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Adília Lopes e os Dias

Adília Lopes e os Dias

Carlos Fiolhais 05/11/2020 18:05

Dias e Dias, o novo livro de Adília Lopes, do prelo da Assírio & Alvim, é o n.º 175 da coleção “Poesia inédita portuguesa”.

 

Adília Lopes é o pseudónimo literário de Maria José Fidalgo de Oliveira (Lisboa, 1960), que estudou Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, embora não tenha concluído o curso, devido a uma doença de que ela não se importa de falar (psicose esquizoafetiva). Mais tarde fez o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da mesma universidade. É uma das vozes mais originais da moderna poesia portuguesa. Leio-a com gosto há muito tempo.

O seu último livro tem, como outros, marcas da ciência. Contém, logo a abrir, a frase “a poesia desentropia”, que é como quem diz: cria ordem no caos. O livro, do prelo da Assírio & Alvim, Dias e Dias, é o n.o 175 da coleção “Poesia inédita portuguesa”. Nessa coleção, a poetisa já tinha publicado Apanhar Ar (2010), Manhã (2015), Bandolim (2016) e Estar em Casa (2018; 2020, 2.a edição revista e aumentada). Com a nova coletânea, o número de volumes da autoria de Adília já vai em mais de três dezenas. Começou a publicar na mesma Assírio & Alvim, no Anuário de Poetas não Publicados de 1984. Mas a sua primeira obra foi uma edição de autor: Um Jogo Bastante Perigoso (1985). Depois, para além dos livros de poesia, colaborou com poemas, artigos ou poemas traduzidos, em diversos jornais e revistas, nacionais e estrangeiros. A sua obra foi concatenada primeiro pela Mariposa Azul sob o título de Obra (2000) e depois pela Assírio & Alvim, sob o título (muito bom!) de Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007 (2009), da qual há uma segunda edição: Dobra: Poesia Reunida, 1983-2014 (2014). A Quasi publicou uma antologia: Quem Quer Casar com a Poetisa? (2001). De peças da obra adiliana há traduções em alemão, italiano e espanhol. E já há várias teses académicas em Portugal e Espanha que se debruçam sobre a sua poesia. A Imprensa da Universidade de Coimbra publicou um ensaio de Ana Bela Almeida: Adília Lopes (2016). Cereja no topo do bolo, uma outra poetisa, Filipa Leal, pôs o nome de Adília no título de um seu livro: Adília Lopes Lopes (Não, 2014) - “Lopes” vem repetido porque Adília é autora do livro Florbela Espanca espanca (Black Son Editores, 1999).

Se abrirmos a monumental Dobra, encontramos noutros lados a palavra “entropia”, que significa desordem ou caos, um termo ligado à Segunda Lei da Termodinâmica (cujo desconhecimento foi equiparado ao de Shakespeare por C. P. Snow, no seu famoso ensaio As Duas Culturas). Um dos meus poemas preferidos é “Memórias das Infâncias,“ que ilustra essa lei, segundo a qual a entropia aumenta sempre num sistema isolado. É por essa razão que o futuro é diferente do passado, isto é, que a seta do tempo não pode ser invertida. O poema fala da irreversibilidade usando como metáfora o remédio misturado no doce de framboesa. Vale a pena transcrevê-lo todo por representar bem o estilo da autora: “Gostávamos muito de doce de framboesa/ e deram-nos um prato com mais doce de framboesa/ do que era costume/ mas/ a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa/ para nosso bem/ porque estávamos doentes/ esconderam colheres do remédio/ que sabia mal/ o doce de framboesa não sabia à mesma coisa/ e tinha fiapos brancos/ isso aconteceu-nos uma vez e chegou/ nunca mais demos pulos por ir haver/ doce de framboesa à sobremesa/ nunca mais demos pulos nenhuns/ não podemos dizer / como o remédio da nossa infância sabia mal!/ como era doce o doce de framboesa da nossa infância!/ ao descobrir a mistura/ do doce de framboesa com o remédio/ ficámos calados/ depois ouvimos falar da entropia/ aprendemos que não se separa de graça/ o doce de framboesa do remédio misturados/ é assim nos livros/ é assim nas infâncias/ e os livros são como as infâncias/ que são como as pombinhas da Catrina/ uma é minha/ outra é tua/ outra é de outra pessoa”. 

Da poesia de Adília, que por vezes se exprime em prosa, pode-se dizer que à primeira vista se estranha. Depois, se se gosta, entranha-se. Eu gosto. Os seus últimos livros contêm lembranças de infância, histórias breves, aforismos, anotações, etc. A capa do último mostra a mãe, que era botânica, com a bebé Adília ao colo quando ela tinha ano e meio. As duas são Maria José, que é um nome de família. Diz Adília num poema em prosa: “Chamo-me Maria José. A minha mãe chamava-se Maria José. A minha avó materna chamava-se Maria José. Uma tia-trisavó chamava-se Maria José.” A poetisa vive hoje sozinha na casa grande de família, trazendo para a poesia o passado que passou. Vejamos alguns exemplos. Há historietas como esta, sobre uma empregada doméstica dada a mitologias: “A criada disse-me que os cabelos que caem à água transformam-se em cobras. Enchi o lavatório de água, arranquei um cabelo meu, atirei-o à água. O cabelo não se transformou numa cobra. A criada não gostou que eu fizesse isso. A minha mãe bióloga não gostava que a criada me contasse essas patranhas.” Confessa sonhos antigos: “O meu sonho de criança foi ser Anita dona de casa. Quando vejo um batedor de claras dos anos 60, fico contente. (…) Sou doméstica.” Faz uma lista de líquidos que ingere: “Bebidas de que gosto: café, água, Cecrisina e ginjinha” (já a mãe gostava da borbulhante Cecrisina, que a criança pensava ser uma “poção mágica”). 

