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João Lobo Antunes. O médico como humanista

João Lobo Antunes. O médico como humanista

Pedro Miranda 25/11/2020 12:22

João Lobo Antunes não foi, apenas, um dos mais consistentes seguidores da máxima de Abel Salazar, segundo a qual quem só sabe de medicina, nem de medicina sabe. O facto de ter sido um proficiente cultor dessa verdade permitiu-lhe testemunhar em favor dela e arremeter contra uma medicina, mais, um sistema de ensino, que dela se terá afastado

No ensaio O consolo das Humanidades, publicado no livro que acaba de sair do neurocirurgião (Ouvir com outros olhos, Gradiva, 2015), concretiza, com especial acuidade, o que pretende estabelecer quando considera que a ignorância da literatura, da filosofia, da história, da religião, por parte de quem tem a medicina por ofício, faz desse profissional menos excelente. A questão, não se julgue, não se prende com qualquer adorno, uma erudição que combinaria bem com uma profissão prestigiada. Bem mais do que isso: na mais prosaica interpretação do que o doente conta acerca de si mesmo e sua doença, na frase que lhe sai aparentemente tão cristalina, escondem-se interstícios, zonas obscuras, sentidos outros que o desconhecimento de outras vozes - que se expressam na poesia, na filosofia, no grande romance, nas grandes tradições religiosas - não permite entrever/encontrar/descobrir. O grande médico é, assim, também, o grande leitor…para ser o grande ouvinte: "É que a narrativa da doença - e é importante no meu ofício saber ouvi-la -, só é bem entendida quando já se escutaram outras vozes, na ficção, na filosofia ou na poesia, que ajudam a apreender o seu sentido mais profundo, oculto tantas vezes nos interstícios de um discurso que tanto pretende revelar, como ocultar. De facto, o encontro singular da clínica é feito de palavras mas, não raramente, também da eloquência de um silêncio igualmente revelador" (p.43). 

Daqui ao j'accuse, um pequeno passo: "a verdade é que não encontro nos médicos das novas gerações o mesmo vibrato emocional que me animou toda a vida, talvez porque desconhecem os dialectos do sofrimento, ou porque receiam mergulhar num mundo de emoções que só vagamente vislumbram ou, mesmo, penetrar no íntimo de uma solidão tão unicamente humana. Isto apesar da intervenção de uma pedagogia solicita, chamada a ensinar alíneas da comunicação entre médico e doente, formais, correctas, irrepreensíveis, mas que desdenham a compaixão"(p.43).
Mas ensina-se, a compaixão? João Lobo Antunes abeira-se do próximo, munido dessa linguagem que nos religa, para responder: "Sempre duvidei que a compaixão fosse um sentimento ensinável, embora admitisse tal ser possível em relação a certos valores morais, usando, como método, o exemplo. Podemos apenas apontar o que no outro - e aqui o conceito de próximo adquire uma admirável ressonância cristã - nos parece digno de merecer compaixão" (p.44).
O Professor excelentíssimo, que por tanto se ter destacado no campo das ciências duras ganha especial autoridade quando não aceita o cientismo divinizado, ou a idolatria de uma tecnologia sem a densidade de rosto humano, prossegue na denúncia do esquecimento do complexo de textos que dão textura à experiência - médica também -, permanecendo, ainda, nos novos tempos admiráveis: "falando ainda das novas gerações dos meus companheiros de ofício, creio que, em certa medida, esta falta de curiosidade pela história do outro e a platitude da sua resposta emocional se devem, em parte, à incapacidade de descobrir e ser desafiado pelo mistério das narrativas que quase não chegam a ouvir, confinados ao mundo de um conhecimento científico cujas limitações ignoram, e cegos pelas maravilhas da tecnologia que lhes confere autoridade e poder. Alguns, os mais perigosos, nunca irão perceber que no cérebro desta Medicina Contemporânea se juntam, em inesperadas sinapses, incerteza, risco e erro. Ora, como alguém notou só as Humanidades reconhecem a incerteza como a emoção humana dominante" (p.44).

Que aprendeste tu, afinal, com esses livros todos, com essas tertúlias entre literatos e filósofos, para que te serviram? João Lobo Antunes adivinha a pergunta e ilustra-a, percebe-se com que prazer, profusamente: "A maior conquista foi ter-me apurado o ouvido para captar outras vozes, compreender o significado oculto das palavras, e ter a competência para falar com qualquer pessoa num diálogo que nos eleva àquela altitude comum que permite o olhar horizontal, olhos nos olhos. Mas muito mais aprendi em obras de ficção. Em Moby Dick, por exemplo, encontrei o eco dos meus receios numa sala de operações, mas também o impulso de perseguir o inimigo até ao limite das minhas forças, e da necessidade de aquele impulso ser moderado pela mais negligenciada das virtudes, o bom senso. Não conheço elogio mais belo ao carácter pastoral do meu ofício, oficio agitado pelo heroísmo e pela cobardia, pelo orgulho e pela humildade, do que La Peste de Camus. Não existe talvez nenhum tratado de bioética que penetre o cerne do sofrimento físico e espiritual da doença mais profundamente que A morte de Ivan Ilitch de Tólstoi, a que repetidamente aludi. E muito mais poderia citar. Foi na filosofia, aprendida nos livros mas, sobretudo, tão socraticamente, no convívio com Fernando Gil, que descobri a importância de olhar para além das aparências e fazer perguntas cuja resposta, sabia de antemão, seriam outras perguntas. E, finalmente, muito me ensinaram os poetas, pois, como ensinou o genial Brodsky, a poesia é a forma mais concisa de transmitir a experiência humana" (p.45)

A doença, sobretudo a doença que ameaça a vida humana "é a incisão mais forte na essência que somos" (p.35). De aí que no cuidado, na sageza com que o médico com ela lida, há-de nutrir-se de grande preparação e, como se vê, o estetoscópio não é o principal instrumento para conhecer o outro. Na doença, conclui de muitos anos de experiência João Lobo Antunes, acedemos, olhando finalmente o sol de frente - e "olhar para estas coisas de frente exige a coragem de um domador de leões", nas palavras de Virgínia Woolf -, provavelmente ao único momento lúcido de um exame do que foi a nossa vida. Nesse instante, em que se dá o "desdobramento da personagem que somos é um fenómeno fascinante: uma é fria, racional; a outra exuberante e emotiva; esta é movida pela esperança, aquela abatida pelo desalento; a primeira não ilude a verdade, a segunda faz-lhe ouvidos moucos" (p.39), regressam à cena actores esquecidos da nossa biografia, e a coragem é o que fica quando a esperança se foi. Talvez, nesses momentos, a solidão seja, de facto, iniludível e inultrapassável, mas até para a compreender é preciso alguém com antenas afinadas: "médico para ser perfeito devia sofrer todas as doenças, pois só assim podia formar o juízo exacto" (Francisco Sanches citado por J. Lobo Antunes). E ter a subtileza de intuir que isto é mais do que uma imagem.
Uma espécie de carta - desencantada talvez - aos médicos de novas gerações, enquanto advertência; ao sistema de ensino, como proposta; às gerações que um dia querem praticar medicina como inciso para que sejam cumpridoras integrais da sua regra. 

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