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Michael Sandel. A tirania do mérito

Michael Sandel. A tirania do mérito

Pedro Miranda 03/11/2020 19:06

O trabalho não possui apenas uma dimensão económica, mas têm um âmbito cultural: quem o faz realiza-se, sabendo de um seu contributo útil para a comunidade. Se esse contributo é menorizado, seja ao nível da retribuição, seja da consideração e reconhecimento sociais a humilhação advém. A distinção entre os credenciados académicos e os que não possuem o diploma é a grande factura política actual nos EUA. O filósofo político Michael Sandel faz luz sobre a arrogância meritocrática, propõe soluções para a debelar, assinando uma obra que poderá situar-se como um dos mais profundos roteiros acerca do populismo e das possibilidades da sua superação

 

1.Não é apenas a desigualdade de rendimento entre os vencedores e os perdedores da globalização a envenenar o debate público e a engendrar a reacção populista (em particular, nos EUA); é, ainda, concomitantemente, e porventura mais do que isso, a estima social, o reconhecimento – e, bem assim, a falta destes – que determinado tipo de trabalhos e trabalhadores obtêm, do modo como é percebido/recompensado o seu contributo para a comunidade.

2.Um sistema apresenta-se meritocrático quando se propõe recompensar devidamente quem, em função do seu trabalho, esforço, treino de capacidades, dotes, e independentemente da família em que nasceu, da sua etnia, sexo, ou outro tipo de distinção, acede ao nível de preparação que a torna apta ao exercício de atividades mais reclamadas por uma dada sociedade como susceptíveis de melhor remuneração. 

3.Nas últimas décadas, a sociedade entregou o papel de árbitro, acerca do mérito (relativo) de cada pessoa, à(s) Universidade(s). Se ter um papel social relevante e bem retribuído passa por frequentar, com êxito, um curso universitário (se possível, aliás, no Ensino Superior prolongando graduações académicas), então, alcançá-lo, em especial nas faculdades de maior prestígio, como que incensa quem concluiu esse percurso, enquanto, de modo inverso, não o ter frequentado parece, imediatamente, implicar que a) a pessoa falhou; b) o trabalho que desempenha, a actividade a que se dedica – caso esteja empregado - é menor, sem grande valor. 

4.Se o fim da transmissão hereditária, isto é, de um regime aristocrático, desbrava o caminho para cada um ser reconhecido em função do seu talento (do esforço, trabalho, treino dos seus dons, se quisermos), então, quem se cumula, na sociedade do mérito, com credenciais académicas sente-se moralmente justificado nos seus ingressos substantivos (quando estes ocorrem e, pelo menos, robustos à luz da comunidade em que se inscreve) e, inversamente, assomará uma sensação de fracasso a quem não os adquiriu. 

5.Em podendo, cada um, chegar onde a sua dedicação, estudo, empenho, dons o levarem – eis a promessa meritocrática -, então cada qual é individualmente responsável pelo patamar de rendimento e reconhecimento em que se situa. Cada um tem o que merece – eis o lema meritocrático. 

6.Em sociedades fortemente secularizadas, a referência, agradecida, aos dons/talentos que Deus – ou, em termos laicos, a lotaria natural – me concedeu, tornou-se uma heresia e, ademais, uma educação da qual se apartaram, mesmo nas universidades de elite, as disciplinas que promoviam a amizade cívica, os grandes tópicos dos debates ético-políticos sobre os quais tínhamos (temos) que deliberar (enquanto sociedade que somos), dispensando, pois, o conhecimento, aprofundado, de elaborações mais complexas que eram capazes de impugnar, sofisticadamente, a ilusão do homem que se faz a si mesmo, tornou a arrogância dos vencedores uma quase inevitabilidade, a que sucedeu a humilhação dos vencidos (a ética do merecimento “tem um efeito corrosivo nas sensibilidades cívicas, posto que, quanto mais nos concebemos como seres que se fizeram a si mesmos e autossuficientes, mais difícil nos resulta aprender a gratidão e a humildade e, sem estes dois sentimentos, custa muito alguém preocupar-se com o bem comum”, p.24; é muito mais humilde a ética da esperança e da prece, de gratidão e dom do que a ética do merecimento, p.77; “se (…) os membros mais afortunados da sociedade estão em dívida – com a boa sorte, com a graça de Deus ou com o apoio da comunidade – pelo seu êxito, então será maior a justificação moral para fazer com que o destino das pessoas seja compartilhado; será mais fácil defender que todos e todas estamos juntos nisto”, p.98).

