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Carlos Zorrinho 26/11/2020
Carlos Zorrinho
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Vela Triangular

Navegando entre um triângulo de ameaças digno do maior adamastor deste milénio e um triângulo de prioridades focadas e adequadas aos desafios do novo tempo, chegou a altura de içarmos a vela triangular...

Aproxima-se o início da quarta Presidência portuguesa da União Europeia. Nenhuma das anteriores ocorreu num contexto de tantas incertezas e num cenário interno e global tão complexo. Em todas as outras enfrentámos desafios difíceis e conseguimos resultados positivos. A reforma da PAC em 1992, a Estratégia de Lisboa em 2000 e o Tratado de Lisboa em 2007, ficam para os anais do projeto europeu como fortes marcas, globalmente positivas, das Presidências lusitanas.

A Presidência de 2021 ameaça decorrer no meio de uma tempestade perfeita. A pandemia não dá sinais de ceder, o Brexit continua indefinido e o financiamento da recuperação sujeito à chantagem dos Estados iliberais, traçando um trio de variáveis constrangedoras que pressionam fortemente o triângulo que estrutura a visão e o programa da presidência, designadamente a combinação da agenda social, da agenda climática e da agenda digital, e a sua projeção no posicionamento multilateral da União no novo contexto global.

Navegando entre um triângulo de ameaças digno do maior adamastor deste milénio e um triângulo de prioridades focadas e adequadas aos desafios do novo tempo, chegou a altura de içarmos a vela triangular e ousar navegar contra o vento da descrença e do desânimo. Historicamente somos um povo mais capaz de ligar com grandes desafios do que com pequenas contrariedades. Esta convicção ancorada no passado terá um teste de validação já em janeiro, seja qual for o legado que a Presidência alemã nos deixe, e os dossiers que até lá possam ainda ser desejavelmente fechados.

A resistência da Hungria, Polónia e Eslováquia em aceitar a dimensão política e os valores em que se ancora a parceria europeia, a gestão das relações com o Reino Unido pós-Brexit, as crescentes tensões entre potências e a consciência da importância da autonomia estratégica como fundamento de uma globalização saudável são fatores que exigem uma resposta determinada das instituições europeias. Mas não basta determinação. É preciso opção e rumo. Capacidade de mobilizar e articular. De surpreender pela capacidade de ligar e não pelo cavar das dissonâncias.

O arranque da Presidência portuguesa ocorre quase em simultâneo com o início da Presidência Democrata nos EUA, que marcará um novo impulso da visão multilateral nas relações geopolíticas e uma revalorização das instituições e dos acordos institucionais.

A aposta que fizemos no nosso programa de Presidência, de estarmos na primeira linha da renovação da parceria estratégica com África e de darmos um novo impulso às relações com a Índia, são peças fundamentais de um puzzle que permitirá reintegrar a União Europeia como potencia relevante no xadrez global, fazedora de pontes e aliviadora de tensões, sem descurar nunca a sua matriz humanista, democrática e solidária.

2020 tem sido um ano para lembrar pela acumulação de ocorrências penalizadoras da paz, da saúde e da tolerância no mundo. A ventania soprou forte e em sentido contrário dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Quando foi assim, nos tempos de antanho, os nossos navegadores içaram a vela que sulcou os mares contra a corrente. Assim teremos que voltar a fazer agora.

 

Eurodeputado

 


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