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Luís Newton 03/12/2020
Luís Newton

opiniao@ionline.pt

Vamos cumprir Portugal

O primeiro país a construir a globalização não pode transformar-se num espetador da sua própria agonia.

Em momentos de grande crise, a humildade deve ser o maior dos sentimentos.

Sobretudo quando somos confrontados com desafios que não compreendemos na totalidade, em que muito do que era essencial passa a supérfluo e nos vemos a ter de depositar confiança em especialistas que não conhecemos, mas que acreditamos entenderem do assunto.

Numa pandemia de características inicialmente desconhecidas, quem fazia as regras beneficiou da nossa tolerância e solidariedade.

Em bom rigor, é impossível invejar a posição de quem se vê confrontado com o impensável, e não procurei fazer julgamentos antecipados.

Porém, o período de tolerância já há muito que chegou ao fim e é inegável um enorme sentimento de desilusão que tornou estas últimas semanas de combate à pandemia particularmente frustrantes.

Não uso a expressão “últimas semanas” por acaso. É que, desde que tivemos as extraordinárias notícias dos resultados dos testes de várias vacinas, conseguimos efetivamente imaginar um prazo de validade para esta pandemia.

E como temos esse sinal de esperança, é essencial mantermos o foco e a convicção de que vale a pena, de que os sacrifícios que enfrentaremos ganham sentido, porque já não são feitos só na esperança de que isto se vai resolver, mas com a certeza de que isto se vai resolver.

Porém, não podemos apenas esperar o fim da pandemia para regressar “àquela normalidade” que aqui nos trouxe.

Em 1982, Jorge Palma escreveu “Ai, Portugal, Portugal/ De que é que tu estás à espera?/ (...) Enquanto ficares à espera/ Ninguém te pode ajudar”.

Infelizmente, 38 anos depois, esta letra continua atual. Ainda mais frustrante é sentir que passados mais de 45 anos sobre a revolução que nos trouxe a democracia, Portugal continua dependente de ajuda externa, tanto para o dia-a-dia como para momentos de crise.

Somos, e seremos sempre, uma democracia. Com o que isso tem de bom e de mau. Porque não há bons ou maus portugueses, não há melhores ou piores portugueses. Há só portugueses. E são gente boa.

E, nas nossas diferenças, na moderação ou no extremismo, temos de recordar que, em crise, o mais importante é o bem-estar das nossas famílias.

E em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

Por isso, é tempo de mostrarmos que esta crise, mais do que o seu potencial para a destruição, poderá ser o marco para a nossa superação.

É, por isso, tempo de sermos maiores. E exemplos não nos têm faltado.

Temos assistido a uma superação sem limites e a um heroísmo que ficará na história, mesmo que a compensação salarial não tenha acompanhado o valor acrescentado.

E, por isso, encorajado com o que juntos conseguimos fazer e com o que juntos estamos dispostos a lutar para superar, quero apelar ao espírito de março, em que, apesar da desorientação inicial, soubemos dar um exemplo ao mundo.

E, depois, é tempo de reunirmos todas as nossas forças e ambições porque, como nos disse Pessoa, “falta cumprir-se Portugal!”.

É tempo de dizer ao mundo que vamos organizar-nos, que não mais queremos viver eternamente da caridade de outros países e que iremos saber cuidar dos nossos.

O primeiro país a construir a globalização não pode transformar-se num espetador da sua própria agonia.

Por isso, que estas verbas que vêm da Europa sejam usadas para acudir a quem mais precisa, a quem viu o seu mundo totalmente destruído e se vê impotente para sustentar a sua família.

E que essa solidariedade seja a fonte de uma redobrada força, para que depois, todos juntos, façamos cumprir Portugal.

 

Presidente da concelhia do PSD/Lisboa e presidente da Junta de Freguesia da Estrela


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