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Medidas mais duras nos concelhos em pior situação e feriados sem deslocações

Medidas mais duras nos concelhos em pior situação e feriados sem deslocações

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 20/11/2020 08:53

Reunião de peritos traçou cenário difícil para as próximas semanas. Controlar a epidemia não será um processo rápido e restrições terão de manter-se mesmo ultrapassado o pico de casos, alertaram especialistas. Concelhos com pior situação devem manter recolher obrigatório. Novo estado de emergência prevê interdição de deslocações e fecho total ou parcial de serviços e empresas.

Medidas mais duras e adaptadas à realidade local nos concelhos ou zonas do país com maior transmissão da infeção e vigilância permanente da evolução da epidemia, para atuar de forma preventiva – o caminho foi apontado ontem na reunião de peritos no Infarmed, bem como o cenário: com os atuais níveis de mobilidade, não é certo que o país consiga esmagar a curva de casos e, mantendo-se o atual nível de diagnósticos, que deverão passar os 7 mil casos diários nos próximos dias, a pressão sobre os hospitais coloca a resposta à população em linhas vermelhas, estando os cuidados intensivos, nomeadamente na região Norte, numa situação próxima da rutura.

O pico de casos e essa subida para um patamar de uma média diária semanal superior a 7 mil novas infeções (nos últimos 7 dias foram 6400) é esperado na próxima semana, prevendo-se uma estabilização. Para haver uma descida, o R tem tendencialmente de ficar abaixo de 1, o que implicará maior redução de contactos e controlo de contágios. Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Ricardo Jorge, referiu no encontro a necessidade de uma diminuição na casa dos 60% face aos valores pré-pandemia para o R ficar abaixo de 1. Nas últimas semanas tem rondado os -30%. Já os relatórios de mobilidade da Google, atualizados ontem já com dados do último domingo, em que vigorou o recolher obrigatório, mostram uma redução significativa, com a circulação associada a zonas de comércio e lazer com uma redução de 57% face ao que era habitual antes da pandemia, o que já não acontecia desde o desconfinamento. Também nas zonas de lazer ao ar livre, como parques, houve uma quebra de 56%, maior que nos fins de semana anteriores. Não há ainda, no entanto, dados que mostrem a esta altura se nesta segunda semana de estado de emergência, que abrange 8,5 milhões de portugueses em 191 concelhos com maior incidência, se reduziu a mobilidade, que no caso dos locais de trabalho tem sido de cerca de -20%.

Concelhos mais divididos, decisões só quando o Governo as tomar

Ao longo da semana, na sequência de reuniões entre partidos e Presidente da República, foram tornados públicos vários cenários, mas o Executivo esclareceu ontem que até aqui não foram tomadas quaisquer decisões, considerando mesmo que, antes disso acontecer, qualquer anúncio é “pura especulação”. O Conselho de Ministros reúne-se esta sexta-feira, Marcelo já fez saber que também esta sexta-feira falará, à noite, ao país, e o anúncio das medidas foi apontado para sábado. Segundo o i apurou, a estratégia de dividir os concelhos em três patamares de risco, definindo medidas diferentes para os que registam uma incidência cumulativa a 14 dias entre 240 e 480 casos por 100 mil habitantes, para os que estão entre os 480 e os 960 e para os que estão acima deste patamar, é o cenário que tem estado a ser trabalhado.

Quanto às medidas em si, o decreto que renova o estado de emergência, enviado ontem pelo Presidente da República ao Parlamento, vai mais longe do que o que vigorou estes 15 dias. Prevê que nos concelhos com maior risco, ou grupos de concelhos, se mantenham restrições como a proibição de circulação na via pública durante determinados períodos do dia ou determinados dias da semana (o que até aqui foi imposto à noite e ao fim de semana), bem como a interdição das deslocações não justificadas. Um dos cenários em cima da mesa é uma nova interdição de deslocações entre concelhos nos fins de semana prolongados de dezembro, e esta renovação do estado de emergência, que entra em vigor na segunda-feira, abrange já os feriados de 1 e 8 de dezembro, que este ano calham à terça-feira. As interdições terão, no entanto, de salvaguardar o acesso a cuidados de saúde, a escolas ou assistência a familiares, como aconteceu pela última vez no fim de semana de Finados. O decreto prevê, agora, também situações de confinamento compulsivo de pessoas infetadas ou em vigilância “em estabelecimento de saúde, no domicílio ou, não sendo aí possível, noutro local definido pelas autoridades competentes”.