7.Não é que no início da corrida não estejamos todos no mesmo ponto de partida – a família em que se nasceu, a estabilidade parental, a casa aquecida, uma boa biblioteca, um quarto individual, o direito ao silêncio, o amor da tribo, os dons e capacidades, uma psicologia apta a desenvolvê-los, as tutorias individuais e explicações, o apoio dos pais ao estudo, as viagens, o conjunto de estímulos proporcionados desde muito cedo, o vocabulário escutado em casa, o empoderamento cognitivo e não cognitivo (a postura, o comportamento, a gestualidade adequada…) – como, de facto, não estamos - o que faz com que só virtualmente possamos dizer que, na viagem Vila Real-Lisboa, quem chegou em primeiro lugar merece o prémio. Em realidade, dada a diversidade de condições, é como se alguns de nós tivessem partido de Vila Real, mas outros iniciassem a corrida no Porto, em Coimbra ou, mesmo, na Mealhada. 
A diversidade de pontos/condições de partida de cada humano é explicada, exemplar e magistralmente, por John Rawls, em “Uma Teoria da Justiça” (1971). Chegar a Lisboa implicou perícia, concentração, superação de um conjunto de dificuldades – bem entendido. Nessa medida, há o “direito a legítimas expectativas” do prémio por parte de quem cortou a meta nos lugares cimeiros. Mas não é uma questão de “mérito”. Os que a fortuna natural favoreceu contribuirão em sistemas fiscais progressivos, com um quinhão que lhes adveio, em boa medida, de factores aleatórios, para os menos favorecidos, em particular para a educação destes (de modo a que, desejavelmente, os desfavorecidos venham a emancipar-se dos constrangimentos de partida). Um incremento de rendimento por parte dos que ocupam posições favorecidas só pode justificar-se se tal beneficiar os mais frágeis (princípio da diferença).
Ora, como já havia apontado em Justiça – fazemos o que devemos?, Michael Sandel evidencia, em A tirania do mérito, um outro factor determinante para que os bem-sucedidos se encontrem na posição de que desfrutam: o seu talento cruza-se com o que a sociedade, actualmente, demanda. Se Lebron James, dos campeoníssimos La Lakers, ganha uma fortuna a cada semana é porque a sociedade da terceira década do século XXI valoriza, de sobremaneira, as capacidades e destrezas de um basquetebolista – desporto relativamente recente na humana caminhada (a contrario, se L.James possuísse idênticas qualidades para este concreto desporto, em uma época em que este ou não existisse, ou não fosse valorizado como hoje o é, de pouco lhe adiantaria tal tipo de destreza); no século XVI, o Renascimento chamara o pintor como figura-referência, proporcionando-lhe estipêndio de elevada magnitude, da mesma forma que, séculos antes, alçara o sacerdote a personalidade-charneira. Nem sempre as elevadas qualidades, capacidades, dons – mas há mérito nos dons que se possui? - de uma pessoa podem ser mobilizados, com consequências salariais para si advenientes (e deve dizer-se meritório o que resulta, ultima ratio, do “talento natural”?; problematizemos ainda: existirá, mesmo, algo como uma inteligência inata, ou a inteligência forma-se, existe, apenas, num dado contexto?), em função do que, comercialmente, uma sociedade remunera, num dado instante (o programador informático de Sillicon Valley nos alvores do séc.XXI). 

