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Luís Newton 19/11/2020
Luís Newton

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O "Calma" e as três fraudes nos Açores

Há barreiras que um social-democrata português nunca poderá transpor, por isso significar que, então, deixa de o ser.

Não conheço pessoalmente José Manuel Bolieiro, mas tenho sido um atento espetador do seu enorme trabalho autárquico em Ponta Delgada, onde tem provado o impacto que um bom autarca tem no sucesso e na felicidade das suas populações.

Todos devemos estar disponíveis para aprender com bons exemplos e eu tenho tirado boas notas dos exemplos do seu trabalho.

Por isso, fico muito incomodado quando vejo que procuram diminuir a importância do seu resultado eleitoral nos Açores.

E por causa dos resultados dessas eleições temos assistido a um conjunto de fraudes comunicacionais que os tentam pôr em causa, mas que também poderiam pôr em causa valores e princípios da social-democracia portuguesa.

Sobre isso, sobre o que se passou nos Açores, o que o PSD tem de dizer é muito simples: 2015 e 2020 têm uma coisa igual e uma completamente diferente.

É igual o facto de que o partido mais votado não é o que forma Governo. Devemos isso ao Partido Socialista e a António Costa.

Por isso, o PS chora lágrimas de crocodilo. Está a comer o pão que ele próprio amassou.

Porém, muito diferente é o facto de que, em 2015, o PS fez um acordo com a extrema-esquerda onde teve de incluir um conjunto de exigências no seu Orçamento e no seu programa de governo (o PS fez um pacto com quem defende a saída de Portugal da UE e da NATO – o garante da integridade de Portugal no mundo).

Já o PSD não aceitou a integração de medidas da extrema-direita que não constassem do seu próprio programa.

E aqui reside a primeira fraude: a política portuguesa já não se divide somente entre esquerda e direita, mas também entre moderados e extremistas. Entre quem quer fazer evoluir o país e quem só pretende instar a revoluções.

E, nos Açores, o PSD governa com o CDS e o PPM.

Depois vieram as declarações claríssimas de Rui Rio, em que afirmou que não iria fazer nenhum acordo nacional com o Chega, deixando este entre a espada e a parede: ou chumbava um Governo que reunia todo o centro-direita e ficava com o ónus de devolver o poder à esquerda, ou encontrava uma hipérbole comunicacional para salvar a face.

E esta última colou, não tanto por mérito do Chega, mas porque, por um lado, o PS quis desclassificar a vitória de Bolieiro atribuindo-a a um pacto com um “diabo”, e, por outro, porque o PSD, como sempre, não foi eficaz comunicacionalmente.

E aqui está a essência da segunda fraude dos Açores, que é a (eterna) fraude comunicacional do PSD. Um partido que quer governar não pode ser obliterado pelo mais básico dos spins.

E, por fim, temos a terceira fraude, lançada por muitos no PSD e que, na sua essência, se pode reduzir a uma ininteligível tentativa de racionalizar o grotesco.

Há barreiras que um social-democrata português nunca poderá transpor, por isso significar que, então, deixa de o ser.

A ideia de que se pode fazer um acordo com um partido que tem como objetivo primeiro a destruição do sistema cocriado pelo PSD (nas palavras de André Ventura, “nós sempre dissemos ao que vínhamos”) só pode vir de quem não aprendeu com os erros de Victor Emmanuel iii ou de Franz von Papen.

Mas, para os mais distraídos, isto é muito simples… se o Chega se moderar, se se tornar “fofinho”, deixa de ser o Chega.

Se o leitor não se sentir à vontade para fazer especulação de ciência política, basta-lhe ler o seguinte em voz alta: “moderação do Chega”.

Quando é que haverá alguma moderação num partido que é um grito de guerra?

Por isso, sinto obrigação de tranquilizar Portugal ao centro.

Só poderão existir negociações com o Chega quando este passar a chamar-se “Calma”.

 

Presidente da concelhia do PSD/Lisboa e presidente da Junta de Freguesia da Estrela

 


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