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Literatura. O deslumbramento do cânone

Literatura. O deslumbramento do cânone

João Oliveira Duarte 28/10/2020 17:35

Saído recentemente, organizado por António Feijó, Miguel Tamen e João Figueiredo, O Cânone junta os melhores nomes da academia portuguesa na área da literatura e dá-nos textos bastante interessantes de crítica literária num molde, no entanto, cheio de afectação e pomposidade.  

 

António Feijó, João Figueiredo e Miguel Tamen, distintos académicos da universidade portuguesa, decidiram convidar o que de melhor existe nesta última – tirando um ou outro nome que não surge, por esquecimento ou por ter sido declinado o convite– para criar esta obra saída recentemente a que deram o nome de “O Cânone”. Um dos méritos deste volume é, sem dúvida, retirar a universidade dos seus lugares normais – o ensaio longo, para especialistas –, devolvendo-a ao espaço de onde nunca deveria ter saído, o público, usando para tal de duas estratégias: textos curtos, sem grande aparato bibliográfico, e “obrigar” alguns dos seus autores a escrever sobre áreas onde não são especialistas. 
Ainda o volume não tinha chegado às livrarias e já se levantava um pequeno alarido – daqueles à medida da importância, cada vez mais diminuta, que a literatura tem actualmente. A um escriba n’O Observador apostado em provar que também ele é versado em velharias, convivendo alegremente com incunábulos e respirando o pó exuberante e distinto das mais excelsas Letras pátrias, responderam as redes sociais com a agitação típica de um fim de semana de Agosto: como assim não enfiaram Eugénio de Andrade dentro dos mortos dignos da literatura portuguesa? E Sophia, que é feito dela? E Vergílio Ferreira, que inventou Sartre em Évora ao som de Chopin, também não é suficientemente digno para comparecer no nosso pequeno panteão das Letras Portuguesas? E os outros, tantos, que foram varridos para a vala comum da literatura? Esta indigência de pensamento, ao nível das discussões futebolísticas e que faz pensar que não se merece grande parte dos textos que compõem este volume – mais interessantes e conseguindo escapar à normal e banal hagiografia académica –, mostra bem em que grau a discussão pública sobre literatura se encontra, não se conseguindo pensar fora destes esquemas de reconhecimento público que não servem para nada. Ninguém se lembrou, de facto, em lavrar protesto contrário: porquê insistir, por exemplo, em pregar Agustina neste tipo de lista quando a “difusão e aceitação da sua obra”, segundo Pedro Mexia, é inversamente proporcional à sua “qualidade e singularidade” – maneira eufemística de dizer que ninguém lê Agustina? Ausente, poderia vir com uma pequena nota: se não está, a culpa é vossa.
 Independentemente deste tipo de discussões vazias, o mais interessante, talvez, é perceber esta excessiva pulsão histórica que encontramos aqui, que abalança o discurso para o sub species aeternitatis. Porque há aqui um mistério, um pequeno desfasamento, algo que precisa de ser explicado: Por que é que juntando os melhores nomes da academia, estudiosos com provas dadas, com obra competente em todas as áreas, géneros e épocas da literatura portuguesa, aquilo com que ficamos não é mais do que este “conjunto de autores dignos de se ler”, essa forma bolorenta, esse olhar morto, que é aquele do cânone. Ou, dito de outra forma: o que é que faz com que os melhores nomes da academia portuguesa não consigam mais do que uma forma histórica de olhar o passado?

Percebe-se que haja aqui uma tentativa de dar notícia das discussões que se dão noutras latitudes (maioritariamente nos Estados Unidos) ou de tentar abrir essas mesmas discussões no espaço português – mas, como avisa logo António Feijó no início, “a sociedade portuguesa desconhece, ou reprime (...) qualquer heterogeneidade adivinhada de grupos constituintes, e ignora a incessante negociação que ela suscita”. Se o texto de Anna Klobucka – sobre as relações entre as mulheres e a literatura – e de João Figueiredo – sobre o “sair do armário” na literatura portuguesa – vão nesse sentido, outros há que de tão excêntricos não se percebe bem o que aqui fazem. “Poetas Laureados”, por exemplo. Miguel Tamen começa por dizer que o título de Poeta Laureado (que designa a “estima partilhada por um poeta no activo”, seja lá o que isso queira dizer ou como é que isso se afere sem ser fazendo uma sociologia de supermercado) “nunca foi concedido em Portugal” para, logo de seguida, afirmar que “o primeiro Poeta Laureado português num sentido moderno do termo foi João de Deus” – também não se percebe como é que se distingue o Poeta Laureado no seu sentido moderno de um outro sentido qualquer. Se o objectivo era afirmar que os poetas que são conhecidos em vida não ficam para a posteridade – será Manuel Alegre o alvo? E, se for, por que não o dizer abertamente? –, a lógica acaba por ser um pouco circular. Mas talvez aquele mais excêntrico seja, do mesmo autor, um texto intitulado “Portugal”. Quem o leia não percebe sequer do que é que Miguel Tamen está a falar: das opiniões que os estrangeiros têm sobre Portugal? Mas que estrangeiros? E quando?

