26/1/21
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 02/12/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Precisamos de transparência e não de falsidades

Precisamos de conhecer o plano da vacina covid, as regras de Natal e Ano Novo, as normas para votar nas presidenciais e quanto é que vamos pagar ao Novo Banco.

1. Usando o seu ar mais angelical, a ministra Marta Temido, aparece diariamente a prometer e garantir aquilo que depois não acontece, nos termos em que o diz.

Engana-se, manipula ou deturpa por antecipação como o fez com as vacinas da gripe, com a chegada dos célebres ventiladores e agora está a fazer com o suposto plano de vacinação covid que, segundo Temido, terá risco zero de falhar. Depois dos erros na campanha da gripe, a verdade é que se teme o pior e uma desorganização brutal no caso da vacina covid. É uma situação que pode ser dramática e até gerar uma tensão social grave. Houve já tantos problemas de planeamento em assuntos de saúde que a desconfiança é obrigatória.

Na boa tradição lusitana, o plano da vacina covid é divulgado às pinguinhas, por comentadores ou jornalistas. Há ali manifestamente uma estratégia de testar para ver. Por isso, os responsáveis políticos só aparecem para retificar certas informações, mas calam-se quanto ao seu conteúdo efetivo. Contrastam com todos os países civilizados. O primeiro equívoco foi uma notícia que excluía os mais velhos e indefesos, numa prova de desumanidade tanto da parte de quem deixou sair a informação como de quem a plasmou nos jornais, sem mais nem menos. Foi uma dupla irresponsabilidade que assustou muita gente e obrigou a intervenções de António Costa e Marcelo para evitar o pânico. Não é preciso ser médico para saber que as vacinas não são tomadas por todas as pessoas indiferentemente dos seus estados de saúde, idade e fatores de risco. É coisa que é conhecida há mais de cem anos. Mas as decisões, as prioridades e os pontos de ministração devem ser anunciados de uma vez só depois de analisadas todas as questões sanitárias e logísticas.

 

2. Aguardam-se as restrições de Natal e Ano Novo. Por vontade do Presidente da República é desejável que venham todas de uma assentada. Tem lógica. Parece pacífico que os portugueses saberão ter contingência e prudência na consoada, organizando-se e respeitando em primeiro lugar a necessidade de se protegerem. Mas há que ver o que se vai passar no fim do ano. Aí as coisas podem ser diferentes. Há jovens e setores profissionais que podem não estar pelos ajustes e que são capazes de festejar der por onde der. É o resultado de uma saturação natural. Para dissuadir, o Estado tem de preparar uma operação de tolerância zero, se a situação de facto o justificar em absoluto. Não se pode dar azo à repetição do que se passou no verão. Não há outra solução, a menos que queiramos acelerar a terceira vaga e matar ainda mais gente, nomeadamente os mais velhos, os doentes e os pobres, como parece ser a estratégia de alguns grupos negacionista.

 

3. Marcelo Rebelo de Sousa marcou as eleições para 24 de janeiro, como previsto. O tema foi praticamente ignorado na comunicação social. Há, realmente, mais que fazer do que andar a tratar de matérias resolvidas à partida. Os dados mais recentes indicam que Marcelo está a crescer em popularidade, atingindo valores perto dos seus máximos, ou seja cerca de 65%. Nada mau para quem no primeiro mandato recebeu cerca de 53%. Marcelo beneficia dos seus atos, da sua popularidade e do carinho que dá e recebe. Beneficia ainda da circunstância de estar mais interventivo e mais exigente com o Governo, chegando ao ponto de chamar ministras a Belém para resolver assuntos como o uso de máscaras nas cadeias, embora não se saiba o desiderato da iniciativa. Fino como é, António Costa retirou-se dessa questão que lhe competia resolver. Com estas e outras estratégias habilidosas, com decisões consensuais sobre a limitação de circulação e com a cobertura do Presidente não admira que os níveis de popularidade de António Costa estejam também a subir. Costa tem condições para andar folgado até março quando chegarem as primeiras faturas das moratórias a que muitas empresas e pessoas recorreram. Mas, de momento, as coisas vão bem em termos de aceitação. O fim de semana até lhe pôs no sapatinho um PCP invulgarmente disponível para continuar a colaborar, nem que seja através de abstenções. Vai haver muitos acordos com os comunistas em cima e debaixo da mesa, nomeadamente nas autárquicas.

 

4. Voltando às presidenciais há uma questão que não está totalmente esclarecida. Como é que se vai fazer com a votação de quem esteja em isolamento? Sabe-se apenas que tem de haver um recenseamento prévio desses eleitores, de acordo com a comissão nacional de eleições. E como vai ser a questão dos votos dos emigrantes e do voto antecipado, que desta vez tem um contexto profilático uma vez que pode evitar concentrações? Mesmo que se saiba que Marcelo está eleito à partida, a abstenção é um flagelo que tem de se combater, desde logo porque destorce a realidade do sentimento do país e favorece os extremismos. E extremistas não vão faltar na corrida a Belém.

 

5. Diz-se que quando se nasce só há duas certezas: morrer e pagar impostos. No caso de Portugal pode-se juntar mais uma: pagar a conta do Novo Banco e a herança do BES, seja lá como for. Tanto o PSD como Bloco vetaram a inscrição no Orçamento de Estado de 500 milhões para aquilo que era suposto ser o banco bom, no meio de grande alarde e tumulto noticioso. A pessoa mais pacata a reagir foi António Ramalho, o líder da instituição. Tinha razão. Logo no fim de semana percebeu-se que o Bloco já volta a admitir pagar, esteja ou não a verba inscrita num orçamento suplementar ou noutro sítio qualquer. Os bloquistas e/ou sociais democratas vão certamente ter de rever as suas posições. O que tem de ser tem muita força. Vai correr tudo bem…para a Lone Star.

 

Escreve à quarta-feira

 


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