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O Cânone, a tia e o cardeal Diabo

O Cânone, a tia e o cardeal Diabo

Teresa Carvalho 23/11/2020 17:37

Do exterior, é um livro convencional, de título rotundo, talhado para a reverência e para navegar em águas canónicas. Do interior, é uma pedrada num certo modo de ser cânone e na ideia de literatura como soma de parcelas de exploração fixa.

 


A tia está sentada no sofá e está zangada. Foi com este dito alemão que António M. Feijó,  editor, juntamente com João R. Figueiredo e Miguel Tamen, do recém-publicado “O Cânone”,  reagiu às primeiras críticas ao volume, surgidas ainda mal Ricardo Araújo Pereira, o moderador da primeira de duas sessões de apresentação, acabara de anunciar a lista dos 49 autores portugueses que o integram, alfabeticamente dispostos. O número não é redondo como um seixo; e há muito no volume que se furta à regularidade, à lisura das formas comuns. Que tenha sido um humorista a anunciar a lista de nomes dirá já de um modo pouco-canónico de ser cânone.  

Sejamos mais precisos: a tia – essa figura compósita que aceitará o nome de opinião pública literária – não ficou zangada: não se lhe eriçou o totó, não rasgou a mantinha, não estorcegou o gato, não entrou em despautérios de linguagem, mandando, por exemplo, o académico trio editor à tabua, como prometeu a outros, num poema de desfecho ferino, esse “refinado bruto” que foi Assis Pacheco. A tia,  não levantou fervura, não azedou. E não terá sido por falta de empenho dos editores: título confiante, solene, impante, atirado com a força comercial dos best-sellers; catálogo bem cogitado de ausências fortes (convém não descartar a hipótese), depositado como uma espécie de sinal de desafio ou, talvez, de resistência perante um mundo previsível de hierarquias perpétuas. É curioso ver, por exemplo, que Eça surge aqui um tanto ofuscado por Camilo – resultado da acção imaginariamente concertada entre Miguel Tamen e Abel Barros Baptista, autores dos ensaios respectivos. E que Sophia não é apenas uma ausente. Dir-se-ia que ela está intermitentemente presente, não já como poeta intocável, mas como uma espécie de assistente literária, chamada, aqui e ali, a colaborar, a prestar apoio: “Sophia, que o conheceu na juventude, falava de Cinnati como o «poeta mítico»”. No belo ensaio de António Feijó dedicado ao primo Ruben A., Sophia surge num parênteses. Apetece  ler, de resto, nesse aparte a própria inclusão textual, não de uma exclusão canónica, mas do salto do centro para a periferia do campo literário português.  

Ao ver saltar uma publicação aparentemente ratada de nomes fortes – além de Sophia, Eugénio de Andrade, Vergílio Ferreira, Cardoso Pires foram os nomes mais falados – e pronta a acolher nomes que assim indevidamente acederiam ao pátio dos canónicos, a tia franziu o sobrolho, face esparramada na mão, vagamente indisposta,  e veio à janela lançar nomes. Lastimou muito algumas ausências, listou penetras. A tia ficou aborrecida, incomodada, vá. Depois, observou o arco cronológico – de D. Duarte (1391-1408) a Luiza Neto Jorge (1939-1989) –, tirou do bolso a calculadora para ver se a divina proporção estava conforme, e pouco mais disse. Voltou a esse lugar pacato de assentos múltiplos.

É que a relação com os seus autores, que pode até dispensar a leitura da obra que produziram, é tão precária que parece admitir apenas dois modos de relacionamento: a excomunhão e a canonização. Revelou-se assim a tia a leitora compulsiva de títulos e índices que sempre foi, prestando apenas serviços mínimos ao “Cânone” cuja ambição explícita era o “debate crítico em Portugal”. Quer dizer: recuperar a literatura portuguesa como veículo de eleição para o tipo de comentário capaz de alterar o estado crítico da sociedade que comenta. Este desejo de relevância só pode concretizar-se restaurando uma coisa de tempos idos, o livro-evento. Ora o livro-evento pede palco, holofotes, atenção desproporcionada. Dimensão extra-literária, em suma.   

Por seu lado, “O Cânone” mostrou-se um meio auxiliar de diagnóstico do estado geral da crítica em Portugal (incapacidade argumentativa, diopetrias muito abaixo da tabela) e do estado do ensaísmo académico, em particular. Este, pese embora “as nossas cada vez mais empobrecidas instituições crítica e universitária”, como reconhece Hélio Alves, autor de significativas entradas, passa bem, quando se eleva acima da oposição entre o jornalismo literário ou cultural e a crítica universitária.