Michael Sandel, por uma banda, reconhece que nenhuma sociedade norte-americana, até aos nossos dias, cumpriu o ideal de Rawls, mas, mais do que isso, intenta uma interpretação que lobrigaria, ainda, na elaboração daquele filósofo político, a inscrição de um elemento meritocrático (na teoria de justiça que propôs). Se as recompensas desiguais para mobilizar o talento são necessárias (só se consegue chamar os “melhores” – ou, pelo menos, uma parte destes - para matérias tidas como especialmente espinhosas, durante um largo espectro de anos de estudo e treino, mediante ampla retribuição); se os mais favorecidos podem ver incrementados os seus benefícios desde que justificados na opção pelos últimos; se há um “direito a legítimas expectativas” por parte de quem chega à frente, então, não estará subjacente àquela construção a noção de, para utilizar a (infeliz) expressão de Thomas Nagel (curiosamente, um “progressista”) uns (serem) “inteligentes” e outros “tontos” (ou “deploráveis”, nos termos de Hillary Clinton) – mesmo que impondo uma responsabilidade dos primeiros para com os segundos? – e assim demasiado próximo das perspectivas do mérito?

8.Se para Rawls, representante de um liberalismo defensor do Estado Social – aqui, o termo liberalismo, usado por Sandel, refere-se a um estado neutro quanto a concepções de bem ou doutrinas abrangentes -, a inexistência de mérito (na renda obtida) justifica a redistribuição – ainda que Sandel afirme que Rawls é muito bom na demonstração do não mérito (individual), mas não tanto na desimplicação do porquê de o rendimento daí adveniente ter de resultar, pelo menos em parte, para a comunidade; por que há de esta ter direito aquele? – já para Friedrich Hayek, um liberal libertário – ou seja, alguém que também postula a neutralidade do Estado ao nível das concepções de bem, um estado laico, mas sem a abrangência de funções sociais que Rawls lhe consagra -, a ausência de mérito serve para vindicar a inexistência de redistribuição. A minha renda e riqueza reflectem o valor dos bens e serviços que ofereço; não tem que ver com mérito, virtude ou importância moral do meu contributo. Frank Night, um economista-filósofo neo-clássico, o primeiro a referir-se, nos anos 20, ao “talento natural” – sendo, muito interessantemente, Rawls dele tributário, neste âmbito, apesar de se situar em uma mundividência diversa daquele - fora mais longe nesta sistematização: satisfazer a procura do mercado não é necessariamente o mesmo que realizar uma contribuição valiosa para a sociedade (p.178) (o valor ético de uma dada contribuição, de resto, é algo que transcende o âmbito da apreciação económica).
Pensem no professor de Química de Breaking Bad, solicita Michael Sandel: durante uma parte do seu tempo, ensina os seus alunos numa escola; ocupa, porém, as sus horas também a criar/fabricar uma droga. A maior parte da sua riqueza advém da venda da droga por si inventada (é a procura do/no mercado…), mas ninguém seria capaz de dizer que o seu contributo para a comunidade não foi muito maior – dir-se-ia único, na medida em que as drogas contribuem para destruir comunidades – a dar aulas. E quem mais faz pela comunidade: a enfermeira Cláudia, no Centro de Saúde de Mateus, ou o dono de um casino algures? (e, claro, qual dos dois obtém mais remuneração?).

