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Carlos Gouveia Martins 12/11/2020
Carlos Gouveia Martins

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Pensar o Futuro com olhos no passado: A Silver Economy

Vivemos tempos novos, mas há algo que não é recente aos olhos dos números: Na Europa de 2060, um em cada três habitantes terá mais de 65 anos. Mas, não é só no nosso “Velho Continente” europeu, o aumento da esperança média de vida e a inversão da pirâmide demográfica que vivemos será uma tendência também no resto dos países desenvolvidos de vários continentes, excetuando o continente africano que não vive este rumo.

E Portugal, sabemos onde está neste campeonato? É o 4º país mais envelhecido do Mundo. Será que nós portugueses sabemos isso? Sim, é um facto. 21,8% da nossa população total tem mais de 65 anos e essa matemática deixa-nos apenas atrás do Japão (28,2%), Itália (22,8%) e Finlândia (21,9%).

Este aumento estatístico não deve ser analisado meramente como um facto negativo, é sinónimo clínico de um Mundo bem mais positivo até. Se pensarmos que o fantástico aumento da esperança média de vida nas últimas décadas é sinal de várias melhorias, seja a melhoria na inovação científica, a melhor prestação de cuidados de saúde, os mais avançados sistemas de investigação clínica e ainda os mais capacitados profissionais de saúde, temos aí o “Mundo mais positivo” que referia.

Hoje, as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS) dizem-nos que em 2020 vivemos em média 72,5 anos — são 20 anos a mais do que em 1960! — e que a população total de pessoas com idades superiores a 60 terá duplicado em 2050 comparativamente ao ano 2000.

Em Portugal, a esperança média de vida cifra-se nos 82 anos aproximadamente.

Há consequências? Claro. A consequência mais debatida reside na maior longevidade, unida à redução evidente e global da natalidade, é o “inverno demográfico” com a inversão da pirâmide. Este facto significa que a cada contagem estatística há mais idosos e menos jovens no nosso Planeta, algo que se pôde constatar em 2018 com um facto nunca vivido: Pela primeira vez na história, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), haviam mais pessoas com mais de 65 anos do que crianças com menos de 5 anos nos quase 8 mil milhões de pessoas deste planeta.

Pensemos em Portugal: Em 1981 existiam 45 idosos por cada 100 jovens e em 2016 existiam 149 idosos por cada 100 jovens. Por sua vez, e muito importante para a sustentabilidade económica do país, em 1981 existiam 18 idosos por cada 100 pessoas em idade ativa e em 2016 existiam 32 idosos por cada 100 pessoas em idade ativa. Em 2050 existirão 67 idosos por cada 100 pessoas em idade ativa. Percebemos?

Mas como devemos olhar para o futuro que reside nos que nasceram mais no passado? É a chamada Silver Economy ou, se quisermos descomplicar, a Economia prateada ou grisalha. Pensemos em números, quem são os “grisalhos”? São os baby boomers, são pessoas nascidas entre 1935 e 1960. São aqueles que cresceram num mundo de pós-guerra, os que construíram em Portugal o 25 de abril de 1974, os que fizeram o nosso país entrar em 1986 na Comunidade Europeia, mas também no Mundo os que saíram às ruas francesas no Maio de 1968 e ainda os alemães que derrubaram o muro de Berlim em 1989. Esses, os baby boomers, são os que hoje governam o Mundo e gerem a nossa Economia global. São o foco da Economia Prateada ou Grisalha.

A Silver Economy inclui, em quem a tem estudado e projetado, toda a economia gerada, produtos e serviços que visem responder às ambições e necessidades das pessoas com mais de 50 anos. O conceito, temporalmente, surgiu inicialmente no Japão durante os anos 70 e vinha sustentar uma resposta política ao país com maior percentagem de pessoas com idades superiores a 65 anos no Mundo. Tal como no defenderam no Japão há meio século, hoje este conceito de economia abrange tudo, da Saúde ao Turismo.

