma mesa onde estão os 32 dos maiores e há um que está a falar, executar ou explicar. Mas os outros 32 estão no chat a falar. Chegámos aos 2500 inscritos de 74 países do mundo no último ano. Este conceito foi muito positivo para as novas gerações porque as novas gerações não vão aos congressos de magia, veem na internet. E se na internet não houver informação de qualidade, a classe degrada-se. Então a nossa ideia foi, já que a nova geração não vem aos congressos, vão os mestres aos sítios onde a nova geração está. Foi tão groundbreaking, há tanto um antes e um depois da Essencial Magic Conference, que lá em cima [no primeiro andar do Estúdio] está uma placa da Academia de Artes Mágicas de Hollywood que diz exatamente isso. Foi entregue a mim, ao David Britland e ao Marco Tempest, fomos os três que colaborámos mais nisto, em que diz claramente que aquilo que representou para a história da magia fazer-se aqui o Essencial Magic Conference foi verdadeiramente transformador.

E que nomes estiveram cá?

Na Essential Magic Conference tivemos Paul Daniels, David Copperfield, David Blaine, Cyril Takayama, Lu Chen, René Lavand... isto para falar de nomes que são conhecidos do público em geral. E depois há todo um outro conjunto de nomes que, para nós, são tão ou mais importantes, mas que não são conhecidos do público em geral.

Em relação aos espetáculos que fez
em 2018 e 2019, como foi lidar com tantos egos?

É impensável, como era, para mim, há 20 anos, de repente, veres-te seis meses sem vir a casa, seis meses em que vês constantemente as mesmas 80 ou 100 pessoas, em que o ritmo é sempre igual. Segunda-feira, viajar de uma cidade para outra e fazer check-in num hotel. Terça e quartas-feiras preparar o teatro. Quinta-feira, um espetáculo. Sexta, dois. Sábado, três. Domingo, três espetáculos e desmontagem do palco. Segunda, voltar a viajar... E isto durante seis meses. É evidente que existem altos e baixos no relacionamento, mas as pessoas que estão nesta vida estão porque são fascinadas por ela. Isto é completamente fora da caixa. Já não são pessoas, com o devido respeito e admiração, muito normais... São pessoas que estão habituadas a andar com a trouxa às costas, a ter uma abertura de espírito inacreditável, porque, um dia, está em Berlim e, noutro, em São Petersburgo, depois em Roma e Amesterdão, e uma semana depois no Dubai e em Abu Dabhi.

É comum alguém magoar-se durante esses espetáculos?

É, é comum. Primeiro, viajamos com um médico, que pode dar assistência a um primeiro problema. Ou porque há ilusões mais arriscadas ou porque, muitas das vezes, basta um pano ficar um pano mais baixo, e isso é suficiente para um bailarino tropeçar, uma caixa não andar... e acidentes acontecem. Nunca vivi de perto nenhum grande acidente, mas é comum em vez de termos dez bailarinos no palco termos só nove porque há um que está em fisioterapia.

Vocês sabem os truques uns dos outros?

Sim. Todas as pessoas envolvidas têm de saber. Como é evidente, toda a minha equipa sabe. Aliás, eles sabem mais do que eu. Mas, por exemplo, ainda na semana passada esteve aqui sentada toda a equipa do Teatro Tivoli a perceber exatamente o que vai ser este espetáculo, quais as necessidades técnicas...

Toda a equipa?

Eram sete pessoas, desde o diretor técnico, ao diretor de cena, à pessoa que gere a sala, a pessoa que mexe as varas, que sobem e descem, enfim, estiveram aqui todo o dia.

Mas toda a gente envolvida sabe os truques?

Toda a gente tem de saber. É óbvio que o técnico de luz tem de saber como é a ilusão, para fazer a iluminação de acordo a esconder aquele segredo e potenciar a ilusão. É importante que o cenógrafo disponha do cenário para potenciar a ilusão de se concretizar. É importante que o realizadores e os câmaras a conheçam para saber que ângulos dar. Mas é muito importante que a empresa de limpeza saiba, porque, imagine, o diretor diz: “Muito bem, vamos limpar o placo para começar”. E se a equipa de limpeza não souber que há ali um alçapão, um espelho ou um fio invisível, não só se pode aleijar como destruir o truque, pode destruir a ilusão.

E essas pessoas não ficam desiludidas quando sabem os segredos?

Claro que sim. Aliás, internamente há membros da minha equipa que me pedem: “Ok, mas não me digas como é que este é feito”. Mas chega o momento em que têm de saber, porque vai competir a essa pessoa fazer o que quer que seja. Mas eu tento sempre primeiro que confrontá-los com a ilusão, fazendo ou descrevendo, para estimular o modus operandi ou como é possível fazer, e só depois dizer “este é o sistema, como podemos fazer melhor a partir de agora?”. Mas sim, inicialmente é uma desilusão e depois passa-se para uma fase que, poeticamente, gostava que o público também passasse. Eu adorava que o público soubesse, porque existem muitas ilusões...

Mas assim deixava de ser mágico?