9.O centro de gravidade, colocado por A tirania do mérito, no ultra-competitivo mundo da Ivy League – conjunto de oito universidades de enorme prestígio nos EUA – poderá exacerbar características societárias (e comportamentais dos seus membros) que, não obstante, cremos muito difundidas para lá dos muros norte-americanos (como Sandel não deixa de pontuar). Como as profissões melhor remuneradas – que não coincidem, necessariamente, como vimos de observar, com as mais relevantes ao nível do contributo para uma comunidade; nem são, tão pouco, concedidas a génios, dado que não se vislumbra por que um gestor de um hedge fund há-de possuir uma inteligência maior do que a de um professor ou um pediatra – estão, hoje, entregues a quem sai de Harvard ou Standford (por exemplo), tal como instituições e órgãos políticos da maior relevância como o Congresso, as Assembleias são constituídas/preenchidas, de modo esmagador, à semelhança dos Executivos, por gente oriunda dos mesmos centros/círculos académicos, então aceder aqueles torna-se absolutamente crucial (note-se, entretanto, o entorse democrático de sociedades com 10 a 30% de licenciados serem lideradas, nos órgãos legislativo e executivo tantas vezes por mais de 90% de credenciados académicos – induzindo, ademais, não raro, uma noção de neutralidade tecnocrática a decisões que retiram, e desempoderam, os cidadãos comuns (de um debate político e moral). Sublinhe-se que o que as capacidades de sabedoria prática e virtude cívica, reclamadas por Aristóteles ao governante, são capazes de fazer não implicam qualquer curso superior, como alguns dos maiores presidentes da história norte-americana, como Lincoln, Washington ou Truman, revelam, para não falar de Bevin, do Executivo de Atlee, na Grã-Bretanha, na arquitectura do pós-II Guerra Mundial, ele que havia abandonado a escola ainda teenager. A elevação do debate, como se constata diariamente, não subiu nos Parlamentos, com tal credencialismo, aumentando, antes, porventura, a incapacidade de empatia com o cidadão comum). Uma tutoria individual/explicação em Manhattan pode custar 1000 dólares/hora, a economia das tutorias/explicações regista a soma de 1100 milhões de dólares/ano, nos EUA. 

A meritocracia não só não reduz a desigualdade – mesmo que tal possa ser entendido como não injusto, mas que será, sempre, diversamente, uma preocupação para os que entendem que a brecha social é um mal em si mesmo - como a justifica – a sua característica é a mobilidade social (ascendente, de preferência). Ora, a admissão em Harvard, nesta altura, é de 2000 alunos em 40 000 candidatos. Assegurar a entrada em um mundo tão selecto - que evite a queda social da descendência - criou uma série de “pais helicóptero”. O adolescente não deve, apenas, participar em exercícios sucessivos de preparação do exame para admissão à universidade (SAT), como praticar um desporto, ser proficiente na música, inscrever-se num dos 400 clubes da escola secundária (“o Harvard College conta com mais de 400 clubes e organizações extracurriculares”, p.233), fazer voluntariado e…estudar sucessivamente. Entre os meninos e meninas de 6 a 8 anos, o tempo livre para jogarem desceu 25% entre 1981 e 1997, enquanto o dedicado aos deveres da escola passou a ser mais do dobro (p.229). A este espécime, a Time chamou-lhe “sobrecriança”. O tempo que os pais norte-americanos dedicaram a ajudar os seus filhos e filhas com os TPC multiplicou-se por mais de 5 entre 1976 e 2012 (p.229). Impuseram à prole um padrão de ansiedade e de (aceitação de) intromissão na sua vida. O adolescente tornou-se um “produto em desenvolvimento”. Uma “epidemia de perfeccionismo” alastrou nos jovens estudantes. Apoiando-se na prestigiada psicóloga Madeline Levine, sua investigação e obra publicada (em um trabalho clínico e académico de décadas), Michael Sandel escancara as portas desse verdadeiro tabu que se abate sobre os adolescentes saídos de famílias a quem a fortuna natural não abandonou: “há também uma certa perturbação no dito convencimento meritocrático [dos jovens com bons resultados académicos], pois é forjado a partir da dor, a partir das desmoralizadoras exigências que o afã meritocrático impõe aos jovens” (p.228). Os pais destes adolescentes, mesmo que com as melhores das intenções (e com uma certa racionalidade, ainda, porventura, sobrelevando nela, a dimensão instrumental, e percebendo-se inseridos em sociedades profundamente inigualitárias) não deixam de, de algum modo, contribuir para o calvário por que passa o adolescente - ao mesmo tempo que é injusto para os pais que não podem competir com o programa desenhado, a régua e esquadro, para os descendentes, este torna-se opressivo para aqueles. 

