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Nuno André 20/11/2020
Nuno André

opiniao@ionline.pt

Cale-se, senhor ministro

Não pagamos aos nossos políticos para falarem, mas para decidirem. Não lhes exigimos perfeição, mas ação.

Depois de uma longa ausência, cheguei a casa com saudades dos meus e com muita vontade de os abraçar – a todos de uma vez. Era de noite, chovia, fazia frio, e como todos sabemos, não há nada melhor do que o aconchego do lar para nos sentirmos bem.

Porém, enquanto se desenrolava esta cena cinematográfica, digna de um episódio romântico, ouvia-se em segundo plano vozes estridentes e esganiçadas de homens e mulheres. Acusavam-se, irritavam-se, atropelavam-se. Lutavam como se estivessem a esforçar-se para sobreviver. Falavam de política. Eram políticos. Calei-os. Bendito comando.

O silêncio e o sorriso são dois instrumentos poderosos. Um, o sorriso, só por si pode ser uma maneira de resolver muitos problemas, e o outro, o silêncio, uma forma de evitar muitos deles.

Acontece que o silêncio também nos diz coisas, mas nem sempre sabemos ouvi-las.

Se, por um lado, quem muito fala pouco acerta, a arte de bem falar resume-se à eficácia das palavras, que devem ser muito bem utilizadas por quem delas depende. Tanto se fala e tanto se diz que à nossa volta, por vezes, vivemos um ambiente ensurdecedor que não propicia o entendimento.

Mas estaremos nós preparados para o silêncio? Creio que nem todos. Habituámo-nos a ouvir o som da televisão ao chegar a casa de alguém. “É uma companhia”, dizem. Mais vale só. Por outro lado, quando entramos num mosteiro ou num templo, reina a ausência de barulho. Sempre assim foi. Estes espaços sagrados reservam-nos encontros e permitem a introspeção e o pensamento livre. Talvez seja aí que resida o encontro com o transcendente, perante o qual o nosso silêncio é a forma de falar quando as palavras nos falham. No silêncio fala-nos Deus, fala-nos a nossa consciência e fala cada um de si para consigo.

Na Assembleia da República, a turbulência política vivida durante os debates no hemiciclo contrasta com este silêncio de que vos falo hoje. Naquele mesmo lugar, enquanto ainda mosteiro beneditino, viveram-se momentos de paz, de serenidade, de encontro, de diálogo, de contemplação e silêncio. Porque assim foi, ideal seria que assim continuasse a ser – pelas máximas que representa e pelo serviço que deve prestar.

Gosto em especial dos minutos de silêncio que ali se fazem, não quando está sem gente, mas quando se impõe algo maior. Nesse momento, todos falam a mesma língua, sabendo, porém, que cada um a entende de forma diferente. Num verdadeiro caminho ascético, os nossos governantes deveriam exercitar o seu silêncio ao mesmo tempo que o ato de fazer. Não lhes pagamos para falarem, mas para decidirem. Não lhes exigimos perfeição, mas ação. Não queremos desculpas, mas exemplos. Talvez por isso nos faltem estadistas. Talvez por isso continuemos à espera de um D. Sebastião… porém, em vez do regresso do rei, aguardemos a chegada da integridade. Por isso, proponho que eduquemos os futuros políticos para a aprendizagem do silêncio. O seu e o dos que os rodeiam.

Por tudo isto, cale-se, senhor ministro!

Professor e investigador

 


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