25/11/20
 
 
Portugal passa os 400 novos casos por 100 mil habitantes

Portugal passa os 400 novos casos por 100 mil habitantes

Mafalda Gomes Marta F. Reis 31/10/2020 10:00

Na primeira onda, Portugal foi dos países a apertar medidas mais precocemente. Na Europa a braços com a nova vaga de covid-19, vários países estão em estado de emergência e o confinamento, agora parcial, voltou  a fazer parte da equação. Na Alemanha, a decisão foi tomada abaixo dos 200 novos casos por 100 mil habitantes. Em Itália, nos 300 mil.

As comparações não são lineares quando nem todos os países testam o mesmo, têm regras distintas em vigor e também realidades regionais, económicas e sociais diferentes. Mas as tabelas publicadas pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças sobre a incidência de novos casos de covid-19 nos últimos 14 dias mostram que, se Portugal não está entre os países europeus que neste momento vivem as situações mais graves em termos de transmissão da doença, nesta segunda onda também já não estará entre os que toma medidas mais precocemente, uma das constatações dos peritos na primeira vaga. A análise foi feita na altura pela Escola Nacional de Saúde Púbica: as escolas fecharam quatro dias após os primeiros 50 casos de covid-19, mais cedo do que outros países. Em Espanha 12 dias depois, no Reino Unido 18. Os serviços não essenciais, encerrados com o estado de emergência decretado a 18 de março, pararam quando o pais tinha registado 14 mortes. Em Itália tinham morrido mais de mil pessoas.

Agora os números parecem irrisórios e urgência da pandemia soma-se a outras. Mas os dados são estes: Portugal não é o país que mais testa na UE e com os mais de 4.600 casos reportados ontem, um novo máximo diário, e 41 370 nos últimos 14 dias , o país passou pela primeira vez o patamar dos 400 casos por cem mil habitantes nesta janela temporal usada nas análises comparativas entre países a nível europeu, atingindo 402 casos por 100 mil habitantes.

Embora França ou Bélgica estejam a avançar para confinamentos parciais com uma incidência bastante superior, Itália avançou com o encerramento de teatros, cinemas e mesmo de restaurantes à noite no último domingo, quando ainda se aproximava dos 300 casos por 100 mil habitantes nos 14 dias anteriores. Já a Alemanha entra em confinamento parcial esta segunda-feira, mantendo escolas e creches abertas, mas voltando a priorizar o teletrabalho e a cancelar grandes eventos. Uma decisão tomada antes de o país passar o patamar dos 200 mil casos por 100 mil habitantes. E mesmo França, onde o estado de emergência foi anunciado a 14 de outubro por Macron, começou na altura por implementar o recolher obrigatório nas localidades com mais de 250 casos por 100 mil habitantes, entre outros indicadores, patamar já excedido em Portugal. Em Espanha, o Governo avançou com medidas na região de Madrid quando foi ultrapassado o patamar de 500 casos por 100 mil habitantes. Após a justiça anular a decisão de confinamento nas localidades com mais casos, o Governo espanhol decretou o estado de emergência em Madrid a 9 de outubro. Na região Norte de Portugal, onde é esperado o anúncio de novas medidas este fim de semana, com os dados reportados ontem pela DGS, que o SOL analisou, passou-se ontem o patamar dos 680 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias.

Achatar a curva

Angela Merkel, que anunciou as medidas para evitar uma «emergência sanitária nacional» garantindo ao mesmo tempo 10 mil milhões de euros para compensar os setores mais penalizados, foi mais longe: numa conferência com líderes europeus na terça-feira, terá defendido que os parceiros deviam ter agido mais cedo e que as realidades políticas os impediram de impor restrições, noticiou a Bloomberg, citando oficiais que participaram na reunião. O país tem seis vezes mais capacidade em cuidados intensivos do que Portugal, mas o pib per capita também está longe de ser comparável. Não sendo o país com maior PIB per capita da EU, em 2019, o produto da Alemanha distribuído pelos seus habitantes era de 37.561,2 euros em paridade de poder de compra, em Portugal este indicador situava-se em 24.387,9 euros. Se o balanço de como se sairão na segunda onda os países da UE com mais ou menos riqueza, e até onde irá a solidariedade, só se poderá fazer no fim, os custos do confinamento sobre a economia não puderam deixar de entrar na equação e avaliação dos últimos meses.

Manuel Carmo Gomes, epidemiologista, reconhece: não se reforçaram medidas mais cedo do que outros países europeus. A expectativa é que as medidas a tomar daqui em diante permitam desacelerar o crescimento da epidemia, que vai continuar a colocar uma pressão crescente sobre os serviços de saúde. «O Governo decididamente optou por não avançar com medidas tão duras como em março, diante do que é um consenso quase geral em relação ao impacto que tiveram do ponto de vista económico. Depois dependeria da alternativa. A posição que transmitimos foi sempre no sentido de serem tomadas medidas em função do risco local e das realidades locais que contribuem para a infeção, em parceria com as autoridades locais e temos essas expectativa». O investigador, um dos peritos ouvidos pelo Governo nas reuniões do Infarmed que se realizavam periodicamente na primeira vaga e também nas últimas semanas, acredita que com o reforço das medidas nesta lógica, a par de uma maior adesão às regras, o país poderá conseguir abrandar a trajetória de aumento exponencial de casos. Nos últimos dias o RT mostrou uma ligeira diminuição, mas as futuras medidas e limitação de contactos serão determinantes para uma travagem que tem de acontecer agora.

