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Rubem Fonseca. Toda a hipocrisia desumana

Rubem Fonseca. Toda a hipocrisia desumana

Rita Homem de Mello 12/11/2020 15:41

Rubem Fonseca (1925-2020) é talvez o mais multifacetado dos escritores brasileiros da segunda metade do seculo XX. Galardoado com o Prémio Camões e o Prémio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, este foi um escritor que acima de tudo, soube com mestria refrescar a literatura brasileira da sua época.

Imprimiu nos seus contos, romances, novelas policiais e crónicas um cunho impiedoso, atilado e mordaz. Neles, o leitor vê-se diante uma análise detalhada e minuciosa do panorama urbano brasileiro. Melhor, o leitor vê-se indefeso, estarrecido e amedrontado dentro desse panorama. Geralmente são sempre cidades grandes, movimentadas, com prédios de altura a perder de vista, coberturas que contrastam com apartamentos de duas assoalhadas cuja paisagem esbarra na colina de betão do prédio em frente. São cidades entregues à ossada humana, ao desmoronamento, à misericórdia do colapso.

Nos seus livros o escritor encaminha-nos por becos ameaçadores, favelas imundas, sobrados vazios, ruas assustadoras, restaurantes macambúzios de comida a peso, gabinetes cinzentos, escuros, pouco arejados. Mas não é por isso que a sua escrita se torna imunda e pouco arejada. Não, nem por um momento, porque ao mesmo tempo ela é iluminada, poética e lírica, e em cada parágrafo o leitor vai beber sofregamente a uma nascente que flui por gravidade do real para a palavra sem que haja o mínimo desvio. Mas, essa ausência de desvio é precisamente o que lhe confere a veracidade e a lucidez plena que caraterizam a crueza do seu traço literário, porque só uma escrita radicada no real, na violência, nos silenciadores dos revolveres, na sobrevivência do mais forte, nos permite ir ao fundo dos seus escombros.

É uma escrita que presta reverência ao contexto social brasileiro, à corrupção, ao dinheiro fácil, ao tráfico, à prostituição, à máfia, mas o que tem muita graça é que o leitor está sempre impreterivelmente do lado do bandido, mas do bandido bom. Do bandido que rouba e assassina o Pai Natal, o paralítico, o pedófilo, mas que livra a criança indefesa do pior e enfia na mão da mãe o dinheiro suficiente para que ela nunca mais o perca de vista. É o bandido bom que mata o tipo da morgue que viola jovens cadáveres para depois de se satisfazer as atirar ao mar.

Pelas suas palavras, vemo-nos cercados por uma violência fluída, ininterrupta, desabrida, mas talvez por serem na maioria das vezes histórias vertiginosas e curtas, o leitor absorve-as avidamente como que aos solavancos, umas atrás das outras. Esta violência assim como o estado anárquico e esculhambado das personagens e da própria cidade chega por vezes a ser capaz de nos asfixiar, mas se nos asfixia também nos faz reconhece—lo em qualquer texto, porque a violência na sua obra é a tocha que ilumina o seu curso literário, o seu Brasil puxa ferro, embebido em surras e opacidade. E a contrastar com este timbre asfixiante e ameaçador está a poesia e o uso recorrente do latim. A poesia sim, só a poesia consegue vincar o fosso entre os dois hemisférios que Rubem Fonseca apresenta ao leitor, os assassinos e os assassinados, os que roubam e os que são roubados, os que violam e os que são violados, (p.52) «Os que engolem sapos e os que matam os sapos». Na verdade, esta é a condição primeira da sua obra, ou o leitor engole ou deixa-se engolir, sendo que nenhuma das duas opções é fácil.

Em O Seminarista, editado pela Sextante Editora, Rubem Fonseca narra a história de um assassino profissional, o Especialista, que a mando do seu chefe, o Despachante, mata sem escrúpulos quem tiver que matar. Este Especialista é um antigo seminarista, um homem culto, amante da poesia de Edna St. Vincent, Millay, Petrarca, Camões, Pessoa, Ferreira Gullar, Drummond, Bandeira, William Blake, Rilke, amante de mulheres e de Deus nenhum. (p.65) «Eu não queria descobrir Jesus, nem Maomé, nem Buda, nem javé nem nenhuma dessas figuras criadas pela mente alucinada dos seres humanos, mas não disse isso ao Despachante. Mas confesso que tinha a consciência pesada devido aos crimes que cometi. Se eu fosse religioso, arrependido como eu estava, bastava me confessar, rezar alguns padres-nossos e ave-marias que seria perdoado e tiraria aquele peso do meu coração. Delicto doleo, arrependo-me da minha falta, tentei lembrar uma conhecida frase latina de Cícero sobre arrependimento, mas não consegui.»

