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Moer o Vento. Um peito aberto, uma imolação e Dina Mimi a remexer nos traumas de família

Moer o Vento. Um peito aberto, uma imolação e Dina Mimi a remexer nos traumas de família

DR Cláudia Sobral 25/11/2020 22:35

A artista palestiniana Dina Mimi descobriu por acaso a história dos últimos anos de vida do seu bisavô, que, depois de se instalar no campo de refugiados de Qalandiya, foi um dia levado para um hospital militar israelita e submetido a uma operação experimental ao coração. Abriram-no do pescoço à cintura. Três anos depois, imolou-se pelo fogo na casa da família. Ao Teatro D. Maria II e em estreia mundial a artista traz-nos até sexta-feira o espetáculo que resulta da pesquisa em torno desta história. Sobre a qual, sem saber, pensava já há muito tempo.

Era uma vez um homem, um homem palestiniano que com a sua mulher fugiu da terra que sempre fora a sua mas onde então se instalava um novo país chamado Israel. Um homem que enlouqueceria um dia e que louco morreria em Qalandiya, povoação nascida de um campo de refugiados criado em 1949 para acolher homens e mulheres para os quais se tornou casa definitiva. Até hoje. Era então uma vez esse homem, na década de 1970, e um outro homem, seu neto, em 2018, com a sua filha artista numa viagem entre Jerusalém e Ramallah. A artista é Dina Mimi. Artista visual sobretudo, mas que em Portugal apresenta o seu trabalho pela primeira vez em palco, numa performance-conferência a que chamou Grinding the Wind (Moer o Vento, na tradução do Teatro Nacional D. Maria II, onde se apresenta até sexta-feira, sempre às 21h).

Estes três protagonistas importam tanto quanto importa essa viagem da qual nasceu este espetáculo em que Dina Mimi se apresenta no palco da Sala Estúdio para aquela que é a sua estreia mundial, integrada na programação do festival Alkantara. Foi afinal aí que nasceu Moer o Vento. Na verdade, nasceu antes. Acredita a artista que nasceu com ela:o trauma do seu bisavô, da sua família, impresso nos seus genes. Acredita que foi ele que a fez chegar aqui. “O meu pai costumava dizer-me que eu nunca arranjaria um trabalho porque só me interessava pela morte”.

E é verdade que ela, a morte, ocupa um lugar central no trabalho da jovem artista palestiniana Dina Mimi, nascida em Jerusalém em 1994, logo após a assinatura dos acordos de Oslo entre o Israel e a Organização para a Libertação da Palestina, nascida em Jerusalém entre intifadas. Em 2016, quando iniciou a sua tese de mestrado, na École cantonale d’art du Valais, na Suíça, centrou-se em dois temas, em duas partes:a primeira sobre a loucura na esfera pública e a segunda sobre a auto-imolação. Terminou-a em 2018 e em 2018, de regresso a Jerusalém, contou-lhe o pai, numa viagem entre a eternamente disputada cidade e Ramallah e a propósito de qualquer coisa que se ouvia na rádio sobre propaganda e experiências médicas, que o seu bisavô fora utilizado por Israel numa operação ao coração experimental transmitida pela TV.

História conhecida de todos os que viveram naquele tempo, nos últimos anos da década de 1960, mas desconhecida de Dina Mimi até então. Como a do seu fim:enlouquecido depois de uma sucessão de três AVC ocorridos em apenas três anos, os três anos que se sucederam a essa cirurgia realizada num hospital militar israelita para onde terá sido levado sem o seu total consentimento (segundo os relatos que recolhidos pela artista junto dos que viveram ainda esse tempo, terá sido transferido do hospital palestiniano em Jerusalém oriental onde se encontrava internado com problemas respiratórios sem saber que os médicos “estrangeiros”que lhe haviam proposto a cirurgia inovadora eram médicos israelitas, e ainda menos que o procedimento seria conduzido num hospital militar e gravado para ser transmitido na televisão israelita), esse homem, seu bisavô e avô do seu pai, morreu imolado pelo fogo. “Na minha família não se fala sobre estes assuntos, é a regra. Recusam-se a contar-nos este tipo de histórias”. De tragédias para uma família palestiniana bastam as que já todos conhecem — e viveu Dina Mimi também as suas na altura da construção do muro que dividiu Jerusalém ao meio e que calhou ser erguido em frente às janelas do apartamento em que vivia, com a escola a ficar do lado de lá.

