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Maradona. O pé esquerdo de Deus!

Maradona. O pé esquerdo de Deus!

Afonso de Melo 28/11/2020 12:37

Morreu Diego Armando, o homem que nos ensinou que Deus, afinal, era canhoto. Ou, se calhar, não morreu. Não acreditem em tudo o que vos dizem.

Não, não acreditem nas notícias que vêm nos jornais: Maradona não morreu porque os favoritos de Deus não morrem nunca, são apenas homens simples que, abençoados pelo Duende de Lorca, ganham poderes misteriosos que todos sentem e nenhum filósofo explica. «O Duende de que falo, obscuro e estremecido, é descendente daquele alegríssimo demónio de Sócrates, mármore e sal que o arranhou indignado no dia em que tomou a cicuta, e do outro melancólico demoniozinho de Descartes, pequeno como amêndoa verde, que, farto de círculos e de linhas, saiu pelos canais para ouvir cantarem os marinheiros bêbados». Os marinheiros bêbados de La Boca, que vomitavam sangue nas águas de La Plata, os marinheiros bêbados de Nápoles, que fizeram de Diego Armando um santo de mil altares, de Posillipo, onde Maradona vivia, na Vía Scipione Capesce 7, à Via Claudio, lugar do Estádio de San Paolo, sabiam de cor a sua eternidade. Ergueram-lhe estátuas por dentro das almas, perdoaram-lhe todas as ofensas, todas as fraquezas, todos os vícios, todos os momentos em que desceu do plinto para ser homem vulgar como eles e merecer o seu amor e a sua dedicação infinita, mesmo que estivesse sentado a jantar numa pizzeria com um dirigente da Camorra. Diriam os antigos, que viveram no tempo das Escrituras, que Diego Armando seria sempre mais Cristo do que Deus, não nos obrigasse a crença católica e apostólica a aceitar sem discussão a unidade indivisível da Santíssima Trindade. Porque, vindo das alturas, também terminou a existência pregado a um madeiro, expiando pecados do corpo, da mente e da carne, ele que fora capaz de ressuscitar das linhas brancas da cocaína para voltar ao centro das quatro linhas brancas de cal.

No dia 25 de novembro, Diego Armando Maradona Franco teve direito a figurar no papel burocrático de um atestado de óbito. «Si yo fuera Maradona/Nunca me equivocaría/Si yo fuera Maradona/Perdido en cualquier lugar...», cantava Manu Chao. Claro que ninguém podia ser Maradona! A menos que fosse Deus. Um Deus perdido nos lugares da pobreza da infância em Vila Fiorito, perdido nos amores, perdido no crescimento, perdido no vício das drogas. Um Deus canhoto, porque foi esquerda a mão de Deus que destroçou a Inglaterra no incandescente dia 22 de junho de 1986, no Estádio Asteca, na Cidade do México, porque foi esquerdo o pé de Deus que fintou os ingleses estonteados, Lord Nelson e o Arcebispo de Cantuária, a rainha na sua pobreza de vulgaridade humana e o Rei Artur e toda a Távola Redonda, Galahad e Gauvain, Lancelot e Perceval, e até o mágico Merlim que não sabia nem metade dos truques que brotavam de um pé esquerdo nascido da sabedoria suprema da natureza e do perfume inconfundível que vem das águas de La Plata e percorre as vielas do Barrio de La Boca.

 

Natal

No dia 30 de outubro de 1960 foi Natal. Em Vila Fiorito, no bairro de Lanús, um dos mais pobres de Buenos Aires, nasceu Diego Armando Maradona e nunca mais morreu, ainda que John Broyad, director clínico da morgue de San Fernando, tenha vindo a público referir sucintamente: «Insuficiência cardíaca aguda, num paciente com cardiomiopatia dilatada e insuficiência cardíaca congestiva crónica que gerou edema agudo de pulmão». Não percebeste nada, pois não Diego? Que te importa isso, agora que as multidões voltaram a fervilhar em teu fredor, gritos e suspiros, bandeiras e lenços à passagem do teu caixão?

Poucos percebem. A morte é mesmo assim. Talvez apenas Ruy Belo, o poeta que tinha estado na morte e não aguentara tamanha solidão. As pessoas ainda estão perdidas, desalinhadas. No Mundial de 1994, nos Estados Unidos, Maradona prometeu ao mundo que estava de regresso com a mesma força de oito anos antes. Apanhado nas teias do doping, acusou efedrina e foi expulso da competição. A imagem dele nesse jogo derradeiro fica presa em freeze-frame na sua saída de campo ladeado por duas enfermeiras. No dia seguinte a bomba rebentou. Mais uma vez cometia o pecado de ser o melhor e de se julgar, tal como Deus, omnisciente e omnipotente. Nesse mesmo dia, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, escreveu: «Jugó, venció, meó, perdió. El análisis delató efedrina y Maradona acabó de mala manera su Mundial. El placer de derribar ídolos es directamente proporcional a la necesidad de tenerlos». Não, não derrubaram o ídolo. Ninguém pode nada contra o Pé Esquerdo de Deus.

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