Não. Por exemplo, o facto de eu saber como funciona um piano de cauda, que é uma caixa onde ressoam de forma magnífica teclas, martelos e cordas não faz com que não admire o Pedro Burmester quando o ouço a tocar piano. E o que eu acho que às vezes aconteceria, é que se as pessoas soubessem como funcionam alguns truques teriam ainda muito mais admiração pelo meu trabalho do que verem que eu, simplesmente, estalo os dedos e aparece um carro. E eu aponto para ali, e voa uma bailarina... Isto é surpreendente, mas, em muitos casos, o engenho, a criatividade, o conjunto de técnicas ou de talento, na apresentação ou execução, fica todo metido num saco que é: tu bates palmas porque não sabes como é que eu fiz. Isto acaba por ser um bocado redutor – quase que dá vergonha pedir palmas apenas porque temos um pedaço de informação que as outras pessoas não têm. Portanto, eu acho que se as pessoas tivessem mais conhecimentos, se a magia não fosse tão hermética, acho que era positivo.

Vai estar em palco em Lisboa. Como vai ser se as regras do confinamento apertarem?

Estreamos dia 18 e fazemos quintas, sextas e sábados, dia de Natal, dia de Ano Novo. Temos três semanas em Lisboa e com a possibilidade de fazermos espetáculos extras. Nós, neste momento, temos o plano A e B. O plano A é o que está, neste momento, disponível na ticketline. Obviamente, que, na dúvida, não sabemos se as medidas se mantêm, se agravam ou se aliviam. Tudo depende dos resultados e da forma como eles são interpretados pelos nossos governantes. E estamos preparados para deslocalizar os espetáculos em termos de horários, e ao invés de fazermos às 21h30 ou 20h30 fazemos mais cedo. E obviamente que protegeremos sempre o dinheiro, o investimento das pessoas que tiveram a generosidade de comprar bilhete, e caso os horários mudem de hora e dia as pessoas terão sempre a oportunidade de reagendar ou de reaver o seu dinheiro.

Foi bastante duro na manifestação que envolveu agentes da cultura.

Fui pragmático e fui desassombrado. Tentei não embarcar em dizer chavões, e que esses chavões sirvam para manter uma aparente luta ou ser politicamente correto ou criticar sem mostrar alternativas. Resumi aquilo de uma forma pragmática e direta: nós não precisamos que o Governo nos dê falsas medidas ou soluções. Eu não preciso que o Governo me diga que uma forma de apoio às micro, pequenas e médias empresas é “criámos um linha de crédito”. Isto é, acima de tudo, patético, porque todos sabemos que se precisarmos de dinheiro podemos ir bater à porta do banco. Portanto, dizer que isto é um medida de combate à covid-19 é mau, é desinteligente. Uma outra medida desinteligente é dizer que “a Cultura é segura, mas ao fim de semana façam espetáculos às 10h da manhã”. Não, a Cultura é segura e até agora não existiu nenhuma linha de contágio que se tenha iniciado num espetáculo. Ao final de nove meses, podemos continuar a dizer que a Cultura é segura. Agora, por favor, dizer que podemos fazer espetáculos às 10h da manhã é a mesma coisa que dizermos que os restaurantes podem servir jantar até ao meio-dia ou que as pessoas podem ir para a praia apanhar sol das 3h às 5h da manhã. Não faz sentido nenhum, e é isso que eu critico. E soluções? Na altura disse : “Queridos colegas, do espetáculo e da cultura, nós não podemos só criticar. Nós temos de dizer ao Governo, então como pode o Governo ajudar?”. Pode congelar os pagamentos ao Estado. E porque é que isto faz sentido? No Estado em que nós vivemos pagamos TSU, Segurança Social e impostos. Cada português dá ao Estado cerca de cinco a seis ordenados por ano. O Estado pega nesse dinheiro e faz estradas, escolas, Serviço Nacional de Saúde, Administração Pública, Segurança... todas essas coisas que a gente sabe, e muito bem, é um excelente modelo, não tenho nada contra. No fundo, é a família que diz: vamos poupar para a festa de curso do nosso filho ou para o casamento da filha ou para as férias do próximo ano. Então arranjamos um mealheiro e todas as semanas pomos lá 20 euros e passados três anos temos dinheiro para ir de férias. É o que fazemos com o Estado. Estamos a pôr dinheiro no mealheiro, para quê? Para o Estado gerir as coisas que usamos, mas também para quando formos velhinhos ele partir o mealheiro e dar-nos o dinheiro para a gente viver. Mas, numa altura em que famílias não têm dinheiro para comer, não lhes passa pela cabeça continuar a pôr os 20 euros no mealheiro para as férias daqui a três anos, pois não? Então, senhores governantes, não nos digam para pôr dinheiro no mealheiro. Congelem-se os pagamentos ao Estado, porque dos cinco ou seis meses de ordenados que damos ao Estado todos os anos – e muito bem, repito –, ao invés de darmos este ano cinco ou seis damos três ou quatro, e para o ano damos mais. Mas congelem. Por que é assim, eu pago TSU e Segurança Social dos ordenados que continuo a pagar, e os IRC e os pagamentos por conta de um dinheiro que não faturei? Eu não invento o dinheiro, então se eu não faturo...? E quem tem frotas de camiões de transporte de passageiros e de material do mundo dos espetáculos, e dos outros mundos, seguramente, por que tem de estar a pagar o imposto automóvel se o carro está parado?

 

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