Conta, noutro passo, como desentropia a habitação: “Arrumo a casa, continuo a arrumar a casa, tarefa sem fim, a casa está por arrumar há mais de cem anos. Loiças partidas, papéis velhos, roupas que não servem para nada. Circulo pelos quartos (…) Posso andar aqui às voltas infinitamente”. O que ela faz no dia-a-dia está resumido no poema “Quarentena”, de onde foi tirado o título: “Estar em casa/ estar a estar/ dias e dias.” São, na sua maior parte, poemas escritos em tempo de pandemia: “É a quarentena do coronavírus. Não devo sair de casa. Tenho 60 anos, hipertensão e diabetes. Vivo sozinha. Não tenho net, não tenho televisão. Nem um candeeiro tenho para ler e escrever. Os trocos são poucos. Mas sou feliz. Tenho uma telefonia de pilhas que me deu uma amiga, pelas quatro da tarde oiço na Antena 2 os programas Pausa para dançar e Há cem anos. Gosto muito desses programas. Aprendo muito, oiço músicas bonitas.”

O humor, ainda que saudosista e melancólico, é uma constante em Adília. Isso vê-se logo nos títulos de alguns dos seus livros, como Florbela Espanca espanca, Caras Baratas ou ainda Irmã Barata, Irmã Batata. Adília tem, por vezes, uma carga religiosa no que escreve, por exemplo quando fala, em Dias e Dias, no santinho que a mãe lhe deu em criança e que lhe serviu quando tinha escarlatina. Define-se a si própria como “freira poetisa barroca”. As principais influências literárias de Adília são Sophia de Mello Breyner (citada em Dias e Dias), Ruy Belo, Nuno Bragança e autores infantojuvenis como a Condessa de Ségur e Enid Blyton. 

Tive o prazer de conhecer a Adília quando a convidei para participar no colóquio “Física, Cultura e Desenvolvimento”, promovido em 2003 pela Sociedade Portuguesa de Física em conjunto com o Departamento de Física da Universidade de Coimbra. A sua intervenção, “Porque estudei Física,” ficou registada na Gazeta de Física (vol. 27, fasc. 1, 2004), que eu então dirigia. Cito-a: “Heisenberg diz: ‘Os triângulos e os quadriláteros excitam menos a imaginação que as flores e os poemas’. Em 1974/75, eu passei a confiar mais nos triângulos e nos quadriláteros do que nas flores e nos poemas. É horrível dizer isto assim pois parece que estou a dizer mal da Revolução dos Cravos. Ou da minha mãe, que estudava plantas. Em todo o caso, plantas de que nunca percebi o que eram as flores. Chamavam-se briófilos e o seu habitat mais natural é a ilha de Madagáscar. Se uso o humor, é por uma questão de rigor”.

A meu pedido enviou-me alguns poemas inéditos que publiquei na mesma Gazeta de Física (vol. 27, fasc. 4) : “Se Newton andasse/ a andar de carro/ pelo pomar/ em vez de andar/ a andar a pé/ não tinha dado/ pela queda da maçã// Se Rousseau andasse/ a andar de carro/ em vez de andar/ a passear a pé/ não tinha escrito/ aquele livro/ tão bonito// Detesto carros/ são uma porcaria// Mas lembro-me/ do Luís taxista/ que guiava tão bem/ e que me disse/ ‘dê um abraço meu/ à sua mãe’.” Julgo que a Adília tem orgulho em ter publicado na revista dos físicos portugueses apesar de não ter terminado o curso de Física.

Em Dias e Dias tocou-me particularmente um poema sobre árvores e pedras: “Sento-me na pedra lioz a ver os lódãos. Não tenho a certeza de que esta pedra seja pedra lioz e de que estas árvores sejam lódãos, estudei pouco as pedras e as árvores. Ainda posso estudar.” Os dias servem, de facto, para saber mais…

Mas não posso terminar sem relatar a sua primavera poética: “Comecei a ouvir a Musa quando ia fazer 23 anos. Antes não ouvia a Musa. Eu sei que falar assim parece banha da cobra. Mas não é. Já contei isso muitas vezes. A minha gata tinha desaparecido, eu estava muito triste, aflita. De repente na minha cabeça estava um poema sobre a gata. Peguei no caderno e na esferográfica e escrevi. Ouvir a Musa não é só ter prazer em escrever, ter vontade de escrever, ter ideias ou imagens como eu tinha aos 11 anos. É aparecer o texto na cabeça vindo não sei de onde. E a minha gata apareceu. Não são os textos que me interessam, quero lá saber da Musa. Quero a gata, o afecto, a vida, a gata”. A perda da gata revelou-se uma epifania criativa. 

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