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Jan Morris. A escritora que traçou o mapa instável dos espíritos que se deslumbram

Jan Morris. A escritora que traçou o mapa instável dos espíritos que se deslumbram

Diogo Vaz Pinto 24/11/2020 12:19

Nasceu rapaz, em 1926, numa pequena cidade inglesa, e foi uma grande jornalista, antes de se tornar um dos mais reverenciados escritores de viagens. Mas se Jan Morris parecia estar em casa fosse onde fosse, a mudança de sexo, já na meia-idade, mesmo tendo sido uma aventura em que foi pioneira, foi para ela apenas mais uma das suas viagens, uma com a qual fantasiava desde a mais tenra idade.

 

“Eu era o mundo no qual caminhava, e aquilo que via ou ouvia parecia vir de nenhum outro lado senão de mim mesma”. Jan Morris nunca se deixou emboscar num género, fosse em sentido literário ou mais literal, nunca abdicou de uma certa fluidez, da possibilidade de baralhar destinos, de refutar essas generalidades que enclausuram os sentidos e a própria experiência do mundo. Por isso, também nunca gostou que a descrevessem como uma escritora de viagens, preferindo que a deixassem ser apenas uma escritora em viagem. E muitos dos tributos que lhe foram prestados quando a notícia da sua morte, aos 94 anos, na passada sexta-feira, começou a circular, prendiam-se com essa influência revigorante da sua escrita, a sua atracção por lugares eles mesmos tocados pela estranheza da sua história, por esse fôlego de transitoriedade, as cidades inquietas, rumorosas, que se tornam percursos capazes de desdobrar a alma. A escritora de viagens Kapka Kassabova disse ter aprendido com ela, primeiro que tudo, como ver realmente o mundo, saber segurá-lo para além de um olhar que pasma, traficá-lo na prosa, e depois no coração, mesmo depois de se abandonar um lugar. Como aconteceu com Morris e Veneza. O livro que dedicou à cidade foi publicado há 60 anos, e Marcel Theroux, outro escritor de viagens e outro dos discípulos confessos de Morris, lembra que se tratou de um caso passional. A cidade continuou a visitá-la em sonhos ao longo dos anos. Enquanto isso uma e outra mudavam. A cidade já não era a mesma, e a escritora, nas edições que se sucederam, falou dela como de uma antiga paixão, deixando claro que alguma coisa se tinha perdido. Nas suas próprias palavras, esse livro que foi um dos seus grandes sucessos, “oferecia um retrato altamente subjectivo, romântico e impressionista, e não tanto de uma cidade como de uma experiência”. Por esta razão, a escritora Sophy Roberts, num breve testemunho ao The Guardian, vinca que Morris não dava aos seus leitores nem guias turísticos, nem livros de História, nem relatórios, mas algo mais seminal e excêntrico, livros que respiram “o espírito do deslumbramento”.

Embora os seus livros não se apresentem propriamente como romances, a sua audácia era a de um romancista, esse que entende as dúvidas que a própria História carrega dentro de si e que, de tempos a tempos, a fazem dobrar-se de dores numas convulsões que estão a meio caminho entre as dores de parto e o ataque de pânico. Sabia que a verdade não era uma categoria absoluta, mas que era a sua própria natureza inconstante, inquisitiva, eternamente insatisfeita o que a tornava leal a uma busca incessante. O escritor Pico Iyer lembra que, enquanto historiadora, o seu domínio sobre o passado era compendioso o suficiente para ser sensível aos trunfos que o futuro trazia na manga, nesse seu modo de baralhar as expectativas. Iyer diz-nos que ela era, ao mesmo tempo, melíflua e arteira, e talvez por isso mesmo a cronista ideal do século XX. Segundo ele, milhares de leitores reconheciam “a beleza da sua prosa de aguarela”, ao mesmo tempo reflexiva, leve, tocante, “mas o que lhe dava fibra era a sua acuidade insuperável”. “O que ela fez foi oferecer-nos a perspectiva de uma vida sem lealdades forçadas, uma vida dirimida entre o acaso e os apelos da estrada aberta, mas também a importância de se manter fora do enquadramento, e, no entanto, capaz de infundir em cada cláusula mais intrincada uma medida de gozo, outra de rigor e ainda outra de independência ao formar um juízo.” Para este prestigiado escritor de viagens, a sua monumental trilogia dedicada ao Império Britânico, Pax Britannica, publicada nos anos 60 e 70, tem-se revelado tão duradoura e influente porque, também nela, Morris nunca abandona o trilho da curiosidade e da erudição, revelando uma grande empatia pelas outras culturas, e deixando claro que esse foi o aspecto mais positivo da forma como a Grande Ilha se projectou sobre o resto do mundo. Mas se há um desejo de ir ao encontro do outro, o que Morris também nunca escondeu foi a sombra projectada pelo império, e ela não foi menos dura na hora de expor a crueldade e as hipocrisias deste.

