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Em nome do Filho…

Em nome do Filho…

Rodrigo Gonçalves 06/11/2020 17:04

Na acção política vemos vezes demais a invasão da esfera pessoal confundindo-se propositadamente com a esfera pública e usando essa intromissão como arma para atacar adversários que muitos, por ignorância, consideram inimigos.

Ainda recentemente tivemos um mau exemplo, vindo do outro lado do atlântico, quando Donald Trump, durante o primeiro debate da corrida às presidenciais nos EUA e ao seu estilo pouco recomendável, proferiu ataques de carácter pessoal a Joe Biden que é, apenas e só, seu adversário político.

Biden foi atacado violenta e cobardemente por Trump não pelas suas ideias...não pelas suas propostas... não pela sua carreira e trabalho, mas sim por ter um filho (Hunter Biden) a lutar contra um grave problema de adição, nomeadamente a dependência de cocaína.

Apesar do ataque vil e cobarde que Trump fez, Joe Biden, visivelmente agastado e emocionado, defendeu o seu filho em direto para todo o mundo ouvir, demonstrando o seu orgulho por este estar a conseguir combater um vício que, infelizmente, afeta milhões de pessoas e famílias por todo o mundo.

De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2019, da responsabilidade das Nações Unidas, 35 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de transtornos graves por uso de drogas. Isto significa que, pelo menos, 35 Milhões de agregados e redes familiares sofrem profundamente com este flagelo.

Estima-se que em 2017e 2018 mais de 271 milhões de pessoas usaram drogas, o que revela que este é um dos maiores problemas dos nossos tempos que afeta, direta ou indiretamente, todas as gerações.

O abuso de drogas é um problema complexo, transversal a áreas chave como a saúde pública, a segurança e vários aspetos de ordem social. Este problema representa uma situação dramática para as famílias e comunidades de todo o mundo e atualmente tira mais de meio milhão de vidas por ano.

Ora é aqui que se faz a interligação deste tema com a ação política. É inegável que não podemos dissociar a condição pessoal e o carácter de um individuo, da sua condição política. Neste sentido é incompreensível que alguém que é Presidente dos EUA considere usar uma fragilidade pessoal de um Pai que tem um filho a sofrer com um problema grave de drogas, para o atacar cobardemente.

Convém lembrar que nos Estados Unidos, onde Trump (des)governa, as mortes por overdose são a principal causa de morte entre americanos com menos de 50 anos, matando mais do que HIV, a violência armada ou os acidentes de automóvel.

Portanto, aquilo que Trump trata com desdém, insensibilidade, arrogância e uma enorme falta de bom senso é só um do principais problemas das famílias Americanas. Um Presidente que deveria ter como prioridade nacional combater este problema prefere, ao atacar Joe Biden com este argumento, desprezar os milhões de famílias Americanas que sofrem todos os dias com este drama.

Na política não pode valer tudo, mas infelizmente nem sempre é assim. Muitos dos que se dizem defensores de valores profundos são exatamente os que utilizam este tipo de estratégias cobardes de atacar os adversários na vida pessoal quando estes sofrem com fragilidades desta natureza, como Joe Biden.

Desde Políticos, a Jornalistas, Empresários, Sindicalistas, líderes de grupos de pressão e por muitos outros intervenientes do espaço mediático, usam este método e forma de agir tentando transformar o maior acto de cobardia que pode existir em algo supostamente legitimo.

Ora estes Trump’s da vida esquecem que também alguns deles são Pais, têm família, têm filhos, têm sentimentos e seguramente que não estão imunes a nenhum deste ou de outro tipo de problemas no futuro.

No caso de Joe Biden em concreto, assistimos à grandeza do Pai de Hunter Biden – porque foi nessa condição que respondeu a Donald Trump e não na de candidato à presidência dos EUA – que com a coragem de quem ama incondicionalmente, permitiu que pudéssemos ver o lado humano, espontâneo, verdadeiro, que mesmo na adversidade da situação não se escondeu e enfrentou a crítica (provavelmente dolorosa) com a coragem de quem defende o que qualquer Pai tem de melhor…os seus filhos.

Vimos o homem e o político, porque não é possível dissociar a pessoa do político quando pretendemos avaliar alguém. Joe Biden representou naquele momento a imagem da dignidade, dos valores da família, da qualidade humana e acima de tudo a imagem de um homem genuíno com sentimentos, que vive no mundo real.

Ao contrário, Donald Trump, demonstrou uma tremenda insensibilidade, arrogância, irresponsabilidade, desprezo pela condição humana, ausência de caráter, falta de ética e um alheamento das reais necessidades das pessoas que vivem no mundo real e que, supostamente dirigiu durante estes anos.

Trump personificou uma criação pérfida, sintética, mediática, fútil e insensível como poderia representar uma pedra de pavê, um piso cerâmico, um balde plástico, um qualquer parafuso, ou seja, um objeto desprovido de tudo o que é vida e sentimento.

Sem apelar à tolerância jamais poderia o mundo aceitar estes protagonistas e é exatamente com esse espírito e com o exemplo de Joe Biden que reforço o que penso há muito tempo.

Na atividade política, longe da esfera privada, não venceremos os adversários com intolerância, desrespeito e com ataques de ordem pessoal, tentando calar, banir ou excluí-los.

Venceremos enfrentando-os em debate, com ética, desmascarando as suas contradições, expondo as suas fragilidades políticas, denunciando o seu populismo e arrasando, com a força do argumento, os seus valores desvirtuados.

Hoje como Pai e com uma experiência de 46 anos de vida, revejo-me num líder com as características de Joe Biden que, como qualquer ser humano, já terá cometido erros (quem não os cometeu?), mas pela forma como age e reage permite que possamos acreditar que um líder pode ter tolerância, bom senso, sentido de responsabilidade e firmeza quando necessário, sem nunca abdicar do seus valores e sentimentos.

Para o futuro o mundo espera que os seus líderes  possam mobilizar energias, motivar vontades e revelar dotes conciliadores sempre com o propósito de serem um exemplo que defende os seus, esteja onde estiver e seja onde for, sem que tenham qualquer receio dos preconceitos de uma sociedade mediática e movida pelo culto de uma imagem fictícia e pré-definida.

Rodrigo Gonçalves

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