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António Cluny 27/10/2020
António Cluny

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A raiz dos problemas

Um esfoço deve ser feito para congregar os que pensam que é necessário lidar já com a situação de frente e aqueles que julgam ser necessárias, por ora, apenas medidas provisórias

Numa entrevista concedida ao El País de 22 de outubro, Chesa Boudin, o novo Procurador Distrital de S. Francisco, nos EUA, invoca, neste momento de confusão geral, uma definição clarificadora da palavra radical, usada, a propósito e a despropósito, na mensagem política atual, nomeadamente quando aplicada à esquerda do partido democrático desse país.

Diz ele, citando Angela Davis, que o melhor significado que se pode dar, em política, a essa palavra – radical – é o de atacar os assuntos pela raiz.

Acrescenta depois, já da sua lavra, que radical quer dizer ir à raiz das coisas.

Chesa Boudin falava a propósito da política criminal, mas o que ele disse podia dirigir-se a qualquer área da política.

Vivemos um momento em que a contingência do COVID parece tornar todas as políticas provisórias e, portanto, de difícil enquadramento em soluções que pretendam centrar-se no essencial dos problemas; isto mesmo quando a pandemia os expõe com a mais fria das clarezas.

Por tal razão andamos, agora, todos concentrados - e bem - na procura de soluções urgentes que ajudem a resolver o problema sanitário e, por consequência o do SNS; que, mesmo assim, aguentem o sistema de apoio à velhice e, nesse plano, minimizem a escandalosa falta de condições e a incapacidade dos lares, legais ou ilegais, para preservarem a saúde e a vida digna dos que a eles se recolhem; na procura de esquemas que vão escamoteando a real falta de rendimentos da maioria dos portugueses para sobreviverem com decência e não, como muitos, viverem, mesmo trabalhando, na mais aviltante pobreza; que atenuem a incapacidade de autossubsistência da maioria do tecido empresarial português, etc.

Estas são de facto as prioridades atuais e imediatas e destas não podemos fugir.

Acreditemos plenamente nelas, ou não, não devemos nunca, por isso, contribuir para que algumas soluções, limitadas e apenas contingentes embora, possam ser tomadas.

Delas dependem, neste momento – pese embora a sua debilidade - a vida de muitos portugueses; talvez a da maioria.

Isso não significa que não olhemos com olhos de ver para o horizonte mais longínquo e que não procuremos, desde já, ir à raiz das coisas para atacá-las de frente: pelo contrário, isso é indispensável e agora mais evidente ainda.

Nenhuma destas perspetivas – a que se dirige à raiz dos problemas e a que, por ora, apenas quer solucionar os que se mostram mais urgentes - deve, pois, impedir a outra.

Creio, até, que, se um esfoço for feito para ir congregando, desde já, os que pensam que é necessário lidar já com a situação de frente e aqueles que, por ora, julgam ser necessárias apenas medidas provisórias e que tão somente atenuem as agruras da realidade, será, desta vez possível, ir concebendo um projeto social capaz de ir à raiz dos problemas que afetam, de facto, duradouramente, a nossa dorida sociedade.

É que mesmo as medidas que alguns querem apenas provisórias abrem portas que, dificilmente, se podem depois fechar.

Elas apontam, ainda que subtilmente, o caminho inevitável de uma solução mais radical para os problemas mais gerais da sociedade, sendo por isso didáticas e mobilizadoras.

Ora, a verdade é que, na raiz de grande parte dos problemas que, neste momento, enfrentamos conjuntamente – uns e outros -, se encontra o maior e agora mais visível de todos eles: a profunda desigualdade económica, social e cultural que, de há muito, divide a sociedade portuguesa.

Por causa de tal desigualdade, a maneira como vivemos e sofremos a contingência do COVID é também diferente, mesmo que, em graus diferentes, dolorosa para todos.

Só unindo, pois, os portugueses num projeto percetível e de futuro, que vise, sem rebuço, reduzir drasticamente a desigualdade e a pobreza, assegurando, desde logo, os rendimentos bastantes para garantir a dignidade da vida de todos os cidadãos, podemos todos aceitar melhor, e consensualizar mais facilmente, as medidas provisórias que se vão impondo e de que, neste momento, não podemos prescindir, mesmo quando as não consideremos suficientes e totalmente eficazes.

Nesse esforço paciente e corajoso reside a possibilidade da construção sustentada do consenso necessário a um projeto de progresso da sociedade, mas, também, a de, nessa mesma perspetiva, estabilizar a frágil, mas ainda não dispicienda, correlação de forças existente neste momento.

E esse é, sem dúvida, o trabalho difícil, e nem sempre bem compreendido, dos que acreditam no futuro.

O que, seguramente, não podemos é deitar agora tudo a perder, pois para pior já basta assim!

Os portugueses mais carenciados nunca o perdoariam.

Os sempre irredutíveis defensores dos mais confortados na vida, esses, agradeceriam.

 

 

     

 

 


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