Antes, pois, de um julgamento demasiado severo de uma soberba meritocrática de quem  - em especial, neste contexto, os mais jovens - nascera num bom berço e, se consciente, informado e culto (mas, como já vimos, uma consciência, informação e cultura, quanto ao mito do self made man, que não vai buscar demasiado ao currículo escolar), não possuidor de motivos para tal arrogância (pelo sucesso académico obtido), notemos que o cocktail é mais explosivo e complexo do que isso – e note-se que isso era já um abandono da graça às mãos do mérito (e “quanto mais retrocede a fé em Deus”, mais autossuficiência, p.58), da gratidão em função da auto-construção, da debilidade do conhecimento dos grandes debates ético-políticos em favor de uma estreiteza curricular e uma especialização que despreza uma vida cívica devidamente irrigada (o mesmo é dizer que enfraquece a própria democracia: “âmbitos muito limitados e concretos, muito especializados, foram deixando muito pouca margem aquelas outras matérias que adentram os estudantes nas grandes questões de filosofia moral e política que os convidam a reflectir criticamente sobre as suas convicções morais e políticas”, p.247). Ele passa, também, pela verdadeira “via crucis” (sic), com níveis de stress sem precedentes, por que passa o adolescente/jovem até completar a sua graduação académica: muitas vezes, os jovens estão “muito infelizes, desconectados e pouco independentes”, não raro “deprimidos, angustiados, enfadados” (p.230) com a incessante pressão para render, conseguir coisas, ter êxito (p.231). Um quinto dos jovens teve pensamentos suicidas (p.232), sendo que a taxa de suicídio entre os jovens incrementou-se 36% entre 2000 e 2017. Quem vence, “sai triunfador, mas também ferido” (p.231).

10.Ironicamente, em um regime aristocrático, nem os privilegiados se sentiriam especialmente orgulhosos pela sua situação (hereditária) de vantagem (que mérito nela?), nem os desfavorecidos tinham motivos para se compreenderem humilhados (nenhum demérito na sua situação social – como, ao invés, sucede em um sistema meritocrático (que traz consigo a ansiedade do status). Isto não leva Sandel a defender o regime aristocrático (nem, muito menos, o nepotismo), mas fá-lo introduzir correcções ao sistema hoje existente, além de, no plano dos valores, considerar fundamental outro modo de concebermos o êxito – compreender que ele depende muito da sociedade concreta em que se vive e das demandas de determinadas habilidades, que coincidem com as que certos sujeitos possuem, em um dado momento. Se para Harvard concorrem 40 mil alunos e só são admitidos 2 mil – ao longo das décadas, a percentagem de candidatos que as melhores universidades acolheram foi-se reduzindo drasticamente – e os melhores professores de instituições como esta entendem que outros tantos milhares (de alunos) estariam nas mesmas condições (que os seus congéneres), seriam tão bons ou melhores do que aqueles que foram aceites, então, sem prejuízo para a sociedade de os “melhores” ficarem de fora (tal não sucederia, estando, pois, como se vem de dizer, salvaguardado), deveria proceder-se a um sorteio, a partir de certo umbral de desempenho. Com a lotaria, os alunos saberiam que, evidentemente, o seu empenho e dedicação contam e são reconhecidos (o nível mínimo elevado a que teriam, ainda assim, de chegar), mas compreenderiam, simultaneamente, muito melhor o (quantum de) factor de aleatoriedade que está também presente no seu percurso. O pré-universitário não seria uma mera preparação para exames (de admissão à universidade) nem o Ensino Superior estaria centrado numa dimensão classificatória.
Michael Sandel escolhe uma terceira via entre igualdade de oportunidades – uma linguagem que se tornou vazia com o estancar do elevador social em não poucas sociedades e que penaliza partidos, nomeadamente social-democratas, que a ele recorrem muitas vezes, na medida em que, até, implicitamente assentam numa linguagem moralista (só não ascende quem não quer, ou não tem capacidade, e só as universidades são o caminho para apanhar o elevador) – e a igualdade de resultados: a igualdade de condições. Por esta expressão quer significar que aqueles que não cheguem a angariar uma grande riqueza ou trabalhos (tidos como) de prestígio (numa dada sociedade), devem poder levar vidas dignas e decentes, desenvolvendo e colocando em prática actividades que gozem de estima social (p.288). Como a trágica crise do covid-19 deveria ter demonstrado em definitivo, agricultores, camionistas, empregados de limpeza, caixas de supermercados, repositores de supermercados, trabalhadores do sector do lixo, entre outros, são absolutamente decisivos para o suporte e manutenção da sociedade (determinantes para termos podido ficar em casa durante o confinamento), sendo insultuoso qualquer desdém ou condescendência para com quem realiza tais actividades.