Antes de tudo, antes de se tornar uma escritora que deixou em frangalhos as fronteiras entre géneros literários, Morris começou por se distinguir enquanto jornalista, e nunca se esbateram no seu cinto de grandes feitos alguns furos monumentais, a começar por ter sido sua a notícia que, em 1953, relatou ao mundo como o pico do Evereste foi conquistado pelo neozelandês Edmund Hillary e pelo sherpa nepalês Tenzing. Além de um complicado processo complicado para transmitir ao Times os avanços em mensagens cifradas, de modo a precaver-se para que a concorrência não desse por nada, Morris (que então ainda não mudara de sexo) era o único repórter a acompanhar a expedição, e foi obrigado a escalar até aos 6700 metros, não tendo qualquer experiência anterior como alpinista. Outro furo de monta foi o envolvimento do governo francês na invasão israelita ao Egipto após a nacionalização do canal do Suez, em 1956, uma reportagem que James Morris deu ao Guardian depois de ter entrado em choque com os editores do Times, que se prendeu com o apoio que o então primeiro-ministro inglês Anthony Eden deu ao ataque. Mas se é difícil abranger todos a infinidade da vida de uma personalidade tão vibrante, que chegou também a integrar enquanto James Morris, logo após ter deixado os estudos, aos 17 anos, um prestigiado regimento de cavalaria do exército britânico sendo destacada para a Itália na II Guerra (e antes de retomar os estudos em Oxford para depois se dedicar ao jornalismo, ainda ocupou funções como agente dos serviços de informação na Palestina) e se a lista dos seus livros conta com mais de 40 títulos, um facto decisivo foi a mudança de sexo, o seu papel enquanto pioneira transgénero, tendo relatado em Conundrum (1974) a viagem de transformação de homem em mulher, incluindo a operação de mudança de sexo em Casablanca, Marrocos, em 1972, tendo Morris admitido que tinha apenas três ou quatro anos quando se deu conta de que tinha vindo ao mundo no corpo errado. Conta que, inicialmente, tinha por esse seu segredo aquela ternura das coisas invioláveis, que são tão nossas que o mundo não lhes pode tocar, e que essa convicção de uma identidade trocada, de ter o sexo de um outro não passava de uma mancha algures na parte de trás da sua consciência. Mas com o passar dos anos, à medida que a infância foi de encontro à adolescência, começou a ser tomada por um anseio sem nome, como se lhe faltasse uma peça para dar sentido ao resto do padrão, ou um elemento que devia ser extático e permanente, mas que era, contudo, “solúvel e difuso”.

Fosse como fosse, e mesmo que esta sua experiência tenha sido decisiva para despertar uma sensibilidade em si mesma e para a traduzir, revelando uma realidade que não chega a ganhar coragem para se manifestar publicamente, e passa, por isso, ao lado da maioria das pessoas, Jan Morris nunca quis ver circunscrita a uma conquista particular um ânimo que não estava para ser cerceado, nem que fosse para arrastar uma qualquer carroça idealista. “Em todas as minhas andanças, e mesmo quando mudei de sexo, tive sempre o privilégio de reconhecer de onde partia e aonde haveria de regressar: ao País de Gales.”

Se Jan Morris desaparece e deixa atrás de si um legado ao mesmo tão difuso e profundo, como frisa Sophy Roberts, isso deve-se não só a esses despertares entre cidades como Veneza e Oxford, Hong Kong ou Trieste, ou mesmo no país imaginário Hav – romance originalmente publicado em 1985, publicado por cá pela Tinta-da-China, depois de Carlos Vaz Marques ter apresentado Morris ao público português enquanto escritora de viagens, com Veneza –, mas ao facto de se ter tornado um mestre através desse ingrediente secreto que ao mesmo tempo dá corda e ritma a sua prosa, e este ingrediente é a compaixão. “Ela escrevia de forma tão fluida, tão encantadora, que parecia estar a sussurrar ao meu ouvido”, diz Roberts. “Quando chegava à altura de nos dar as más notícias, de nos falar dos aspectos mais negros e das realidades mais duras deste mundo tão dividido, já nos tinha pelas entranhas, e não havia como recuar.” No fim, para Jan Morris o que importava era reconhecer essa qualidade mais subtil que faz da verdade uma experiência interior, algo que nos toca a todos, que chega ao ponto de nos transformar, e algo pelo qual vale a pena “batermo-nos até à morte se preciso para que não nos seja retirado o direito de a explorar”.

 

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