“Se em assuntos de Portugal e em matéria de não-portugueses o mínimo adjectivo favorável é geralmente multiplicado por oito, o mínimo adjectivo desfavorável é dividido por mil. As opiniões desfavoráveis são descontadas como um sinal de incompreensão, ou um sintoma das intenções hostis que aqueles que não são como nós nutrem a nosso respeito”
Opinião favorável ou desfavorável relativamente a quê, em concreto? Ao país em geral? A um aspecto em particular? Em que se baseia Miguel Tamen para afirmar uma coisas destas é, de facto, um mistério. Mais: que faz um texto destes num livro sobre o cânone da literatura portuguesa?

Nietzsche tinha um nome para este tipo de projecto e para quem os encabece. Chamava-lhes “os homens históricos” (e, quem quiser, pode sempre ler à letra a palavra “homens”) – contrapondo-os à “nuvem não-histórica” daqueles que serão sempre ingratos com o passado, cegos e surdos a qualquer forma de valorização, odiando o luxo e superfluidade desta “instrução sem revigoramento”, deste pensamento anafado e bizantino.
“Chamemos-lhes homens históricos; olhar para o passado impele-os para o futuro, acende neles a coragem para continuar a viver e a esperança de que a justiça ainda se encontra por vir, de que a felicidade se encontra atrás da montanha para a qual se dirigem. Estes homens históricos acreditam que o sentido da existência virá à luz do dia durante este processo.”

Pomposos e deslumbrados com o seu próprio saber, estes homens históricos apenas conhecem a posteridade, mesmo quando tratam do passado: na literatura, não conseguem pensar além do canonização e acabam por transformar todo e qualquer autor em crédito: todo e qualquer desaforo, para usar o termo de Pedro Mexia, é rasurado em prol de uma história monumental que arregimenta os melhores para, em última análise, nos tornar melhores. Tudo aqui é já passado, discurso público, cultura, monumento que é preciso respeitar sem usar – mesmo que tivessem escolhido autores vivos. E esta forma de progressismo – que não é equivalente a uma teleologia, como se os autores se fossem superando uns aos outros – é independente, de facto, dos nomes que são escolhidos: podiam lá estar outros, podiam lá estar Sophia, Eugénio, Lobo Antunes, que a lógica seria a mesma, aquela em que o autor é o crédito que usamos para nos melhorarmos, para construir um futuro que será, se não formos recalcitrantes a este tipo de retórica, esta promessa de felicidade. 

Particularmente evidente a este respeito é o texto que Miguel Tamen dedica a Gaspar Simões e a Prado Coelho, todo ele lançado para a posteridade que estes não atingem. Tamen acha que o facto de este último não ter concedido “privilégio particular a textos primários” – um crime odioso para a academia –, de a sua tese de doutoramento ter sido inócua, de não ter tido discípulos mas “essencialmente adeptos”, de a sua “vantagem competitiva” se dever ao “acesso privilegiado a espécimes bibliográficas de circulação” constituem pontos negativos. Acaba, aliás, de forma sentenciosa: “a influência de Prado Coelho acabou quando desapareceram as últimas barreiras alfandegárias”. O carácter errático, contraditório, o gosto declarado pela última moda que trazia de Paris, o mau gosto literário que tantas vezes o fez incensar nomes medíocres do panorama português, tudo isso faz com que o nosso mais extremo contemporâneo, que do tempo só quis o passageiro, só possa ser odioso para quem se encontra atulhado de posteridade e para quem, do passado, só lhe interessa aquilo que comunica directamente com o futuro.

Numa época em que o pensamento sobre a literatura era bastante mais entusiasmado do que o actual – o que talvez se ligue à própria experimentação que acontecia, que obrigava o teórico a tentar pensar certos objectos para os quais não tinha, à partida, as ferramentas necessárias – Roland Barthes falava de uma Sociedade dos Amigos do Texto: 
“Os seus membros não teriam nada em comum (pois não existe forçosamente acordo sobre os textos do prazer), a não ser os seus inimigos: maçadores de todas as espécies, que decretam a forclusão do texto e do seu prazer, quer por crítica do significante, quer por conformismo cultural, quer por racionalismo intransigente (suspeitando de uma «mística» da literatura), quer por moralismo político, quer por pragmatismo imbecil, quer por parvoíce trocista, quer por destruição do discurso, perda do desejo verbal.”

Talvez seja necessário voltar a Barthes, que actualmente parece ter caído em descrédito junto do discurso público. Em todo o caso, Barthes consegue pensar uma relação não necessariamente histórica à história da literatura, uma que evita todos os cânones, qualquer canonização e qualquer crédito – uma que evita, enfim, os “maçadores de toda a espécie” que só conseguem pensar em termos históricos e avaliadores (antes varredor que juiz, como dizia um outro pensador famoso).

Este conjunto de textos de crítica literária consegue, diga-se, algo de paradoxal: um conjunto de ensaios bastante interessantes, sem os vícios académicos que tornam difícil furar a cultura de especialista que pressupõem, num livro que, em si, não tem interesse algum. E para que não se ache que o alvo aqui é Miguel Tamen, que conste da acta que este autor tem, pelo menos, um texto que constará, sem dúvida, em qualquer antologia de crítica que se faça destes anos de fome, aquele sobre Gomes Leal, e que a abertura do seu texto sobre Cesariny tem o mérito de o salvar da companhia-sanguessuga do surrealismo português, conseguindo irritar, aposto, os hagiógrafos desta forma de histerismo que acha que basta gritar Liberdade (com maiúscula) para se ser mui livre.
 

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