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José Paulo do Carmo 27/11/2020
José Paulo do Carmo

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"O meu maradonazinho"

Almoçava à pressa, por muito que me soubesse tudo incrivelmente bem, para dar ainda uns chutos numa bola roxa meio vazia, cumprindo um ritual que fizemos questão de eternizar naqueles quatro saudosos anos. O meu avô sentado na cadeira preta que girava a 360 graus, ia olhando para mim, maravilhado, e dizia sempre a cada toque meu “lá vai o meu Maradonazinho”

Toca o sino do recreio para a hora de almoço. Sou o único que sai a correr. Desço as escadas saltando duas a duas para ganhar tempo e subo a ladeira, chegando ao topo esbaforido mas feliz. Lá ao fundo, o Mercedes do meu avô já espera por mim ao som de uma buzina peculiar que tocava o La Cucaracha, música de folclore mexicano que ele adorava e que decidiu adicionar à buzina habitual. Modernices da altura. A conversa é a do costume. O meu avô a dizer-me que vai deixar de ser sócio do Benfica, que já está velho e cansado para essas coisas. Mas que quer a minha opinião sobre o assunto para tomar a decisão final. Rogo-lhe que não deixe. Explico-lhe com os argumentos possíveis que uma criança de cinco ou seis anos consegue arranjar (e que não são poucos) e faço uso de toda a chantagem possível que um neto consegue perante um avô babado. Ele fica convencido. Afinal de contas, só queria mesmo que eu ficasse a pensar que era eu que tomava essa decisão e que só se mantinha porque eu lhe pedia. Saímos os dois satisfeitos.

O caminho era curto até casa deles. Sempre fui um privilegiado: durante toda a minha caminhada na primária sempre fui almoçar com os meus avós, deixando o refeitório que detestava para os meus colegas. Por muito que gostasse de brincar com eles, aquela hora era sagrada. Quando chegava, lá tinha o Paulo, um amigo da família à minha espera com o jornal A Bola na mão. Foi assim, aliás, que comecei a ler depois de aprender as primeiras letras. Já o perfume dos maravilhosos cozinhados da minha avó se espalhavam por toda a casa, ainda eu deitava aquele imenso lençol (que era A Bola na altura) em cima da mesa do escritório, na ânsia de saber das novidades. No início limitava-me às “gordas”; depois, já mais experiente, corria todo o texto de fio a pavio.

Almoçava à pressa, por muito que me soubesse tudo incrivelmente bem, para dar ainda uns chutos numa bola roxa meio vazia, cumprindo um ritual que fizemos questão de eternizar naqueles quatro saudosos anos. O meu avô sentado na cadeira preta que girava a 360 graus, ia olhando para mim, maravilhado, e dizia sempre a cada toque meu “lá vai o meu Maradonazinho”. E eu, cheio de mim, sonhava com os grandes palcos e tentava imitar aquelas jogadas geniais que o meu avô me contava sobre o grande Diego. Histórias essas que se misturavam com outras tantas de Eusébio, que figurava em várias fotografias lá em casa na companhia do meu avô. De viagens em que ele acompanhava a equipa ao estrangeiro, entre peripécias com os jogadores. E eu fantasiava e sentia-me deliciado por beber toda aquela magia.

Esta semana, a minha avó (não essa, mas a outra) fez 90 anos. Quis o destino que, um dia depois, Deus levasse o Diego para junto dele, levando atrás uma vida recheada. Alguns logo se apressaram a condenar a sua vida mundana e o seu feitio irascível. Eu prefiro relembrar esses almoços em casa dos meus avós. Em que o tempo parecia inesgotável e os sonhos não cabiam na palma da mão. O tempo em que o meu avô me mandava a bola ao ar para eu cabecear para a porta da casa de banho que, na minha mente, servia bem o propósito de baliza deserta. Em que corria por entre as escadas, tabelava com a parede e rematava com fúria, fazendo golos atrás de golos, só para ouvir mais uma vez com orgulho, entre o chiar daquela cadeira preta, “lá vai o meu Maradonazinho”.


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