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Joana Mortágua 19/11/2020
Joana Mortágua
Cronista

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JMT, Liberal sem princípio

Na cabeça de João Miguel Tavares o desemprego, a pobreza e a miséria provocadas pela austeridade foram apenas uma desculpa da esquerda para caricaturar Pedro Passos Coelho e a Europa foi frouxa por não o aguentar nem que fosse à bruta. Foram vencidos.

Convergência pode ser uma palavra enganadora. Em sentido figurado, o dicionário diz-nos que significa “a tendência de várias coisas para se fixarem num ponto ou se identificarem”. Em política costuma ser bem vista - e demasiadas vezes apresentada acriticamente como solução mágica -, a “convergência das esquerdas” ou “das direitas” é bola de arremesso na análise política ao estilo mais infantil que faz da governabilidade uma questão de aritmética. Quando esse fetiche toma conta das cabeças políticas arrasa os programas e as convicções em nome do poder, a convergência transforma-se em capitulação. Vender a alma ao diabo não pressupõe a possibilidade de a comprar de volta.

João Miguel Tavares está neste último grupo que, de acordo com o dicionário, possui uma “elasticidade de consciência que põe de acordo a conveniência com o dever.” Depois de ter defendido como abjeções equiparadas a jornada de trabalho de 35 horas e a castração química de pedófilos para justificar a sua escolha de “mal menor”, JMT fez do seu último artigo um manifesto de rendição da direita liberal à extrema-direita. A razão? Na cabeça de JMT o desemprego, a pobreza e a miséria provocadas pela austeridade foram apenas uma desculpa da esquerda para caricaturar Pedro Passos Coelho e a Europa foi frouxa por não o aguentar nem que fosse à bruta. Foram vencidos.

JMT quer a direita no poder. O problema é que a Iniciativa Liberal tem 1% e JMT não tem ideias sobre como se convencem os outros 99% das virtudes do liberalismo, e o PSD e no CDS não dão aos liberais o que destaque que merecem. Olhando à volta, e seguindo o exercício do mal menor, a única forma da direita chegar ao poder é passar para o lado de lá do cordão sanitário que as forças políticas democráticas levantaram à volta das extrema-direita para proteger a democracia. Atenção, JMT sabe que “os argumentos [do manifesto A Clareza que Defendemos – a favor do cordão sanitário] são perfeitamente defensáveis” mas infelizmente “são absolutamente inúteis para construção de um projeto de poder” e portanto são descartáveis. JMT tem os seus princípios mas se esses não servirem para alcançar o poder, arranja outros.

“Ah, mas JMT não foi o primeiro a fazê-lo”. Absolutamente verdade, não teve nem o mérito da ingenuidade. Como Manuel Loff lembrou, há 50 anos que a direita dita democrática apanha essa boleia quando o poder lhe foge. Começam por ir à procura de fatores de “governabilidade” e acabam a dar palmadinhas nas costas a (estas, sim) abjeções como Trump e Bolsonaro. JMT não só não é o primeiro como não aprendeu nada com os que vieram antes dele e faz-se ao caminho no contratempo da história, tal não é a pressa.

Esta fraqueza não é exclusiva dos liberais mas não contagia toda a direita. Apesar das suas lideranças, há na direita quem entenda que está em causa um ataque ao paradigma de Direitos Humanos e de democracia, tantas vezes chamada de liberal, do pós Segunda Guerra Mundial. Como Pacheco Pereira, Freitas do Amaral e outros por cá, também Merkel percebeu a diferença entre convergência e capitulação: é uma questão de princípio.

Como o acordo dos Açores mostra, não é no programa económico que se encontram as divergências que precisam de conciliação, a direita só converge com a extrema-direita se ceder sobre Direitos Humanos e concordar com políticas anti-sociais e de violência de classe. 33% dos beneficiários de RSI nos Açores são crianças e jovens, haverá sinal mais forte do que esse?

Na tese do mal menor, a escolha de JMT aproxima os vencidos da direita liberal ao niilismo diletante dos vencidos da vida. João Miguel Tavares pertence a uma direita sem princípio, que pelo mundo fora se provou mais água suja do que democracia.

 

Deputada do Bloco de Esquerda

 


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