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Cesare Pavese e a república das mulheres

Cesare Pavese e a república das mulheres

Rita Homem de Mello 26/11/2020 17:52

A Praia, de Cesare Pavese, escritor, tradutor e poeta italiano (1908-1950) editado pela Ulisseia com tradução de Ana Tomás é um romance que narra a história de Doro, um homem que do nada decide rumar ao lugar das suas origens.

De teor existencialista, muitíssimo introspetivo, este é um livro tumultuoso que cultua um profundo misticismo interior, que como uma mordaça permanece do início ao fim em luta austera e silenciosa.

Doro e o narrador, um professor solitário são amigos de infância, mas enquanto que Doro se casa com Clelia e parte para Génova onde mais tarde virá a ser pai, este mantém-se em Turim. Depois de algum tempo afastados, Doro comunica ao amigo a sua urgência em regressar à sua aldeia. Essa aventura será o único capítulo mais colorido e festivo do livro. É nessa altura que por curtos instantes vemos inaugurado um Doro menos taciturno e cinzento, um Doro mais liberto, mas no fundo, não menos reprimido e perturbado. Com os dois vamos nostálgicos até ao hotel da estação, às colinas, à eira, à casa das raparigas da sua adolescência. Aqui encontramos um ambiente completamente diferente da Riviera Italiana, e então conhecemos o pedreiro Ginio, Biagio e outros camponeses, mas é aqui que também começam as primeiras apreciações acerca das mulheres e do matrimónio.

Doro não é um homem completo e feliz no casamento, e o amigo não percebe bem o porquê, e insistentemente ouvimo-lo questioná-lo, se bem que sempre sem nenhuma resposta conclusiva ou eficaz. Doro não lhe consegue dar uma razão, uma desculpa aparente que justifique seu estado acabrunhado. Aparentemente não há discussões, zangas ou conflitos matrimoniais com Clelia, aliás todo o enredo é desencadeado no mesmo timbre desolado e contido, por isso o narrador nunca o chega a entender. Doro que todos os dias pinta na praia fica de tal maneira amargurado que chega a deixar de pintar. Só Clelia, que parece não querer entender o estado de alma do marido, é que é sem dúvida a mais feliz de todos. Agustina que dizia que «Não há literatura sem deceção» e que «O que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa» ajuda-nos a tentar perceber que talvez o regresso de Doro à sua aldeia não fosse mais do que provar de novo esse princípio. Acontece que assim que se vê lá, deseja rapidamente ir-se embora no dia seguinte. Pavese insiste com isso em provar que o princípio de alguma coisa pode-se anunciar tão indecifrável e devastador como o fim. O princípio, ou a ideia do princípio, acaba assim por se revelar absolutamente íngreme, acuminado e atordoante, como atordoante consegue ser a contenção em Pavese. Mas essa sua contenção é ao mesmo tempo dotada de uma correnteza resvaladiça capaz de marulhar o íntimo, o sufoco, toda a inquietude. Desse modo, realizamos que a contenção estampa assim o estado natural da sua escrita, porque é nela em que o vago e o real testemunham engaiolados debaixo do mesmo teto o dissabor e a deceção. E todos os personagens experimentam essa deceção, senão vejamos, Doro é único homem casado da história, mas na verdade nenhum outro homem lhe cobiça a sorte ou demonstra ter o mínimo de expectativas em relação à vida conjugal. Em tom jocoso, em ordem a focinhar a aureola do casamento, o narrador relata a cena de um camponês que expulsava as irmãs de casa para depois correr a procurá-las em ordem a exigir-lhes um jantar de reconciliação. (p.19) «-Quem sabe se ainda é vivo – disse Doro. Vivia num casebre que se avistava lá em baixo. Era um homenzinho seco, que falava pouco, temido por todo, mas que tinha uma particularidade: não queria casar-se porque dizia ser lamentável ter de expulsar de casa também a mulher. (…) Quem era ele? Um homem importante? – perguntei. – Não, era um homem que nasceu para outra coisa, um inadaptado daqueles que se tornam maliciosos porque têm uma vida que não os contenta. – Então, todos devíamos ser maliciosos.»

Este talvez seja o único momento em que assistimos a uma certa ironia, porque no geral é um romance cuja perspicuidade não deixa margem para a malícia. Desde o início que nos é revelada essa condição de inadaptação de Doro, mas não só dele, no fundo todos os personagens são uns inadaptados, uns descontentes. Doro, o narrador professor, os amigos Guido, Berti, (que mais tarde se apaixonará por Clelia), são todos uns descontentes com o que o destino lhes reservou. A única personagem que não é uma inadaptada mais uma vez é Clelia, e ironicamente é precisamente sobre ela que toda a história ciranda, como se a infelicidade de uns cirandasse em torno da felicidade de outros. Mas se Clelia é a única personagem que não nos parece inadaptada, por outro lado vai ser imediatamente na primeira página que vamos ler que foi por ela que Doro se abandonou. Há, portanto, uma culpabilização escancarada da infelicidade dele sobre a mulher, e mais tarde também, uma culpabilização do desgosto de Berti por ela quando se apercebe que esta é casada com Doro e que espera um filho seu.