De acordo com os dados divulgados pelo Instituto Ricardo Jorge, o RT nacional baixou de 1,23 para 1,19 na semana de 21 a 25 de outubro. Também na região Norte há um ligeiro abrandamento, mas o patamar de casos ainda é muito elevado e o RT continua acima de 1,2. Carmo Gomes assinala que significa que as infeções continuam a aumentar, mas a uma velocidade ligeiramente menor do que nas últimas semanas e que se o RT começar a convergir de facto para 1, começa a ser possível definir com maior rigor o pico de infeções e até onde poderá ir a atual subida, sendo certo que nas próximas semanas continuarão a aumentar as infeções e necessidades de internamento. Neste momento, com os atuais acontecer, o pico de infeções poderá acontecer entre o final de novembro e início de dezembro, com um cenário bastante mais grave do que o que se vive atualmente.

O país teve esta semana uma média de 3.500 novos casos e deverá chegar aos 5.000 dentro de dez dias, com já habituais oscilações semanais que resultam do reporte de casos e funcionamento dos laboratórios, explicou ao SOL Carmo Gomes. Portanto, nos próximos dias é esperado que as notificações passem os 5 mil casos e podem mesmo chegar aos 6 mil na próxima semana, mas na média, a previsão é se possa chegar a uma situação de 5 a 6 mil casos dentro de duas semanas.

A capacidade para os detetar e com isso manter o isolamento, quebrar cadeias de transmissão e informar a população será central e as preocupações continuam a chegar do terreno, onde cresce a pressão nos hospitais tanto na região de Lisboa como no Norte para manter resposta a todos os doentes e não apenas os casos de covid-19 e urgências, como aconteceu na primeira vaga da epidemia. Se o compromisso era não cancelar atividade programada de todos os doentes, essa linha vermelha já está a ser pisada, disse em entrevista ao SOL José Artur Paiva, presidente do colégio de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos, que escreveu uma carta aberta ao Ministério da Saúde a defender medidas regionais imediatas e a declaração do estado de emergência. Na véspera da tomada de cisão do Governo, os intensivistas alertaram que o país falhou em três vertentes determinantes, no modelo de comunicação, no modelo de preparação do sistema de saúde e no modelo de intervenção para minimização da transmissão viral comunitária. E se continuar a falhar reiteradamente, o confinamento total acabará mesmo por ser a única solução, escrevem, pedindo que as previsões não sejam encaradas como fatalidades mas para antecipar medidas. «A suspensão da nossa vivência em domínios tão matriciais, como sejam o económico, social, escolar, universitário, cultural, espiritual, desportivo, lúdico, terá efeitos devastadores, que perdurarão por tempo indeterminado. Se agirmos agora, será ainda possível evitá-lo», escreveram em colégio os intensivistas, pedindo ao Governo medidas mais impactantes agora e a nível regional – uma estratégia que ontem ao final do dia não era claro que fosse ser seguida pelo Governo. Durante a semana, António Costa não descartou nenhum cenário, mas defendeu a menor perturbação possível na vida do país.

Segunda onda mais dura

Se algum abrandamento do crescimento de casos pode permitir ganhar tempo para ajustar os serviços de saúde e fazer os reforços ainda em falta, seja em coordenação ou recursos humanos pedidos por exemplo pelos hospitais, é já evidente que a segunda onda de covid-19 vai exigir uma capacidade de resposta muito maior. 

Ultrapassado o máximo de doentes internados em abril, tanto em enfermaria como cuidados intensivos, mantendo-se o atual ritmo de aumento de doentes (e com a subida dos casos poderão ser mais), a ministra da Saúde admitiu que a meio da próxima semana os hospitais poderão ter 2.600 doentes em enfermaria e 444 em cuidados intensivos. O SOL analisou os dados da DGS e, nos últimos sete dias, o aumento foi de 36% em enfermaria e 39% em cuidados intensivos, quase idêntico ao da semana anterior. Não houve assim uma aceleração, como aconteceu de forma mais marcada na semana antecedente, mas mantendo-se o atual ritmo, dentro de duas semanas poderia haver mais de 3.500 doentes em UCI e mais de 500 em UCI, duplicando o máximo registado em abril. Em termos de cuidados intensivos, segundo o presidente do colégio de Medicina Intensiva, o SNS tem cerca de 850 camas disponíveis para todos os doentes. José Artur Paiva pediu à tutela maior autonomia para que os hospitais possam contratar já os profissionais que consideram necessários. Sem terapêuticas específicas para a doença, que em 5% a 10% dos casos tem motivado internamento, e em que 10% a 25% dos doentes hospitalizados acabam por precisar de cuidados intensivos, a pressão será grande, bem como as perdas.

O número de mortes está a aumentar e novembro, que será um mês ainda mas duro, será o mês de lidar com o impacto de um outubro em que os casos dispararam, passou a haver recordes semanais e depois diários de casos, a maioria em jovens, mas também muito mais idosos infetados. Até esta sexta-feira, outubro registou 491 mortes por covid-19, o triplo de setembro. E o pico ainda está longe.

Ler Mais


Especiais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×