'Arrogância' e 'Critério' foram talvez as palavras a que a tia mais deu uso. Mas porquê Florbela Espanca? Porquê Frei Luís de Sousa? Porquê Ruben A. e não Nuno Bragança? Por que não Maria Ondina Braga? Porquê três Marias, esse feminil compacto, e não apenas uma? O questionário, ainda que o estendessemos, tem resposta única: “Não há, de facto, critério algum para o que tem de estar a não ser as ideias de quem escolhe”, lê-se logo na introdução do volume que dá aos hiper-canónicos Camões e Pessoa honras de abertura e de fecho -  e excelentes leituras críticas.

De entre essas ideias dos organizadores, a que mais visivelmente emerge respeita à própria ideia do que seja canonizar. Não se trata de agitar continuamente o turíbulo, de modo a envolver o grande escritor numa consensual nuvem de fumo. Possam pesar prémios, estudos de fôlego, boas fortunas críticas, não se faz a santificação literária sem a representação do papel da figura do cardeal Diabo cuja farpela Jorge de Sena tantas vezes enfiou e à qual se pede a apresentação de  fraquezas, testemunhas críticas pouco abonatórias. A este “funcionário da Cúria”, escreveu Sena,  cabe “representar o condimento, o picante que auxilie até a espevitar o apetite de um público que vai estando desconfiado – oh, injustamente! – de tamanha fartura de grandes homens e grandes obras que à sua admiração são propostos”. Camões, sopesado e medido com o contemporâneo Jerónimo Corte-Real, não se furta aqui à pergunta inconveniente nem ao reparo: “o poema camoniano não deixa de dedicar bastantes versos medíocres a coisas olvidáveis, ou versos olvidáveis a coisas medíocres”. Hélio Alves, autor do fundamental “Camões, Corte-Real e o sistema da epopeia Quinhentista” (2001) no seu melhor; o leitor devoto agradece.

Há ensaios neste livro que dispensam, além do argumento, a diabólica figura: a glória (a pior das incompreensões – Borges dixit) é desgraçadamente antecipada, como se fizessem subir o santo aos altares antes mesmo do cerimonial ter começado. São os menos interessantes.  Os melhores ensaios – de Pedro Mexia sobre Agustina, de Abel Barros Baptista sobre Camilo e Júlio Dinis, de Joana Meirim sobre Jorge de Sena, de Hélio J.S. Alves sobre Camões ou o Barroco  –  não abdicam da figura do cardeal Diabo. Pedro Mexia é insuperável no modo adversarial de ser cânone, oferecendo, para Agustina, um cardápio de expectativas frustradas, tão capaz de moderar apetites de leitura como de os espevitar.   

De “O Cânone” poder-se-ia dizer o mesmo que do  poema épico de Camões: não é apenas um lugar de proezas, magnimidades e hossanas, como, aliás,  demonstra João Figueiredo, que ali  descanoniza a figura de Vasco da Gama, surgido como uma espécie de despojo do que já foi nos antigos livros de história. É também lugar de reparo, decepção, crítica lúcida, ralhete, frontalidade feroz. E até de pulsão sarcástica. O texto de Miguel Tamen dedicado aos críticos faz prova disso mesmo. João Gaspar Simões e Eduardo Prado Coelho, depois de passados pelas mãos de um vigoroso cardeal diabo que não se cansasse de o ser, poderiam dizer o mesmo que o Romeiro de Garrett: “Ninguém.” Ora, como consta de outro dito alemão, “não se corta o galho em que se está sentado”.  

Outra boa ideia dos organizadores do volume parece ser a que põe em marcha a  descanonização de especialistas que têm da literatura uma concepção muito própria: um vasto domínio dividido em leiras, ou canteirinhos, com cercas à volta, espécie de feudos (e ai de quem se lembre de os galgar, entrando assim em propriedade privada). “O Cânone” despenteia o organograma do país crítico-literário. Nele comparece o Herberto Helder de Rosa Maria Martelo, O Nemésio de Rita Patrício  – é certo –, mas não o Eça de Queirós de Carlos Reis, o Jorge de Sena de Jorge Fazenda Lourenço, o Régio de Eugénio Lisboa, o Raúl Brandão de Vítor Viçoso (o que já não é pouco), por vezes entregues ao leitor com a confiança de quem conhece bem os cantos à casa e a percorre, familiarmente, usando das mesmas passadas, do mesmo ângulo de iluminação, do mesmo idioma crítico.   

A avaliar pelos indicativos de vendas fornecidos pelo mercado livreiro, que o deu, em certos lugares, no Top Não-Ficção, têm sido alguns os leitores interessados n' “O Cânone”. Justo prémio para uma colectânea de ensaios críticos de qualidade onde se tenta romper uma teia de lugares-comuns. O do “escritor injustamente esquecido” é apenas um deles. Mas que os há, há.
 

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