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Carlos Gouveia Martins 29/10/2020
Carlos Gouveia Martins

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Foi preciso impor obrigatoriedade no uso de máscara para o BE a tirar de vez

O Orçamento de Estado 2021 (OE21) foi, ontem, quarta-feira, aprovado na generalidade com os votos a favor do PS e as abstenções do PCP, do PEV, PAN, e ainda das duas deputadas não inscritas, Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues. Por contraponto, o PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega votaram contra o documento. E, ao seu melhor estilo político, ou seja, muito pouco coerente e deveras ziguezagueante, o BE votou contra o OE21 também! Cumpriu o que apregoa aos sete ventos desde 2016 mas, naturalmente, – ao seu estilo – contrariando agora o que se esperava que fizesse (outra vez…) em 2020: Voltar a votar ao lado do PS.

Não custa relembrar que este (ex?) parceiro de geringonça aprovou os Orçamentos socialistas de 2016, 2017, 2018 e 2019, tendo-se abstido no Orçamento de 2020 e no seu suplementar. Agora, emancipou-se da casa Geringonça e votou mesmo conforme aquilo que defende há uma mão cheia de anos: Votou contra o Orçamento de Estado proposto por António Costa.

Assim, precisamente no dia em que o uso de máscara na rua passou a ser obrigatório, o BE demonstrou a sua rebeldia e deixou cair a sua máscara política de vez.

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, tentou explicar que não pode apoiar um Orçamento que “não responde à emergência social” e “também não responde à crise sanitária”, porém, a única emergência era saber politicamente se decidiria já sabendo que estava “decidido” que o OE21 passava. Caso contrário, iriamos repetir o namoro dos últimos 4 anos, sem dúvidas.

Sabia bem que só afirmaria o voto contra quando tivesse a plenitude dos dados da aprovação deste Orçamento proposto pelo PS. Caiu a máscara oportunista do BE, há muito identificada, deixando o fel para o PCP que lá tentou manipular a sua abstenção dizendo que este sentido de voto dos comunistas não é “um ponto de chegada”. A violência verbal do PCP foi ainda mais longe, quando o líder parlamentar do PCP deixou claro que os comunistas vão ser “exigentes na fase da especialidade” e, ainda, insistindo na “necessidade de aumentar os salários, incluindo o salário mínimo nacional, mudar as leis laborais, reforçar o SNS ou valorizar o subsídio de desemprego”. Enfim, nada de retórica a que o País não se tenha habituado a ouvir da boca da esquerda sem também já estar habituado à ausência de um complemento de ideias ou propostas que sustentem estas ambições legítimas que ficam sempre bem ao ouvido.

Não sabemos se será eterno o desamor do BE pelo PS, mas sabemos que é mais um prego no caixão político de um partido que nunca estabilizou na postura ou certeza de projeto político. Seja na sua visão europeia fragmentada, na conhecida hostilidade à economia de mercado, na visão antagónica face à responsabilidade orçamental ou ainda a cegueira ideológica na saúde em que não quer ver a qualidade na prestação de serviços mas só a doutrina marxista-leninista como cura.

Assim, neste momentâneo desamor do BE com o PS, que ficou bem marcado na pele política de Catarina Martins pelas cruas tatuagens em forma de declaração verbal de Ana Catarina Mendes, que insinuou inclusive que o BE “caía nos braços da direita política”, fica também a prova de separação quando (pela primeira vez na sua vida parlamentar) Catarina Martins ouvia apupos da bancada socialista.

Está bem patente nestas últimas 72 horas de vida da Assembleia da República que foi desfeita a ilusão que durava desde 2015. A ilusão de uma aliança sedimentada do PS com as forças políticas à sua esquerda no parlamento que dispensavam qualquer “arco da Governação” para se governar Portugal. A ilusão termina quatro anos depois de ter começado com a mesma forma que se vive hoje (será?) nos Açores: Uma maioria parlamentar contra o partido mais votado em urna.

Quatro anos depois do nascimento da Geringonça, termina o casamento entre o PS e o BE que durou enquanto se viveram tempos de “vacas gordas” e, agora, com uma crise a morder os calcanhares políticos da geringonça, o BE partiu para o divórcio litigioso.

Fica uma questão no ar: Se o Bloco de Esquerda rejeitou qualquer acordo para viabilizar este OE21 - tendo mesmo decidido votar contra – será que o Governo de António Costa vai retirar da proposta todas as concessões que tinha feito aos bloquistas e a Catarina Martins? Vamos ver os próximos capítulos.

Até 13 de novembro o parlamento irá debater na especialidade o documento, sendo que a votação final está marcada para 26 de novembro.

Em dezembro, seguramente, iremos saber se o BE passa o natal com PS ou já segue a sua vida em casas separadas a fazer contas às heranças que perdeu.

Carlos Gouveia Martins


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