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O sapato perdido de Maria Antonieta

O sapato perdido de Maria Antonieta

SOL 17/11/2020 23:05

Um sapato de pele de cabra e seda que pertenceu à mal-amada rainha consorte de Luís XVI foi arrematado em leilão por um valor quatro vezes superior ao esperado.

De Maria Antonieta nunca teve França boa ideia. Dizia-se que gastava, em demasia, e chamavam-lhe mesmo “l’autre-chienne” (de autrichienne, ‘austríaca’, ou autre-chienne, ‘a outra cadela’). A sua imagem tão marcada na sociedade francesa do século XVIII fez com que a história chegasse a retratá-la como bode expiatório para o mal que terá dado origem à Revolução Francesa, teoria que não reúne hoje consenso. Mais ou menos demonizada, sobre Maria Antonieta há também factos: por exemplo, que tinha o pé pequeno. No tempo em que os sapatos se fariam por medida, pelo menos, aqueles que tinham como destino calçar a rainha consorte francesa, um dos seus modelos não mediria mais do que 22 centímetros e meio. A prova é a medida do sapato, apenas um, sem par, levado a leilão no passado domingo pela leiloeira Osenat, em Versalhes.

Um sapato desemparelhado branco de pele de cabra e seda que não equivaleria a mais do que um tamanho 36 e que, apesar do notório desgaste, atravessou os séculos para ser agora leiloado pelo inesperado valor de 43750 euros. Esperava-se que o sapato fosse arrematado por 8 ou 10 mil euros, mas o interesse internacional gerado pelo artefacto histórico fez disparar o valor.

Trata-se afinal de um sapato pré-Revolução Francesa. Depois daquela que ficou conhecida como a fuga de Varennes, a tentativa de fuga de Luís XVI com a sua família que terminaria com a sua deposição e a abolição da monarquia francesa, a 21 de setembro de 1792, com o trágico desfecho para ambos. Ele seria executado logo no início de 1793; ela esperaria nove meses em cativeiro até, condenada por traição, ter sido guilhotinada a 16 de outubro do mesmo ano.

 O leilão de um sapato desemparelhado não surpreende. Um sapato branco, a exata cor de que decidiu vestir para a sua execução depois de lhe ter sido negado o pedido para se vestir de preto, em luto pelo marido, com quem se havia casado com apenas 14 anos. Chegava ao fim a história da arquiduquesa austríaca tornada rainha consorte francesa - a última rainha que conheceu França. Entre pertences seus a serem leiloados contam-se objetos tão surpreendentes como um pedaço de um vestido de seda que integrava o seu guarda-roupa antes de ter sido feita prisioneira, em 2012, ano em que também um par de sapatos (nesse caso, o par) foi arrematado por 50 mil euros - valor que também na altura surpreendeu a leiloeira, que estimava que não ultrapassasse os 10 mil.

Nessa altura, como agora, o número de licitadores interessados surpreendeu, e talvez Maria Antonieta tenha conquistado com o passar dos séculos um lugar de ícone incontornável da cultura pop. História diferente é a da vez em que um pendente com uma pérola e diamantes que havia pertencido à rainha consorte de Luís XVI foi em 2018, num momento histórico, leiloado em Genebra por perto de 32 milhões de euros, valor que ultrapassava largamente o então recorde de 10,5 milhões de euros pelo qual tinha sido arrematado anos antes um colar que havia pertencido a Elizabeth Taylor.

Sem mais joias, sobra por ora um sapato, mesmo que desemparelhado. Dizia em 2012, altura pela qual havia sido leiloado aquele outro par de sapatos, à BBC Cyrille Boulay, especialista em leilões de artefactos históricos: “É obviamente raro encontrar-se objetos que pertenceram à rainha, particularmente vestidos ou outros mais íntimos”.

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