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A América acordou como um país que promete ser diferente

A América acordou como um país que promete ser diferente

AFP João Campos Rodrigues 09/11/2020 10:04

Joe Biden e Kamala Harris estão a caminho da Casa Branca, com metade da América em festa. Prometem “baixar a temperatura”, num país polarizado, mas arriscam enfrentar um Senado republicano e um Supremo Tribunal conservador.  

Não foi só metade da América, um país de imigrantes, que celebrou a vitória de Joe Biden e Kamala Harris nas eleições presidenciais. Do outro lado do mundo, em pequenas cidades irlandesas e numa aldeia indiana, de onde vieram os antepassados dos vencedores, o clima foi de festa nas ruas, após muitas orações pelo seu sucesso.

“Joe Biden é o quintessential irlandês-americano, e mostra o que uma combinação de trabalho duro e determinação conseguem fazer”, orgulhou-se Paul Allen, organizador da marcha Irlandeses por Biden, à CNN. Em Ballina e Carlingford, no oeste do país, onde viveram os bisavós e trisavós do Presidente eleito, pintaram-se murais, tocaram-se os sinos e cantaram-se canções tradicionais irlandesas.

Já os cerca de 350 habitantes Thulasendrapuram, em Tamil Nadu, no sul da Índia, de onde veio o avô da vice-Presidente eleita, mal conseguiam conter a emoção. No chão, pintavam-se mensagens com giz de apoio à democrata. No templo, muitos rezavam a Ayyanar, uma das muitas facetas de Shiva, cuja estátua foi lavada com leite e coberta de flores.

“Kamala Harris é filha da nossa aldeia”, assegurou um dirigente local, Aulmozhi Sudhakar, ao Guardian. “Por dois ou três dias mantivemos os dedos cruzados, à espera dos resultados”, acrescentou outro morador, Kalidas Vamdayar, ansioso por uma visita da vice-Presidente eleita. “Vamos distribuir fogo-de-artifício e doces às pessoas”.

 

O Celta e a Pioneira

Apesar do Presidente em funções, Donald Trump, ainda estar a contestar os resultados das eleições (ver páginas 14-15), Biden e Harris têm o caminho aberto para a Casa Branca. Aliás, os serviços secretos dos EUA já se preparam para a transição, com novos protocolos de segurança para ambos. O nome de código de Trump era Mogul, ou magnata; Biden optou por Celtic, numa referência às suas raízes irlandesas, e Harris ficou como Pioneer, a pioneira, avançou a CNN.

Depois de quatro anos de uma Administração apologista de medidas severas contra a imigração, rotineiramente acusada de racismo e xenofobia, espera-se uma mudança drástica de tom. “É altura de colocarmos esta retórica dura de lado. Baixar a temperatura. Vermo-nos outra vez. Ouvirmo-nos outra vez”, apelou o futuro 46.º Presidente dos EUA no seu discurso de vitória, na sua cidade natal, Wilmington, no Delaware. “Que esta era cruel de demonização na América comece a acabar, aqui e agora”.

“Sei que os tempos têm sido desafiantes, especialmente nos últimos meses”, declarou a vice-Presidente eleita. “Houve perda, tristeza, preocupações e dificuldades. Mas também testemunhamos a vossa coragem, a vossa resiliência e a generosidade do vosso espírito. Durante quatro anos, vocês marcharam e organizaram-se por igualdade e justiça, pelas nossas vidas e o vosso planeta. E depois votaram!”.

Harris, antiga senadora da Califórnia, chegará à Casa Branca com um perfil mediático pouco habitual para uma candidata a vice-Presidente. Normalmente, o cargo é visto quase como cerimonial, uma posição que “não vale um balde de urina quente”, nas palavras de John Nance Garner III, o desconhecido vice-presidente do famoso Franklin D. Roosevelt. Contudo, não só Harris é vista como tendo o carisma que falta a Biden, como este não vai para novo, aos 77 anos - a sua número dois é uma séria candidata à presidência em 2024.

Isto além do facto de Harris ser de facto uma pioneira, a primeira mulher negra e asiática na vice-Presidência. “Posso ser a primeira mulher neste cargo, mas não serei a última. Porque cada pequena rapariga a assistir a esta noite vê que este é um país de oportunidades”, declarou.

“O caminho pela frente não será fácil, mas a América está preparada”, prometeu Harris, confiante. “Agora é quando começa o trabalho a sério”, salientou. “Para salvar vidas e vencer esta epidemia. Para reconstruir a nossa economia para que funcione para as pessoas trabalhadoras, para livrarmo-nos do racismo sistémico no nosso sistema judicial e na nossa sociedade. Para combater as alterações climáticas e unir o nosso país”.

 

Amarrados?

Se esses objetivos serão obtidos ou não, só o tempo poderá dizer. Para já, não se antevê um começo nada fácil da Administração Biden. No sábado, os Estados Unidos tiveram o maior número de novos casos de covid-19 em 24h, com mais de 126 mil infeções, num astronómico total de 10,2 milhões.

Além disso, é muito provável que os democratas, ao contrário do esperado, não consigam uma maioria do Senado, permitindo aos republicanos bloquear praticamente toda a sua ação legislativa. Ao mesmo tempo, terão de lidar com um Supremo Tribunal recheado de juízes nomeados por Trump, com uma super-maioria conservadora, que pode muito bem abater o que resta do Obamacare, declarar inconstitucionais novas medidas ambientalistas ou reverter a decisão do caso Roe versus Wade, que legalizou o aborto.

Cumprida a missão de bater Donald Trump nas urnas, a ala mais progressista dos democratas - que ganhou forte projeção nos últimas anos e sempre colidiu com a ala mais conservadora, representada por Biden e em parte por Harris - voltou a mostrar um olhar mais crítico sobre os candidatos vencedores.

“Já não estamos em queda livre para o inferno”, explicou ontem a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, expoente da ala mais à esquerda do Partido Democrata, a par e passo com figuras como Bernie Sanders. Em entrevista ao New York Times, temendo que a agenda de Biden e Harris fique por cumprir, Cortez deixou-lhes um recado claro.

“Preciso que os meus colegas percebam que nós não somos o inimigo. Que a base deles não é o inimigo. Que o movimento Black Lives Matter não é o inimigo, nem o Medicare for All”, apelou Cortez, referindo-se ao ambicioso programa de acesso à saúde que defende - que Biden rejeita e que Harris em tempos apoiou, voltando atrás durante a campanha. “Se eles continuarem a ir atrás da coisa errada, só estão a criar a sua própria obsolescência”.

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