A redignificação do trabalho – entre os contributos para pensar a mesma Sandel cita a encíclica Laborem Exercens, de João Paulo II – conta-se entre as principais tarefas do nosso tempo (nele se devendo considerar de outro modo o ensino técnico), sendo que, nos EUA, há, entre os republicanos, quem proponha a centralidade no trabalhador, com acesso a subsídios que permitam que, no mínimo, que aquele complete um salário mínimo hora, afastando o grande encantamento por uma globalização que, se favoreceu o consumidor, colocou em causa todo um sentimento de estima e reconhecimento/valorização do trabalhador (o trabalho não traz acoplado a si um elemento meramente económico, mas também cultural; a relativamente recente distinção ideológica, trés chic, entre abertos (ao mundo, à globalização) e fechados, em vez do tradicional esquerda/direita, sublinha, com acuidade, Sandel, é própria de vencedores que, uma vez mais, mostram não compreender os motivos da defesa do fechamento (por tantos trabalhadores), dos agravos sofridos por estes operários brancos, ao mesmo tempo o sentido com que são rotulados de fechados remete para um sentido de “intolerantes”, por contraposição aos “iluminados” abertos) . Ora, “precisamos urgentemente de fontes de coesão e solidariedade social” (p.271). 
É impressionante o trabalho de um Nobel da Economia como Angus Deaton que, na sua investigação, conseguindo reduzir o impacto de outros factores, mostrou o enorme aumento do suicídio em zonas em que trabalhadores brancos sem titulo universitário predominavam (invertendo, nesta população, pela primeira vez, o aumento da esperança média de vida). Foram as zonas dos EUA que mais votaram Trump, em 2016. 

11.No caso português, sem uma Ivy League, não deixam de existir universidades e faculdades de maior referência, bem como cursos tido como especialmente prestigiantes e procurados. Neste contexto, negligenciar sinais, como os apontados, acerca dos nossos jovens e respectivas atitudes parentais seria ignorar uma experiência com a qual não deixamos, também, a nosso modo, de nos deparar. Também em Portugal os índices de desigualdade são consideravelmente elevados (na linguagem de Sandel, a meritocracia não acabou com uma sociedade de classes), o que poderá ter favorecido, a título paradigmático, a inscrição da descendência em colégios que garantiam a média necessária para o curso pretendido (eis, à nossa escala, os “pais helicóptero” a evitarem a queda da descendência e a concorrerem deslealmente com outros progenitores que não podiam pagar para tal finalidade; só agora, ao fim de quase 20 anos, se estão a dar passos concretos para colocar termo a tais inflações de notas que, curiosamente, da esquerda à direita, nunca mereceram nenhuma centralidade em discurso algum partidário). Se para determinados cursos, também no nosso país, não poucos Professores entendem que muitos outros alunos, para além daqueles que neles entraram, possuíam qualidades idênticas (por uma décima afastados), a analogia com o procedimento da lotaria, sugerido por Sandel, também seria, com a mesma teleologia, aplicável. Diversamente do caso norte-americano, em Portugal a licenciatura, mesmo que com prémio salarial, em média, não despiciendo, face ao de alguém que tenha, como qualificações máximas, o Ensino Secundário, não garante, demasiadas vezes, remunerações tão auspiciosas quanto isso, de modo a criar, como maior fractura política, a divisão entre possuidores de uma credencial académica e não possuidores dessa credencial – o verdadeiro muro político, nos EUA -, antes se levantando muitos, entre nós, em desaforo pelos 700 ou 800 euros alcançados após muitos anos devotados ao estudo.  

