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Alkantara. Um festival à procura de respostas

Alkantara. Um festival à procura de respostas

jornal i 13/11/2020 22:16

Com horários reajustados por força das novas restrições do combate à pandemia, mas mantendo o programa nos moldes em que estava desenhado, o Alkantara arranca hoje e prolonga-se até ao fim do mês, em Lisboa, numa edição em que Carla Nobre Sousa e David Cabecinha, os novos diretores artísticos do festival, se propõem a, contrariamente ao chavão sobre o papel da arte – fazer perguntas –, ir mais além, à procura de respostas, acreditando que “o potencial da arte não está nas perguntas que faz, mas nas respostas que encontra”.

Heading Against the Wall

A partir do Lux, em Lisboa (como parte da programação do Teatro do Bairro Alto no clube de Santa Apolónia), ou a partir de casa, em qualquer lugar, Heading Against The Wall, uma criação da companhia Cão Solteiro com André Godinho que tem a sua estreia absoluta no dia de abertura deste Alkantara, é, a partir da premissa de que “quanto mais se descobre menos se sabe”, um “documentário sobre nada”. A partir da ideia de impossibilidade com que nos confrontou a pandemia, e questionando a relação entre os conceitos de proximidade e intimidade, um espetáculo originalmente pensado para duas versões distintas: uma ao vivo, outra online.

Cutlass Spring

Nesta primeira vez em que a coreógrafa e artista canadiana Dana Michel apresenta o seu trabalho em Portugal, traz-nos em estreia nacional Cutclass Spring. O espetáculo, descreve-o assim: “Cutclass Spring é o que o sexo pode significar para mim neste momento”. E explica: “Deambularei dentro de uma questão: como posso identificar a minha identidade sexual no seio de uma multiplicidade de identidades complementares e aparentemente contraditórias – enquanto intérprete, mãe, filha, amante, estranha? Traçarei uma educação sexual – com todas as suas encarnações, fabricações e dissociações. Seguirei essa trajetória até à forma menos explícita de pornografia, para descobrir o que refreio e o que torno explícito”.

Luz, Clarão, Fulgor

Não é um espetáculo, mas um filme. Um filme seguido de uma conversa com a realizadora, Sílvia das Fadas, e integrado no projeto Terra Batida, do qual se apresentam no Alkantara ainda projetos de Joana Levi, Maria Lúcia Cruz Correia e Vera Mantero, Ana Rita Teodoro, Rita Natálio e Marta Lança. Um filme em 16 mm a partir do legado anarquista de António Gonçalves Correia e das suas experiências na Comuna da Luz em Vale de Santiago, Odemira, entre 1917 e 1918, e na Comuna Clarão, em Albarraque, Sintra, em 1926. Luz, Clarão, Fulgor — Augúrios para um Enquadramento Não Hierárquico e Venturoso conta com o trabalho de composição sonora de Francisco Janes.

Grinding The Wind

Uma conferência-performance da autoria de Dina Mimi a apresentar em estreia absoluta no Teatro D. Maria II. Explica a artista visual palestiniana (que atualmente vive e trabalha em Amesterdão e mostra o seu trabalho pela primeira vez em Portugal) que Grinding The Wind é como uma investigação para a qual parte à história do seu bisavô, “um homem palestiniano que foi sujeito a testes médicos num hospital militar israelita em 1969”. Acontecimento que toma como ponto de partida para uma viagem por arquivos, história oral, livros – e sonhos. “Consciente de que o controlo do corpo está há muito no cerne do colonialismo, procuro compreender o declínio do meu avô ao silêncio e ao protesto, mesmo na morte”

L'Homme Rare

Nadia Beugré, coreógrafa originária da Costa do Marfim, é mais um dos nomes que o Alkantara traz pela primeira vez a Portugal. Consigo, Beugré traz, para mais, uma das estreias nacionais que compõem o programa L’Homme rare (o homem raro). Um espetáculo de dança que, com cinco homens em palco, com formação em diferentes estilos de dança, mas que se apresentarão sempre de costas, explora o constrangimento que surge quando os homens se movem de forma percecionada como feminina – “como se sacudir as nádegas ou balançar os quadris colocasse em risco a sua masculinidade duramente conquistada”.

Farci.E

Em farsi, língua materna do artista e performer iraniano Sorour Darabi, que vive e trabalha atualmente entre Paris e Berlim, o pronome que se traduz por “ele” ou “ela” não tem distinção. Chegado a França para estudar dança, Sorour Darabi deparou-se com essa questão e com os desafios que coloca: “Como pode uma pessoa que não se identifica com um único género falar sobre identidade numa língua que obriga constantemente à separação entre masculino e feminino?” Num palco com um dispositivo que permitiria a realização de uma conferência, Darabi entregar-nos-á um monólogo quase sem palavras. Apenas movimento como forma de linguagem de resistência.

Still Dance For Nothing

Apresentado em estreia absoluta, Still Dance for Nothing resulta da colaboração de Vânia Doutel Vaz com a artista, coreógrafa e intérprete Eszter Salamon. Still Dance for Nothing nasce de Dance for Nothing, espetáculo a solo de 2010 que Salamon criou a partir de Lecture on Nothing (1949), de John Cage, que se baseava na execução simultânea de duas partituras (uma coreográfica e uma textual-musical, em forma de dança-palestra) e da sua revisitação como parte de um processo que tem vindo a realizar de revisitação de espetáculos antigos, agora em colaboração com outros artistas.

Sexta-feira: O fim do mundo... ou então não

“Em 1947, alguns dos cientistas do Projeto Manhattan, que tinham acabado de inventar a bomba atómica, criaram, em resposta aos massacres de Hiroshima e Nagasaki e como alerta para a iminência do desterro nuclear, um relógio do fim do mundo, que marca o tempo que restaria para o apocalipse”. E será este um dos momentos em que ele parece bem próximo. Para Cláudia Dias, que neste Alkantara apresenta o quinto dos sete espetáculos de Sete Anos Sete Peças, iniciado já em 2016, estamos seguramente mais próximos da meia-noite. E talvez esse fim de mundo possa ser apenas luz verde para o início de um novo.

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