A tragédia em que se transformou a vida do bisavô e que até há dois anos desconhecia terminou num dia algures na década de 1970 que começara igual aos outros em Qalandiya, campo de refugiados feito vila a meio caminho entre Jerusalém e Ramallah e que assim permanece até aos dias de hoje, desde a sua fundação, em 1949. Em frente a uma lareira, regou-se com gasolina. Tentou acudi-lo uma das noras, que estava em casa. Mas foi o seu fim. “Não temos como saber se se imolou pelo fogo em protesto ou se foi apenas um ato de loucura”.

A casa, Dina Mimi conhecia-a bem. É a casa de família que a sua avó deixou mas onde vive até hoje um tio-avô. É a casa das reuniões de família, a casa em que se juntam a cada Eid (Eid al-Adha, a Festa do Sacrifício), importante celebração religiosa anual no mundo islâmico.

Tragédia ou não, do pai, Dina Mimi quis ouvir a história até ao fim. Quis saber dos detalhes, todos os detalhes possíveis. Quis ouvi-la depois de outras pessoas, daquelas que eram vivas ainda entre as que conheceram o seu bisavô e que testemunharam o que já tinha ouvido. “Felizmente ele sobreviveu à operação. Sobreviveu mas abriram-no da garganta até à cintura. Abriram-lhe as veias, não foi sequer uma verdadeira operação ao coração, mas nessa altura não havia ainda muitas, a primeira é de 1964. Não sabemos até ao dia de hoje se fizeram mais alguma coisa, se lhe retiraram algum órgão. Por que lhe abririam o corpo todo?”, questiona-se depois do intenso processo de pesquisa que iniciou ao ouvir pela primeira vez a história contada pelo seu pai. “A cirurgia foi transmitida na televisão israelita, ele foi usado para propaganda médica, portanto toda a gente sabia da história. Depois de deixar o hospital teve três AVC, um atrás do outro, que o levaram a perder a linguagem e a enlouquecer. Já não sabia nada: quem era, onde vivia, nada. Costumava perder-se nas cidades. Punha-se à procura da filha, que era a minha avó, pelas ruas”.

Durante o último verão, em preparação para o espetáculo que apresenta pela primeira vez em Lisboa, resultado da colaboração entre o Alkantara e a Mophradat, estrutura sediada em Bruxelas que apoia artistas do mundo árabe, Dina Mimi andou por Qalandiya, por essa casa, pelas dos vizinhos, e de todos ouviu a história que nunca lhe tinham contado. Interessou-se pela ideia de trauma genético. “Depois de o meu pai me contar esta história comecei a ler sobre [o conceito de] trauma genético, que é real. Estava a tentar perceber a ligação entre as coisas, porque o que senti foi que durante este tempo todo tinha andado à procura do meu bisavô nas pessoas perdidas pelas ruas de Ramallah, que observo desde pequena. E sobre as quais escrevi a minha tese, mas porquê? Não acho que seja uma coincidência”.

Uma dessas pessoas é o homem que viu passar um dia à janela da casa da sua mãe, vestido como se viesse de outro tempo, e que teve ainda tempo de filmar, em correria, aproximando-se de um arbusto de jasmim, colhendo algumas folhas. É um vídeo curto, mas que traz para este espetáculo que termina numa repetição dos sons das letras guturais características da língua árabe. “Dizem que se não formos treinados de crianças é quase impossível aprendermos a reproduzi-las”. As letras que marcam a língua que o seu bisavô morreu já incapaz de falar, vagueando pelas ruas como vagueava naquele dia aquele homem à procura de jasmim. Perguntam-lhe se é o seu bisavô. Não poderia ser, nunca o conheceu. Mas é como se fosse.

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