12.Se a meritocracia é uma aspiração (e não está concretizada), então ainda há motivos para quem não alcançou os lugares principais na escala social se sentir minimamente confortado (o sistema falhou algures); se a meritocracia é um facto, então, em tempos de hiper-agência (de crença num controlo absoluto das circunstâncias da sua vida pelo próprio, de hiper-responsabilidade individual, cada um entregue, exclusivamente, a si próprio), a pessoa sentir-se-á fracassada (“se o meu êxito é obra minha, o fracasso dele é culpa sua (…) Esta lógica faz com que a meritocracia seja corrosiva para a comunidade (…) Quando a noção de responsabilidade pessoal pelo próprio destino é demasiado contundente, torna-se difícil imaginarmo-nos na pele de outras pessoas”, p.79). Nos EUA, os estudos de opinião indicam um maior número de pessoas (77%) a acreditar que, no seu país, a meritocracia é um facto (na Alemanha, apenas metade da população pensa que se a pessoa trabalhar duro pode alcançar o êxito, e na França e no Japão a maioria acredita que tal não sucede). Nos EUA, dos nascidos no patamar mais baixo da escala social, apenas aproximadamente 4 a 7 por cento ascendem até ao topo, e só um terço chega a um dos 3 patamares superiores (do meio para cima) (p.99). Muito poucas pessoas, pois, das que nasceram pobres, nos EUA, chegam lá cima. Na realidade, a maioria nem sequer é incorporada à classe média (p.99). Desta sorte, “são muito poucos os norte-americanos que protagonizam o portento de passar de mendigo a milionário que tanto se exalta no sonho americano” (p.100). Mais: em um ponto bem sublinhado há cerca de 7 anos por Joseph Stiglitz em “O preço da desigualdade”, as vantagens e desvantagens económicas transmitem-se, muito mais, nos EUA do que na Alemanha, Espanha, Japão, Austrália, Suécia, Canadá, Finlândia, Noruega, Dinamarca (p.100). Conclui Sandel, de modo sarcástico, não deixando, implicitamente, de apontar ao laissez faire em comparação com um tradicional símbolo social-democrata: “a julgar por estes indicadores, o sonho americano goza de muito boa saúde…em Copenhaga” (p.100). Já agora, fica ainda o sublinhado de a própria China apresentar, actualmente, maiores índices de mobilidade social do que os EUA (p.101). Nos Estados Unidos, o 1% mais rico absorve mais renda do que todo o 50% mais pobre da população, sendo que a mediana da renda leva quarenta anos estancada (p.97). E, no entanto, a fé na mobilidade social pode explicar um Estado Social mais frágil nos EUA (p.35). A desigualdade não aumentou a mobilidade social, bem ao invés – menos de 4% dos estudantes da Ivy League são provenientes do quantil mais pobre da população.

13.Não, não é verdadeira a asserção de que cada um tem o que merece. Como Job - um personagem e livro bíblicos que sempre apaixonaram filósofos e os quais Michael Sandel também não dispensa - nos mostra. Hoje, em um cristianismo substituído, em muitos lugares, por uma teologia da prosperidade – isto é, a ideia de que Deus premeia a fé com saúde e prosperidade, predicada em mega igrejas evangélicas, perspectiva bem diversa da opção preferencial pelos pobres e do destino universal dos bens ensinada pela doutrina católica -, perpassa, mesmo que numa mentalidade secularizada, aquela noção de predestinação com seus sinais de salvação (os que se salvam já escolhidos, não sabemos quem são, mas podemos recolher sinais, nomeadamente o desempenho intenso de uma profissão – com seus frutos). A prosperidade é um sinal de virtude (“já é difícil separar o que é de ordem teológica, ou profana neste momento”). Em um capítulo que procede, com erudição teológica, à genealogia desse providencialismo que acomete a cada um o que merece - pensamento/crença actual, apesar de toda a filosofia pública, social-democrata com Rawls, libertária com Hayek, a negar - o mérito remeteu a graça a um canto e, num certo sentido, desafiou a omnipotência divina, tendente a (ter que) sancionar o que conquistámos, a salvação, obtida (apenas) por nossas obras (solo mérito) – conclui o Professor de Harvard: “nos nossos dias, vemos o êxito como os puritanos viam a salvação: não como um produto da sorte ou da graça, mas como algo que ganhamos com o nosso próprio esforço e afã” (p.79). 

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