A mulher Pavesiana é sempre uma mulher de uma certa perversidade. Ela é o brocado subterrâneo do seu imaginário rasteiro, frágil, a razão do seu desgosto e da sua dor, por isso o abandono e a solidão de mãos atrás das costas perseguem-no a todo o instante fustigando-o impiedosamente. (p.60) «Todas as raparigas são parecidas, e é necessário vê-las em mulheres para as avaliar.» Vê-las em mulheres significa avaliá-las, escrutiná-las. Pavese avalia tudo na mulher, a beleza, o comportamento, o olhar, os gestos, os segredos, a ausência de segredos, todos os seus tentáculos. (p.36) «Sorriu novamente, de um modo que tinha simultaneamente qualquer coisa de feminino e de desprezo. São as mulheres que respondem assim. Aprendeu com alguma mulher, pensei.» ou «a característica de quem se casa é viver com mais de uma mulher» (p.80), e para finalizar, (p.66) «Se se ausenta um homem ninguém repara; falta uma Mara qualquer, e um grupo desfaz-se. – Repara – dizia Doro -, estes toldos são casas: aqui fazem malha, comem, vestem-se, fazem visitas: os poucos maridos presentes estão ao sol, no lugar onde foram colocados pelas mulheres. Trata-se de uma república de mulheres.»  

Denota-se facilmente em cada um dos exemplos, uma raiva tépida, acusatória e carnavalizada nesta república de mulheres, uma república onde Pavese nunca se soube afirmar. Tudo na mulher o escama, o descarrila. A mulher é a alcateia, o uivo e o homem é um ser delicado, instável, quebradiço.

Aparte desta culpabilização, Clelia será a única mulher bem resolvida do romance, ao passo que todas as outras personagens femininas, também elas permanecerão inadaptadas e alienadas. Vejamos o exemplo de Mara, a única mulher casada que acaba por se magoar quando se permitia divertir longe do marido. Também Ginella, Nina e Luisella, são três mulheres livres e desimpedidas, mas que se vêm incapazes de se relacionarem com algum homem. Três mulheres reféns de inseguranças, desânimo, derrotismo. Três mulheres reféns e imobilizadas pelas garras angulosas do desalento.

Regressando à aldeia natal de Doro, também somos capazes de inconscientemente questionar com o narrador o sentido desse regresso e dessa alienação (p.19) «Doro parou, esquadrinhando-me. – Que julgas? Que vinha fazer um regresso às origens? (…) Queria dizer-lhe: «não é verdade.» E não era verdade não, obviamente que não, mas este regresso não lhe traria nada de rejubilante capaz de o arrancar do seu estado inconformado e melancólico, porque nas personagens ou na poesia de Pavese o regresso possível não existirá nunca, e nada ou ninguém terá a força de toldar o inevitável. Afinal (p.118) «Começava a perceber que nada é mais inabitável do que um lugar onde já se foi feliz. Compreendia porque é que num belo dia o Doro decidira apanhar o comboio para regressar às suas colinas, e na manhã seguinte voltara ao seu destino.»

Em Pavese o lugar onde já se foi feliz é um lugar sem frestas nem respiro, um lugar sem regresso, como sem regresso ficaram as suas últimas palavras escritas no diário que escreveu durante quinze anos «Ofício de Viver» (Relógio D’Água) iniciado em 1935 aquando da sua prisão no Sul do país. Morreu duas semanas antes de completar quarenta e dois anos.

A Praia de Pavese como o seu diário é uma praia triste e solitária, como triste e solitária é a sua Itália. A Praia acaba por ser o retrato desmaiado dessa Itália afastada de contornos políticos e meandros ideológicos, porque como o próprio escreveu no poema Mares do Sul (1930) «calar é a nossa força.»

Num testemunho de Dario Manzini, a respeito deste escritor anti-fascista se ter mantido sempre numa linha de escrita paralela à ebulição política lemos «Muitos poucos foram os nomes de literatura italiana capazes de sobreviver incólumes ao turbilhão político que atingiu a Itália. Pavese será o único a tê-lo feito sem manchar a qualidade da sua literatura, conseguindo sempre ser universal e nunca ter-se prendido ao particular do momento.» Esse momento tinha um nome, Mussolini.

Assim que chega ao fim do livro, o leitor conclui que o fato de nunca lhe ser apresentado o nome do narrador é totalmente propositado e em consonância com a génese da sua obra. E é graças a esse anonimato que nos vamos infiltrar naturalmente no romance e degluti-lo como nosso. Talvez só através desse anonimato nos possamos sentir tão mais próximos desta praia sufocada, retida, aferrolhada e sumir atónitos entre as rochas e as barracas a refletir (p.48) no «que é que não dorme no interior de nós?».

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