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Maradona. Na mão de Deus, na sua mão direita, descansou afinal seu coração

Maradona. Na mão de Deus, na sua mão direita, descansou afinal seu coração

Afonso de Melo 26/11/2020 08:38

Morreu ontem o homem que fez o mundo inteiro desconfiar, durante 60 anos, que Deus era canhoto.

Não terá sido por acaso que Diego Armando Maradona morreu em Tigre, nos arredores de Buenos Aires. Tigre é um nome que vem a propósito. Ontem, de paragem cardio-respiratória enquanto se encontrava a recuperar de uma operação a um hematoma na cabeça. Antero de Quental poderia ter escrito para ele o poema em que dizia: “Na mão de Deus, na sua mão direita/Descansou afinal meu coração/Do palácio encantado da Ilusão/Desci a passo e passo a escada estreita”.

Há muito tempo que Diego Armando descia a escada estreita das ilusões, muitas vezes tropeçando a quatro e quatro, envolvendo-se em tranquibérnias baratas, revoltando-se contra o mundo, destruindo a vida dos que lhe eram mais próximos. Renegando filhos e o passado emocional, surgindo em público na figura redonda e grotesca de um bêbado de aldeia ou, por vezes, na figura ainda mais grotesca de um drogado caído à porta de uma estação ferroviária. O comboio da vida já tinha passado por ele mesmo antes desta morte tão surpreendente como natural. Porque não terá havido quem não perguntasse onde estava o seu fim.

Estava em Tigre, em sua casa, a tarde ainda por começar. Os jornais argentinos espalharam a notícia por todo o universo. Não faltou sequer o pormenor de estarem três ambulâncias estacionadas à sua porta. E médicos e enfermeiros, sem nada mais para fazer do que registar o certificado de óbito daquele que foi um dos maiores dos maiores. Agora chegou o tempo do adeus. O adeus a esse homem anacrónico que acreditava que vivia de encontro ao mundo, apenas com Deus a seu lado, um Deus-colega, um Deus-companheiro, o único Deus capaz do atrevimento de vestir a sua camisola. Todos sabíamos que ele tinha um pacto com Deus. Quando soube da notícia da sua morte, apeteceu-me dizer como Nelson Rodrigues quando soube, pela mulher, que tinha morrido Guimarães Rosa: “Morreu? Morreu como, se estava vivo?” Guimarães Rosa, por seu lado, não aceitava a morte: não havia gente que morria, apenas se encantavam.

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