O Especialista, profusamente dotado em latim e história, é um homem que a certa altura dá pelo nome de José Kibir, numa alusão cómica aos antepassados portugueses. José Kibir é um profissional extremamente eficiente no que faz, e por isso nunca deixa rasto no circuito onde se movimenta, no país onde (p.73) «todo o pé rapado que ascende socialmente acaba aprendendo a jogar golfe, a andar a cavalo ou a escolher vinhos finos.» , no país onde (p.35) «Hoje qualquer bunda-suja tem cartão de crédito, e muitas vezes o bestalhão ou a bestalhona nem sabe ao certo a sua senha e fica um tempão enorme para pagar um pacote de biscoitos.»

Mas, o fluxo da ação desta história concentra-se no momento em que o narrador, este Especialista se quer ver resgatado do mundo do crime e não consegue. E é aí que o clímax acontece, ao ver-se impedido de se desenvencilhar da pandilha que o persegue, até o leitor se sente apavorado com o medo que será adivinhar uma Glock apontada à cabeça. 

Sempre atento a qualquer passo em falso, José, sem se dar conta deixa-se cair numa armadilha chamada Kirsten, uma mulher aparentemente normal, inofensiva, tradutora de Lima Barreto para o alemão, por quem ele perdidamente se apaixona. Mas, logo logo ele vai descobrir que essa mulher a quem lê Clarice Lispector antes de adormecer, é filha de outro “especialista”, só que nessa altura já será tarde demais.

Rubem Fonseca abre o seu livro com uma epígrafe de Vergílio Ferreira «Da minha língua, vê-se o mar.», excerto do texto A Voz do Mar (1991), mas da língua deste escritor também somos capazes de ver a Gávea, o Leblon, o Teatro Municipal, a Treze de Maio, os católicos da zona sul, os evangélicos da zona centro, os morros, os sebos carregados de livros, todos os camelos, a cidade maravilhosa. É por, o escritor que ganhou seis vezes o Prémio Jabuti, que tomamos como nossa a sua arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro, título que deu nome ao primeiro conto do seu Romance Negro E Outras Histórias.(Campo das Letras, p.16) «O Teatro Municipal anuncia uma récita de ópera para o dia seguinte, a opera tem entrado e saído de moda na cidade desde o início do século. Dois jovens escrevem com spray nas paredes do teatro que acabou de ser pintado  e exibe poucas obras de grafiteiro, NÓS OS SÁDICOS DO CACHIMBI TIRAMOS O CABASSO DO MUNICIPAL GRAFITEROS UNIDOS JAMIS SERÃO VENSIDOS; sob a frase, o logotipo-assinatura dos Sádicos, um pénis, que no principio causara estranheza aos estudiosos da grafitologia mas que já se sabe ser de porco com uma glande humana. “Hei”, diz Augusto para um dos jovens, “cabaço é com cedilha, vencidos não é com um s, e falta um i no grafiteiros.” O jovem responde, “Tio você entendeu o que a gente quer dizer, não entendeu?, então foda-se com suas regrinhas de merda.»

Como se pode ler, ninguém escapa à sua ironia canibal. Branco, negro, mulato, alpinistas socias, mendigos, padres, macumbeiros, carismáticos, prostitutas analfabetas, proxenetas, traficantes. Em tudo e em todo o lugar nas suas narrativas, não só há um espaço privilegiado para a sátira e para o mistério, como para o desmoronamento e é esse desmoronamento da cidade e de uma nação que é impresso tanto nesta curta narrativa como em O Seminarista ou em outras tantas novelas ou contos que facilmente serviriam como exemplo. Somos então capazes de constatar que não é somente pela ironia arguta que no seu âmago os seus enredos se cruzam, mas sim e também pela religião.

Se em O Seminarista José Kibir se mostra um descrente crónico, neste conto conhecemos Raimundo, um homem oriundo da pobreza extrema que graças ao dom da palavra se torna um prolifico vendedor e graças a isso, de um dia para o outro, do nada vira pastor, mas aum pastor que não se verá capaz de reunir o seu rebanho. (p.38) «Nossa Igreja precisa de dinheiro. Jesus precisa de dinheiro, sempre precisou. Você sabia que Jesus tinha um tesoureiro, Judas Isacariotes?» (…) «”O demónio tem ido à minha igreja”, diz Raimundo, e “desde que ele passou a ir à minha igreja os fiéis não fazem doações, nem mesmo pagam mais o dízimo”».

Entre a gargalhada e a tristeza, entre os morros e os passeios das ruas onde os sem abrigo sobrevivem, o leitor vai a pouco e pouco assimilando que é sempre pela religião que Rubem Fonseca abre fundas as valas onde deposita os falsos e conturbados moralismos, censuras, toda a hipocrisia desumana, mesmo afirmando que «O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude.» E não se choque o leitor nunca com a sua linguagem, porque se esta se afigura delinquente, é apenas porque também é delinquente e promíscua a sociedade, a escória e a ralé que as suas palavras comungam, se bem que, delinquência na sua escrita é pura exatidão.

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