O diploma, que será votado esta sexta-feira na Assembleia da República, prevê também que as autoridades competentes possam mandar fechar, total ou parcialmente, serviços e empresas ou fazer novas adaptações de horários. Um estudo apresentado por Henrique Barros apontou, por exemplo, para maior probabilidade de contágio em ginásios e no trabalho presencial, mas também para o risco entre quem vive em casas lotadas, o que pode fazer perceber em que situações o confinamento poderá acontecer noutras estruturas.

Como aconteceu há duas semanas, será o Governo a avaliar os diferentes contributos, a decidir e concretizar as medidas e a dizer o que se aplica, quando e onde e com que objetivos. Um dos dados transmitidos na semana passada foi, no entanto, ontem esclarecido de vez na reunião: na maioria dos casos recentes, 80%, não se conhece onde ocorreu a infeção. Em apenas 18% dos casos foi estabelecida ligação epidemiológica e é nesta minoria sobre a qual existe informação que se determinou que 60% das infeções acontecem em convívio social ou familiar, o argumento usado pelo Governo para impor restrições a partir da hora de almoço ao fim de semana.

E depois do pico? Peritos não descartam nova vaga se medidas forem levantadas

No encontro no Infarmed, Marcelo questionou os especialistas sobre se, depois deste pico, é previsível outro e se as medidas agora tomadas terão de manter-se. Manuel Carmo Gomes, epidemiologista, respondeu que tudo dependerá das medidas que vierem a ser tomadas daqui para a frente. O investigador afastou o cenário de um novo confinamento geral como o que se viveu em março, afirmando, no entanto, não ver alternativa à atual estratégia de medidas diferenciadas, sublinhando que terão de manter-se nos próximos meses. “Se haverá outro pico em janeiro e fevereiro? A nossa projeção é que vamos atingir um pico entre finais deste mês e o início do mês que vem. Se mantivermos a pressão, o R virá para baixo de 1. Depois, tudo dependerá do que fizermos. Como já vimos, o R está sempre preparado para disparar por aí acima. Depende de nós se vamos ter ou não um pico em janeiro ou fevereiro”, afirmou. João Gouveia, coordenador da resposta de cuidados intensivos, defendeu a necessidade de travar a expansão do vírus pela perturbação que está a gerar nos cuidados de saúde, agora a terem de suspender atividade não urgente para aumentar zonas de internamento e UCI. “Estou convencido de que vai haver uma terceira e quarta ondas. E não podemos manter o tipo de expansão reativo porque não é compatível com a atividade médica normal”, afirmou.

Portugal agora com uma das situações mais críticas na UE e já o dobro das mortes de outubro

Sem caminhos fechados ou fáceis, Portugal termina a semana agora cada vez mais a vermelho entre os países europeus onde se vive uma situação epidemiológica mais intensa. Ontem, nas tabelas do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC na sigla inglesa), já tinha passado do décimo para o oitavo lugar entre os países com maior incidência cumulativa, depois de alguns países já terem atingido um pico de casos e registarem um abrandamento. O país deverá passar hoje a barreira dos 800 casos por 100 mil habitantes, com mais de 80 mil casos reportados nos últimos 14 dias. Na região Norte, com 49 mil diagnósticos neste período, a incidência supera os 1300 casos por 100 mil habitantes, o dobro do que se viveu na região de Lisboa, a segunda mais afetada no país. Desde o início do mês morreram no país 1157 pessoas infetadas com o SARS-CoV-2, já mais do dobro do mês de outubro.

 

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