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Vítor Oliveira. Lágrimas pelo "Rei das subidas"

Vítor Oliveira. Lágrimas pelo "Rei das subidas"

João Amaral Santos 30/11/2020 15:15

O dia despertara chuvoso. E Vítor Oliveira foi, como sempre, caminhar e ver o mar. Sem sequer suspeitar que depois das gotas que lhe escorriam no rosto viriam as lágrimas de um país entristecido pela partida de um homem (que também era treinador de futebol) inesquecível.

Nelson Rodrigues, escritor e jornalista brasileiro, dedicou parte da sua atenção e do seu talento a escrever crónicas sobre futebol. É-lhe atribuída a frase: “Toda a unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

Na realidade, Nelson Rodrigues ignorou, desta vez, em mais uma tirada cortante, as exceções à regra. Mas mesmo sem intenção, lá terá voltado a acertar em cheio nas redes precisamente 40 anos após se despedir em vida. “Quem pensa com a unanimidade não precisa de pensar”, disse. E quando o assunto se trata de futebol e de Vítor Oliveira as coisas são exatamente assim: É unânime. E nem sequer é preciso pensar.

Vítor Oliveira morreu, sem aviso, aos 67 anos, deixando-nos um legado que vai muito para além do currículo de sucesso como treinador de futebol –  enumerado nas últimas horas vezes sem conta sempre com o mesmo espanto nos olhos de quem o lê ou ouve –, e que lhe valeu o epíteto de “Rei das subidas”. O jogo perdeu um homem humilde, simpático e generoso, que dizia sempre o que pensava, de forma séria e honesta: chegou mesmo, pasme-se!, a admitir no final de uma partida de futebol (em Portugal) que a sua equipa só ganhara porque o árbitro a tinha beneficiado.

Ao longo da vida, o seu caráter foi tocando todos os que com ele tiveram a sorte de se cruzar. Somou incontáveis amigos por todos os sítios por onde passou – que hoje choram a sua ausência precoce –, junto aos relvados, à mesa ou numa simples (mas sempre competitiva) partida de sueca.

Imortal

Vítor Oliveira, ex-jogador nas décadas de 1970 e 80, tinha deixado a intenção de abandonar a carreira de quatro décadas de treinador na última época, após assegurar a manutenção do Gil Vicente na 1.ª divisão. Ao longo deste percurso somou 11 subidas ao principal escalão do futebol português, à frente de dez equipas diferentes: Paços de Ferreira (por duas vezes), Académica, U. Leiria, Belenenses, Leixões, Arouca, Moreirense, U. Madeira, Desp. Chaves e Portimonense – alimentando sonhos e espalhando alegrias nas bancadas um pouco por todo o país.

Era agora comentador, e na passada quarta-feira tinha acompanhado a transmissão televisiva do Marselha-FC Porto para a Liga dos Campeões. Previa regressar, em breve, ao ativo, embora noutras funções. No dia da sua partida, o Leixões anunciou que já tinha endereçado um convite a Vítor Oliveira para que assumisse o cargo de diretor-geral do clube de Matosinhos, sua terra natal. Já não foi, porém, a tempo de dar uma resposta ao clube do seu coração. O mesmo coração que o traiu quando, na manhã de sábado, fazia uma caminhada em Angeiras, Matosinhos, bem pertinho de casa, por aqueles pontões à beira da praia de onde se veem chegar, perenes, as vagas que o Atlântico atira contra a areia.

A Liga de Clubes decidiu imortalizá-lo, atribuindo o nome de Vítor Oliveira aos prémios que distinguem os treinadores das equipas do futebol profissional em cada época desportiva (mensal e anualmente). 

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