Porém, e com o empurrão do upgrade tecnológico e digital que a COVID-19 nos deixará após 2020, há um foco especial para a resposta à Silver Economy: A transformação digital na Saúde.

Os algoritmos associados à Inteligência Artificial, o eHealth (que agrega as TeleConsultas, a TeleMedicina e a TeleMonitorização, entre outras formas de assistência clínica remota), e ainda as Smart Cities ou portuguesmente as «Cidades Inteligentes» são os alicerces que despertam maior interesse e integração no dia-a-dia nesta amostra de público “jovem há mais tempo”. Será esta associação que servirá de mote para resposta etária.

O universo digital pulou e com isso a Economy Silver deixará de ser associada apenas, por exemplo, ao Turismo em Saúde que comummente falamos quando associamos à valorização da portuguesa «terceira idade» que ficaria bem mais giro apelidar de «aqueles que são muito jovens par se sentirem velhos» ou ainda os «jovens há mais tempo».

Esta economia é virada para o público maduro que quer viajar, conhecer mais do que as suas experiências atuais, quem tem gosto de se cuidar, praticar desporto adaptado à evolução fisiológica que vive, comer bem, sentir-se confortável ao espelho, divertir-se e aproveitar atividades culturais e de lazer de melhor forma no seu maior tempo livre. Não é um público que apenas espera pelo seu “ultimo dia”, são pessoas que vivem querendo viver e não sobrevivem apenas à espera do avolumar de dias na sua contagem de vida. E este paradigma é muito importante para se deixar de lado o mero “turismo de saúde para os velhotes”, isso não é do mundo que vivemos e não é essa a Economia assente no Envelhecimento Ativo.

A economia do futuro, é ponto assente, também será Silver. Mas sobretudo, a «Economia do Futuro» terá pelo menos 6 eixos.

Será, por tudo o que foi dito, Silver para pensar e responder à adaptação da pirâmide etária. Será Inclusiva para mitigar os desequilíbrios oriundos da globalização, o tecido empresarial pensará de forma Global e agirá de forma Local (Glocalização), será ainda mais Circular para reduzir o desperdício de matérias primas, será Ecológica e puxará empregos verdes ainda mais neste “novo-normal pós-2020”, e, por fim, será muito mais Digital e estas novas tecnologias serão seguramente o ator principal da 4ª Revolução Industrial da Sociedade Mundial.

É verdade que por cá, neste país pequeno da península ibérica, já pensamos basilarmente nesta realidade «Prateada ou Grisalha».

Seja pelas condições climatéricas, em que fomos forçados, sobretudo o Algarve e a Madeira, a serem parte mundial integrante da rede que significa um local perfeito para quem procura uma resposta ao nível do Envelhecimento Ativo focado no sol e horas de luz.

Seja politicamente, naturalmente, e é conhecida a Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo 2017-2025, que terá forçosamente de evolver muito mais o setor social e o setor privado para dar resposta integrada ao Estado a nível de monitorização, evolução de parâmetros clínicos e adaptação tecnológica a esta população.

Seja localmente, muito importante, pela especificidade, porque o maior desafio das políticas públicas com estas transformações demográficas será exigir preparação aos organismos responsáveis. O Envelhecimento Ativo aparece em Portugal na forma de um paradigma de ação para inverter possíveis tendências negativas na população e, nesse sentido, é fulcral investigarmos e realizarmos uma estratégia em torno das políticas municipais que procurem responder localmente aos problemas e desafios inerentes ao envelhecimento da população, assim como à aceitação dos expatriados que nos irão escolher e têm de ter resposta também neste mundo global.

Sejamos pragmáticos: Não existirá uma solução única para a Silver Economy nem uma ação de política pública única para trabalhar o Envelhecimento Ativo. Mas, o caminho para o aumento da qualidade de vida dos portugueses também passará por pensar neste possível conjunto de “Economias do Futuro” e, dessa forma, responder politicamente às situações socioeconómicas que sejam integradoras dos 5 aos 65 anos. Isso não será só Silver, será uma resposta e atuação “Gold” deste desígnio.

 


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