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Manuel J. Guerreiro 27/11/2020
Manuel J. Guerreiro

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Em casa já quase sem pão e sem água

Independentemente da forma e do conteúdo, por vezes pouco ortodoxos, de alguns discursos ou do formato de algumas manifestações e dos excessos que alguns dos seus participantes possam ter, bem como de determinadas colagens e aproveitamentos político-partidários populistas, a verdade é que estou absolutamente solidário com o movimento "A PÃO E ÁGUA".

Estou incondicionalmente ao lado de todos os profissionais da restauração, cafés, pastelarias, bares, discotecas e todos os demais auxiliares de turismo (alguns dos quais de quem sou amigo e intermitente colaborador), com as suas justíssimas reivindicações e indignação perante o que se tem passado e continua a passar, por força da pandemia, sem que haja um fim à vista. E, acima de tudo, perante a ausência total de uma política que proteja, neste quadro excepcional, todas estas pessoas atingidas em cheio – como se por acaso fossem os culpados – por este malvado vírus que nos destrói a vida e nos consome a alma!

Estragos sociais, económicos e financeiros que se alargam, sejamos justos e sérios, a todos os restantes sectores da Cultura.

Sim, há pessoas, muitas, que estão já neste momento a passar mal, com enormes dificuldades financeiras, a viver de ajudas de familiares e amigos que lhes matam, literalmente, a fome. São aos milhares as pessoas que simplesmente não podem exercer as suas actividades profissionais e artísticas. Algumas das quais, há nove meses, sem poder abrir as portas para trabalhar e ganhar a vida de forma minimamente possível e aceitável e que tanto lhes custa, por certo, não o poder fazer.

Sem público não há artes nem espectáculos. Sem público não há teatro. Sem público não há bailados nem óperas. Sem público não há cinema. Sem público não há exposições. Sem público não há restaurantes. Sem público não há cafés nem pastelarias. Sem público não há bares nem pubs. Sem público não há discotecas nem clubes. Sem público não há festivais (excepto o Avante). Sem público não há concertos. Enfim, sem público não há trabalho para todos estes milhares de profissionais – pessoas que têm as suas profissões, carreiras artísticas e empresariais, que são funcionários, profissionais liberais, ou patrões, na sua esmagadora maioria, micro, pequenos e médios empresários – nestes vastos domínios da actividade recreativa e cultural, fustigada pela crise que vivemos e viveremos sabe-se lá até quando...

Toda a minha vida fui, a par de outras e variadas actividades profissionais, DJ. Tenho pela música e pelo "deejaying" uma paixão que me acompanhará até ao último e derradeiro suspiro. Claro que nos últimos anos, tem sido uma actividade que pratico de forma mais lúdica do que propriamente encarada como uma profissão. Pelo que, a minha maior angústia neste momento horrível que colectivamente passamos é para com todos os DJ's profissionais de Portugal e do mundo, homens e mulheres, que foram os primeiros a parar a sua actividade laboral, profissional e artística e serão, seguramente, os últimos a retomá-la. E ninguém, neste país, quer saber disso para coisa absolutamente nenhuma. Nem sequer são, somos, vistos por nenhum responsável político, como profissionais, músicos e pessoas a necessitar da ajuda do mesmo Estado-social que tem direito qualquer outra pessoa profissionalmente afectada por esta situação!

Bem sei – e não fujo ao assunto – que a esmagadora maioria destas pessoas, são profissionais liberais que não descontam ou não descontaram, suficientemente, em tempo e em parte dos seus rendimentos, para a segurança social e, por essa razão, não têm agora o acesso facilitado às ajudas do Estado e dessa mesma segurança social.

Porém, sendo esta uma situação realmente excepcional, não deve permitir que ninguém fique para trás, mesmo que não possua as condições necessárias ao acesso de ajudas, mais quando são profissionais totalmente impedidos de trabalhar pelo próprio Estado que lhes nega o apoio.

Não obstante, se o Estado português não fosse um autêntico “Estado-ladrão” e explorador do povo – pela carga insuportável de impostos que cobra aos portugueses – para poder manter a sua própria dimensão, aliás, absurda, face à nossa realidade enquanto país, incluindo a enigmática teimosia do Governo em manter na sua esfera jurídica empresas gigantemente falidas como a TAP, a CP e outras tantas sugadoras de recursos financeiros a par das crónicas injecções em bancos falidos do regime. Se não fosse esta tragédia socialista na forma de gestão política do Estado que castiga fortemente os contribuintes com impostos altíssimos sobre o trabalho e o consumo, sendo, designadamente, os profissionais liberais duplamente castigados por serem simultaneamente precários e o elo mais fraco em termos de segurança de rendimentos. Se ao invés de tudo isto, fossemos um Estado decente e mais liberal, com baixos impostos e uma carga fiscal global justa, aceitável e adequada à nossa real dimensão, havendo a possibilidade de escolha nos regimes aplicáveis a cada caso concreto, talvez ninguém neste país deixasse de contribuir para esse mesmo Estado que seria muito mais social do que isto que hoje temos, porque efectivamente poderia suportar esses custos e com isso obter o acesso às ajudas sociais escrupulosamente atribuídas mas sempre quando verdadeiramente necessárias!

Mas isso agora seria tema para outra música...

Jurista.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.    
     


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