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Eduardo Oliveira e Silva 18/11/2020
Eduardo Oliveira e Silva

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O trampolim político

Quase se falou mais do Chega do que da pandemia e do Orçamento, o que deu jeito a António Costa e a André Ventura.

1. Os portugueses voltaram a mostrar boa capacidade de autodefesa perante o vírus da covid e o seu dramático alastramento, que já nos coloca nos países mais atingidos pelo flagelo. Aceitaram as titubeantes instruções de confinamento do Governo. Fizeram a sua parte, assumindo, no fundo, que coletivamente não temos tido capacidade de resposta. Os protestos pontuais são justificados porque os apoios prometidos não passam de anúncios e proclamações que nem sempre chegam ao terreno ou são insuficientes. Nas manhãs de sábado e domingo houve excesso de concentração humana em certas lojas, nomeadamente supermercados e locais públicos aprazíveis. Foi perigoso. Mesmo assim, a tendência nacional foi: a saúde está primeiro. No fim de semana que vem repete-se a estratégia de confinamento para tentar achatar a curva ascendente, estando a rutura a verificar-se em muitas áreas da saúde pública e privada, colocando-nos na cauda da Europa comunitária e atrás de países que aderiram recentemente. O próprio António Costa reconheceu o facto numa recente entrevista que deveria envergonhá-lo a ele e a quem governou o país nos últimos 20 anos.

2. Pelo que se está a ver há um claro falhanço na capacidade de vacinar contra a gripe toda a gente que precisa ou quer. O caso é gravíssimo e mostra mais uma vez a incapacidade do sistema montado. Há uma óbvia responsável política: a ministra Marta Temido e a sua equipa, nomeadamente a Direção-Geral da Saúde. Perante este quadro, é legítimo temer o pior relativamente à futura vacina contra a covid. Países como a Alemanha, a França, os escandinavos e os Estados Unidos já têm planos organizados, com as prioridades e os locais de ministração definidos. Cá, ainda não houve sequer uma reunião formal do órgão criado para o efeito e nada se sabe da metodologia e da logística. Fica a nota para que depois não se possa invocar que a vacina chegou mais cedo do que esperávamos, como disse, com o maior desplante, o primeiro-ministro sobre esta segunda vaga pandémica.

3. Enquanto a doença alastra e mata cada vez mais pessoas, o país da política e dos comentadores discute um pacto feito com o Chega nos Açores para o PSD e os seus parceiros locais de coligação conseguirem formar Governo. Nada melhor para António Costa, que viu desaparecer da ordem do dia as graves falhas no ataque à pandemia, a catástrofe económica e a negociação debaixo da mesa que está a fazer por causa do Orçamento. Nem de encomenda!

Sabe-se que o acordo PSD/Chega foi negociado em Lisboa entre Rui Rio e Adão Silva com André Ventura, num processo que tem exatamente a mesma legitimidade democrática que aquele que, a nível nacional, foi estabelecido à esquerda pelo PS ao constituir a geringonça, com o PCP e com o Bloco, que não são propriamente modelos de democracia. Com a ressalva de que o PCP é credor de especial respeito pelo seu papel no derrube do Estado Novo, ficando mesmo assim por explicar a participação dos seus militantes na guerra colonial.

Basicamente, a polémica e a mediatização da questão dos Açores servem para André Ventura atingir os píncaros da sua popularidade e mostrar que o Chega pode ser um voto útil nas autárquicas e, mais à frente, nas legislativas, enquanto as presidenciais servirão para promover o produto. Para Ventura, o barulho à sua volta é um trampolim político igual ao que projetou Louçã, dando-lhe uma visibilidade que lhe permitiu federar radicais de esquerda numa agremiação aparentemente democrática.

4. Ao contrário do que aconteceu nos anos 80 com o PRD e, mais recentemente, com o Bloco de Esquerda, que cresceram com o apoio de grande parte da classe jornalística, o Chega é por ela abertamente hostilizado. Fala-se tanto de um partido que tem apenas um deputado nacional que acaba por ser um contributo precioso para a sua implantação. Ventura multiplica intervenções contraditórias e centra o seu discurso em temas muito concretos como a questão da minoria cigana, a permissividade de apoios sociais desnecessários, as más leis e o excesso de classe política. Nada muito diferente do que há anos proclamava Paulo Portas quando converteu o CDS em PP, até que se moderou. Até por isso, o PSD não precisava de fazer um acordo com o Chega para governar nos Açores. Bastava confrontar os deputados regionais do Chega com as suas responsabilidades. Ao procurar um entendimento formal com Ventura, Rio perdeu mais a prazo do que ganhou pontualmente. Colocado o assunto em letra de forma, o PSD tem mesmo de resolver internamente o seu posicionamento, num sentido ou noutro.

5. Morreu Artur Portela, Filho. As suas crónicas antes e depois do 25 de Abril foram de uma desassombrada coragem democrática. Diretor do Jornal Novo após a revolução e, mais tarde, da Opção (já noutro registo), combateu e deu oportunidade, com José Sasportes e Torcato da Luz, a novos e bons jornalistas que ainda hoje aí andam, já na condição de veteranos. Escritor inspirado pelo nouveau roman, foi um cidadão de corpo inteiro. Um daqueles que honram uma República porque não se vergam, porque não aceitam e porque não têm só qualidades. Uma rara nota pessoal: juntamente com o jornalista Adriano Oliveira, colaborei no Jornal Novo com reportagens que Portela publicou regularmente. Aceitou escrever no i, pro bono, quando o convidei. Deixou de o fazer quando saí do cargo, quando podia ter ficado. Infelizmente, foi mais uma vítima da maldita covid. Tal como o seu pai, merece ser perpetuado.

Jornalista

 


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