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Estamos perante "a maior birra política da história?"

Estamos perante "a maior birra política da história?"

AFP João Campos Rodrigues 09/11/2020 10:09

Derrotado, isolado, abandonado por cada vez mais republicanos e até pela Fox News, o Presidente Donald Trump insiste em desafiar a legitimidade das eleições. E manejará o mais poderoso cargo do planeta até 20 de janeiro. 

“Competir contra o pior candidato na história da política presidencial põe pressão em cima de mim. Conseguem imaginar se eu perder?”, brincou o Presidente Donald Trump, num comício algures em outubro. Agora, após acontecer o impensável para milhões dos seus apoiantes, o mundo espera ansiosamente o seu próximo passo. É que, mesmo derrotado por Joe Biden, o Presidente dos EUA promete inundar o sistema eleitoral de processos, ir até ao Supremo Tribunal contestar os resultados. E mantém o enorme poder do seu cargo pelo menos até 20 de janeiro – há enormes receios quanto ao que possa fazer.

“Se Trump perder o poder, passará os seus últimos 90 dias a demolir os Estados Unidos, como uma criança maliciosa com uma marreta numa loja de porcelana”, previu o analista Malcolm Nance, pouco antes dos resultados serem conhecidos, ao Guardian. “Provavelmente iremos ver a maior birra política da história”, avisou. “Quem sabe o que um autocrata encurralado fará?”.

“Isto é o que Donald vai fazer: não vai reconhecer a derrota, mas quem quer saber? O pior é que não se vai envolver nas atividades normais que garantem uma transição tranquila”, garantiu ao jornal britânico Mary Trump, sobrinha do Presidente, com quem está desavinda há muito. “Ele vai ir tão longe quanto conseguir para deslegitimar a nova Administração, depois vai oferecer perdões que nos desmoralizarão e assinar uma enxurrada de ordens executivas”.

 

Cenários em cima da mesa

Afinal, com os resultados do lado de Biden, o que é que Trump ainda pode fazer? Antes de mais, há que acabar de contar os votos na Geórgia, Alasca e Carolina do Norte – o que temos até agora são projeções de meios noticiosos como a Associated Press. Depois vem uma provável recontagem em estados ganhos pelos democratas no fio da navalha, como o Wisconsin, onde Biden teve uma margem de apenas 0,7%, pouco mais de 20 mil votos.

Até aqui, não se esperam grandes surpresas. “A probabilidade é que uma recontagem não faça diferença numa eleição a nível estadual”, escreveu a NBC. “Nos últimos 50 anos, poucas recontagens levaram a alterações nos vencedores. E na mão cheia dos swing states disputados, não houve nenhuma viragem após uma recontagem nas últimas cinco décadas”. Aliás, nas últimas duas recontagens no Wisconsin, a mudança foi de umas poucas centenas de votos – não os 20 mil votos de que Trump precisaria.

 Além disso, com processos dos republicanos a ser apresentados em tribunais por todo o país, começam a faltar meios à campanha Trump. O Presidente tenta desesperadamente recolher o dinheiro necessário para a recontagem no Wisconsin, mas pelo menos metade das doações terão de ir para pagar as dívidas da sua campanha, avançou ontem o Milwaukee Journal Sentinel.

Esta dificuldade é sintoma do grande problema que Trump enfrentará nos próximos tempos: mais ou menos silenciosamente, boa parte do aparelho republicano começa a distanciar-se dele. Muitos analistas temiam que o Presidente conseguisse de alguma maneira sabotar as eleições, por exemplo fazendo com que swing states com legislaturas republicanas – como a Pensilvânia, Michigan Wisconsin, Geórgia – recusassem certificar votos do colégio eleitoral democratas. Mas esse cenário caótico implicaria uma frente unida republicana ao seu lado, algo que parece cada vez mais improvável.

“Será que veremos os republicanos que se opuseram a Trump em 2016, e depois lhe beijaram o anel, a pedir um período de cicatrização nacional?”, questionou a New Yorker. “Esta presidência representou uma espécie de negócio estranho: o establishment pôde definir a política, pelo menos económica, enquanto Trump providenciava os apoiantes que o establishment já não conseguia produzir”, acrescentou, lembrando que, para a liderança republicana, a eleição não correu assim tão mal. “Os resultados de 2020 podem gerar-lhes um quadro agradável, de um Senado e um Supremo Tribunal controlados pelos republicanos, uma fina maioria democrata na Câmara dos Representantes, controlo da maioria das legislaturas estaduais – e sem um rei louco na Casa Branca”.

Não é de espantar o silêncio ensurdecedor da maioria dos republicanos. À volta de Trump, gritando sonoramente “fraude eleitoral”, vemos quase exclusivamente os seus apoiantes mais leais, como Rudy Giuliani, alguns mega-pastores evangélicos ou os seus filhos. “Esta total falta de ação de virtualmente todos os ‘esperançosos candidatos republicanos em 2024’ é incrível”, tweetou Donald Trump júnior. “Não se preocupem, Donald Trump vai lutar e eles podem ficar a assistir como de costume”.

Até a Fox News, o canal conservador que foi o favorito do Presidente nos últimos quatro anos, se absteve de entrar na refrega. “O próximo Presidente da América”, foi o título de um artigo sobre Joe Biden no site do canal, que até foi o primeiro a projetar uma vitória democrata no Arizona, um swing state crucial, para desgosto de Trump.

Mesmo cada vez mais isolado, o Presidente em funções ainda pode ter alguns truques na manga. Sai da Casa Branca com uma das maiores plataformas nas redes sociais, milhões de apoiantes, e rumores de que poderá abrir um canal de televisão. Além disso, “Trump certamente teve conhecimento de segredos que valem literalmente biliões de dólares – informações sobre as capacidades de espionagem dos EUA, na terra e no espaço, planos nucleares e de guerra, bem como os vícios, perversões e predileções de líderes e políticos pelo mundo fora”, escreveu o Politico. “É improvável que a era de Trump acabe quando a presidência acabar”.

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